O ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) afirma que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser acompanhada por uma articulação voltada ao centro político. Em entrevista ao GLOBO, o ministro avalia que o principal erro do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples na Câmara e no Senado, diz que faltou cuidado e atenção na relação com os aliados, e defende a construção de palanques estaduais capazes de assegurar governabilidade em um eventual novo mandato.
Dias atuará na coordenação de campanha da reeleição ao petista, com foco na região Nordeste. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, o ministro afirma que é preciso retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defende a prerrogativa de Lula em reenviar o nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e diz que a atuação de Flávio Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump que resultou na classificação do PCC e do CV como organizações terroristas é para “abafar o escândalo do Master”. As informações são do jornal O GLOBO.
Leia maisO presidente Lula afirmou que vai reenviar o nome do ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para uma vaga ao STF. É um erro diante do distanciamento que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem mostrado?
É possível reenviar o nome e um direito do presidente da República. Precisamos alcançar os votos que faltaram para ter a maioria, por meio de diálogo com Alcolumbre e senadores e senadoras.
É possível uma reconciliação entre Alcolumbre e Lula?
Sim. Davi Alcolumbre é, em primeiro lugar, do estado do Amapá, e lá ele é parte do campo político que apoia o presidente Lula. Além de tudo, é um líder que tem compromisso com o Brasil. De 2023 para cá, nós tivemos vários momentos de tensão gerados por vários fatores. E reabrimos, através do diálogo, boas relações que resultaram em mudanças profundas e projetos que fizeram o Brasil avançar. São dois líderes que têm seus sentimentos, suas emoções, mas são dois Poderes.
A comunicação do governo é alvo de críticas. É um dos motivos que travam o aumento da popularidade do presidente?
Não é fácil conduzir uma orquestra de comunicação governamental sem ter uma orquestra afinada, que chegue em cada canto. A eleição agora vai dizer qual é o time do governo. Hoje não está claro, tem gente que é governo em Brasília e oposição no estado, ou o contrário. Hoje, temos palanques nos estados muito melhores do que tínhamos em 2022.
O senhor fala em uma falta de sintonia nessa relação com os partidos. Defende tirar espaços no governo federal?
Você tem que compor com quem tem compromisso com o projeto. Os que se diziam governo, mas não atuavam assim, precisarão tomar a decisão. E isso está acontecendo. Estamos trabalhando com mais de um palanque em vários estados: Maranhão, Paraíba, Pernambuco…
Haverá duplo palanque em Pernambuco?
Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra. Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição (em 2022) e no segundo turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela.
Quem se coloca como oposição deve deixar o governo? Por exemplo, União Brasil e PP.
Não. Pelo modelo partidário brasileiro, a organização tem que ser pelos estados. Esse foi um erro que cometemos em querer resolver por cima. Devemos organizar estado por estado, porque é lá que sabemos quem é governo e quem é oposição. É lá que estão colados com o eleitor.
A eleição ao Senado é considerada prioritária por integrantes do governo diante do investimento que a direita tem feito para essa eleição. Como o PT e o presidente Lula estão se preparando para essa disputa?
Temos que cuidar das duas Casas e ter uma maioria simples nelas. Qual foi o erro político desse terceiro mandato do presidente Lula? A obsessão de ter dois terços na Câmara e no Senado, que era impossível, fez com que a gente não valorizasse a chance que tínhamos de ter acima de 257 votos na Câmara e acima de 41 no Senado. A gente saiu do resultado da eleição de 2022 com 39 senadores. Bastava que a gente cuidasse bem deles, buscasse dialogar com mais parlamentares e teríamos uma maioria simples que é o que um governo precisa para 95% das matérias que chegam ao Parlamento. Na Câmara, saímos com 242 deputados eleitos que, de alguma forma, no primeiro ou segundo turno, participaram da eleição apoiando o presidente Lula. E a gente não cuidou de conseguir mais 30 parlamentares. Um líder do tamanho do presidente Lula não pode, num segundo mandato, não ter isso. E se tiver matéria que precisa de mais votos, resolvemos no diálogo.
E como é possível construir essa maioria simples no Congresso? É ir mais ao centro?
Nós já estamos organizando os palanques. Temos lugares em que é um líder da esquerda apoiado pelo centro, como na Bahia, no Piauí, no Ceará. Mas a maior parte dos palanques é o centro apoiado pela esquerda. Rio de Janeiro, Amazonas, Pará por exemplo. Isso reflete esse momento do Brasil.
Essa maioria no Congresso virá por meio da construção dos palanques mais ao centro? É o que o senhor defende?
Isso, exatamente. É no estado e em cada município que as coisas acontecem. Se a gente tem esse compromisso e valoriza esse parlamentar para ser a referência do que o governo faz ali, eles passam a ser protagonistas, representando e com apoio governamental para as políticas. A população valoriza e daí nasce a fidelidade.
Flávio Bolsonaro aparecia tecnicamente empatado com o presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto. Com a revelação do áudio dele cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro houve uma mudança de cenário. Como a campanha vai explorar isso? A campanha teme a possibilidade de Flávio ser substituído por outro nome, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro?
Aprendemos a não buscar nem ter qualquer iniciativa ou desejo sobre organização de chapa adversária. Nós temos a firmeza de uma chapa com dois líderes muito experientes, o presidente Lula e Alckmin. Nessa eleição também teremos um peso muito grande para essa separação da política do crime organizado. Como uma autoridade do Senado ou da Câmara ou governador se mete com o PCC, com lavagem de dinheiro, com Vorcaro? Como é que se envolve com tantas linhas criminosas? O Vorcaro é como um posto Ipiranga do crime no Brasil. Precisa de uma mesada? Fala com o Vorcaro. Precisa fazer um filme de papai? Fala com o Vorcaro.
O governo Donald Trump decidiu classificar as organizações PCC e Comando Vermelho como terroristas, algo que o governo vinha tentando impedir que acontecesse. Isso aconteceu depois da viagem do Flávio Bolsonaro para se reunir com o Trump. Como essa decisão afeta eleitoralmente o governo?
Nada mais claro entre tantos passos do pré-candidato Flávio Bolsonaro como esse de abafar o escândalo do Master. Uma medida irresponsável, antipatriota, que coloca o interesse individual, familiar, de pequenos grupos acima do interesse maior do povo brasileiro. Veja que o presidente do Brasil, legitimamente, esteve com o presidente dos EUA, e acertaram trabalhar juntos sobre esse tema. Estamos falando de um momento em que, seguindo o caminho do dinheiro, mais se atingiu o PCC e o Comando Vermelho. Qual o interesse de chegar de forma tão subalterna perante o presidente dos EUA para fazer um pedido? Tem um risco real de prejuízo econômico para o país. Há que se avaliar do ponto de vista até do crime de lesa-pátria.
O governo avalia ser possível reverter essa decisão dos EUA?
A gente continua acreditando nos tratados internacionais. Nós não somos um país qualquer. Somos um país com soberania, democracia e laços com outros países do mundo.
O discurso dos adversários é que o governo Lula e o PT defendem bandidos. Com essa decisão dos EUA, vai ficar mais difícil o governo explicar à população que o presidente Lula e o PT não defendem bandidos?
Quem mais atingiu o coração do crime foi o governo Bolsonaro ou foi o governo Lula? Quem mais prendeu criminosos? Quem mais teve a coragem de alcançar os grandões do crime? Foi o governo do presidente Lula. Acho que aqui se tenta abafar, esconder o elo entre criminosos do Master com o PCC. Quem tem que se explicar são eles.
Está no horizonte aumentar o valor do Bolsa Família?
É uma decisão que não será para este ano de 2026. Vamos tratar quando o governo for falar do Orçamento de 2027, que é a hora que podemos avaliar que mudanças podemos fazer. A princípio não há razão para alteração neste momento. Essa discussão acontece em outubro, em novembro, depois das eleições e fora de qualquer discussão política, é uma discussão mais técnica. Será uma decisão do presidente Lula.
Leia menos


















