Lula será grato ao Nordeste?
O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viveu, ao longo de sua trajetória política, momentos que se traduziram em apoios das grandes massas. Mas foi nas horas mais difíceis que o Nordeste se tornou decisivo, sendo a região que, como se diz no jargão popular, livrou a pele do petista e garantiu a sustentação política necessária para continuar sendo uma das principais lideranças do País.
A questão é que as lideranças nordestinas, de maneira geral, carregam uma queixa recorrente: Lula, depois das eleições, parece valorizar mais os adversários do que os aliados. E, entre os próprios aliados, muitas vezes dá mais espaço àqueles que pouco contribuíram eleitoralmente do que àqueles que efetivamente têm votos, força política e capacidade de mobilização.
Leia maisO que se espera agora, sobretudo neste último mandato, é que Lula tenha coerência política suficiente para fazer jus ao Nordeste. Não se trata apenas de gratidão eleitoral, mas de reconhecimento político, de espaço nas decisões nacionais e de compromisso com uma região que, mais uma vez, teve papel determinante em sua vitória.
Foi o Nordeste que lhe deu a maioria, que sustentou seu projeto político nos momentos mais difíceis e que ajudou a construir a liderança que ele representa hoje. Essa realidade não pode ser esquecida depois da posse, nem substituída por conveniências de Brasília.
O Nordeste não pode continuar sendo lembrado apenas na hora de pedir votos e colocado em segundo plano na hora de dividir o poder. E esse reconhecimento precisa alcançar também as lideranças que efetivamente têm representatividade, votos e compromisso com a população.
Não pode, portanto, ficar restrito aos círculos mais próximos do Palácio do Planalto, nem a figuras como Gleisi Hoffmann e Paulo Haddad, cuja influência política e capacidade de articulação são questionadas por setores da própria classe política.
A pergunta é simples: Lula saberá transformar a gratidão eleitoral ao Nordeste em reconhecimento político e ações concretas? Afinal, o Nordeste já demonstrou de que lado está. Agora, cabe ao presidente demonstrar, na prática, o tamanho da importância que atribui à região que tanto contribuiu para sua trajetória e para sua permanência na Presidência da República.
A CIDADE MAIS LULISTA – Lula (PT) recebeu seu maior percentual de votos válidos no segundo turno em Carnaubeira da Penha, sertão pernambucano: 92,34%. Já Flávio Bolsonaro (PL) alcançou sua maior proporção em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, com 90,56%. O ranking considera 5.566 municípios com 100% das seções apuradas na base analisada, de um total de 5.569 cidades nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre as dez cidades com os maiores percentuais de Lula, nove ficam no Nordeste e uma no Norte. Já os dez municípios com as maiores proporções de votos em Flávio estão no Sul.

O santuário bolsonarista – Já Santa Cruz do Capibaribe, berço têxtil do Estado, manteve sua tradição bolsonarista, sendo o único município de Pernambuco onde Flávio Bolsonaro (PL) venceu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em ambos os turnos. No primeiro, Flávio obteve 52,71% dos votos válidos (28.844 votos), enquanto Lula marcou 40,11% (21.949 votos), uma diferença de 6.895 votos. No segundo, ampliou a vantagem para 53,59% dos votos válidos, superando Lula, que ficou com 46,41%. Em seu Estado de origem, Lula foi reeleito e teve ampla maioria, vencendo em todos os outros 183 municípios.
Alckmin pode assumir Fazenda – Um dos principais nomes levantados nos bastidores para assumir o Ministério da Fazenda no quarto governo Lula é o do vice-presidente Geraldo Alckmin. O fato de não ser do PT e ter um histórico de controle das contas no governo de São Paulo pesa a favor dele. Seria visto como um gesto para fora do petismo e um reforço na ideia de frente ampla. O atual titular da pasta é Dario Durigan, que tem uma boa relação com Lula e tem buscado sinalizar que gostaria de dar mais sinais de contenção de despesa. Ele está cotado para continuar, mas está tendo que lidar não só com o estresse dos mercados, mas com as movimentações de setores do governo e do PT que gostariam de ver mudanças na pasta e na conduta do Executivo, sobretudo na área fiscal.
Fonteles também entre as apostas – Outro nome cotado é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles. Com a experiência de quem foi secretário de Fazenda do estado e comandou o Comsefaz, o colegiado nacional de secretários estaduais de Fazenda, além da formação em matemática, é uma das lideranças emergentes do PT, que consolidou uma aproximação com o presidente Lula nesse segundo turno. Pesa contra o fato de acabar de ter sido reeleito para comandar seu estado. Críticos da ideia apontam que isso poderia custar caro politicamente para ele no estado e ainda não trazer o retorno nacional que ele gostaria para entrar na disputa para levar o bastão de Lula em 2030.

João e Silvio ministros – Pelo menos dois pernambucanos têm lugar quase certo no ministério do Lula 4: o presidente nacional do PSB, João Campos, cotado para Cidades ou Ciência e Tecnologia, e Silvio Costa Filho, que pode voltar a comandar Portos e Aeroportos ou o Ministério das Relações Institucionais. Falam ainda que Wolney Queiroz pode ser mantido na Previdência, mas tudo ainda está no reino das conjecturas.
CURTAS
DEFESA – Quanto a outro pernambucano, o ministro José Múcio, da Defesa, só não ficará se não quiser. Está na cota pessoal do presidente, que gosta do trabalho dele e que não se cansa de elogiá-lo por ter devolvido a paz aos quartéis.
FAZENDA – Na bolsa de apostas para a Fazenda também aparece o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. A seu favor está a atuação nos últimos meses, costurando medidas que ajudaram a tirar o governo das cordas e melhorar sua popularidade. Se isso conta para o presidente Lula, de quem ficou ainda mais próximo, por outro lado gera inquietações no mercado.
INCERTO – Com a temporada de negociações para a formação do quarto governo Lula, o destino do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é uma das principais incógnitas. Antes das eleições, ele era dado como praticamente certo para ocupar o ministério da Casa Civil.
Perguntar não ofende: Lula vai antecipar o anúncio do seu Ministério?
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