Marcada na véspera, a ligação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta sexta-feira teve uma menção sutil do americano ao processo eleitoral brasileiro, segundo relatos. Temas controversos, como a concessão da autorização para o novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Daniel Perez, assumir seu posto no Brasil, foram deixados de lado.
De acordo com relatos, Trump falou sobre a eleição de outubro de maneira informal e superficial na introdução da conversa ao perguntar como andavam as coisas no Brasil. Lula então respondeu que o sistema eleitoral brasileira era confiável, que havia muitos candidatos na disputa e tudo estava indo bem. Não foi discutido se os EUA reconhecerão o resultado. As informações são do jornal O GLOBO.
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Em seguida, ainda segundo as testemunhas, Lula mudou o assunto e apresentou os três temas que gostaria de tratar na conversa: questão tarifária, combate ao crime organizado e as guerras no Irã e na Ucrânia.
Há uma avaliação no governo brasileiro de que os EUA querem intervir no processo eleitoral do país para favorecer o candidato do PL, Flávio Bolsonaro. Em uma resposta a uma fala do americano, Lula chegou a afirmar em junho:
— Não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil.
Mesmo com essa preocupação, o tema não foi esmiuçado. Também houve referência a um eventual atuação das big techs americanas na eleição, um fonte de preocupação da gestão Lula.
A avaliação de um integrante do governo brasileiro é que com a ligação desta sexta-feira fica mais difícil que ocorra um posicionamento de Trump com questionamento à eleição após a decretação do resultado em outubro. Mesmo assim, o entendimento é que o Departamento de Estado, sob o comando de Marco Rubio, membro do primeiro escalão do governo americano mais próximo da família Bolsonaro, possa ter uma postura diferente. O governo avalia que há um desalinhamento entre as posições de Trump e do órgão sob o comando de Rubio que persistirá.
O presidente americano não mencionou na ligação, que ocorreu apenas por canal de voz, a presença do secretário de Estado ou de qualquer outro auxiliar. Do lado brasileiro, estavam presentes o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o chefe da assessoria internacional da Presidência, Celso Amorim.
Os dois presidentes também não trataram do caso dos embaixadores. Em junho deste ano, Trump indiciou Daniel Pérez para ser embaixador no Brasil. Porém, ao contrário do que prevê a Convenção de Viena, fez o anúncio antes de enviar ao país o agrément, um documento sigiloso de consulta para saber se há objeções ao indicado. O agrément só foi enviado no fim daquele mês.
O Brasil ainda deu a autorização e, como retaliação, os Estados Unidos alteraram o status do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, que agora não tem mais o direito de entrar e sair do país livremente. O governo brasileiro entende que a situação é pior para os EUA, já que a embaixadora brasileira em Washington continuar a atuar normalmente. Então, caberia a Trump puxar o tema, o que não aconteceu.
Em relação aos tarifaços de 12,5% e 25% impostos em julho aos produtos brasileiros, Lula falou que a aplicação da alíquota era infundada, prejudicava os dois países e acrescentou que a relação comercial entre Brasil e EUA deveria ser preservada. De acordo com relatos, Trump concordou genericamente com a posição do brasileiro.
Foi Lula que pediu a ligação, que durou uma hora e 20 minutos, a mais extensa conversa telefônica entre os dois presidentes até hoje. O tempo foi considerado longo para os padrões de conversa entre chefes de estado. Os auxiliares de Lula ficaram sabendo que a ligação ocorreria na véspera, quando a equipe técnica da Casa Branca procurou os para combinar a chamada para as 9h30 (horário de Brasília) desta sexta-feira.
Ao fim da conversa, ainda segundo testemunhas, Trump disse a Lula que os dois tinham um canal direto de contato e que o brasileiro poderia ficar à vontade para procurá-lo sem necessidade de intermediários.
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