Por José Nêumanne Pinto*
Os dois Josés — Juca de Oliveira e Nêumanne Pinto — chegaram a São Paulo no fim dos anos 60 e no momento mais duro e pesado da ditadura militar de 1964: os sangrentos últimos anos do decênio. Ele, nascido em São Roque, nas proximidades da capital, veio para estudar na Escola de Arte Dramática de São Paulo após ter resolvido abandonar o Direito como profissão. Eu, sem diploma algum, estreava na reportagem local da Folha de S.Paulo de Frias e Caldeira, sob chefia de J. B. Lemos, como setorista do Metrô no início da obra fantástica: fui o primeiro profissional de imprensa a andar de tatuzão, que perfurava o túnel sob o centro da maior cidade do Brasil.
Ele, após adotar seu ofício, convivendo com os colegas de classe Aracy Balabanian e Glória Menezes. No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) brilhou em peças como “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, e “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. Formado, foi ainda colega de uma geração brilhante: Augusto Boal, Flávio Império e Paulo José, montando textos que se tornariam clássicos de Gianfrancesco Guarnieri: “Eles não Usam Black-Tie” e “O Filho do Cão”. Depois do espetáculo no Teatro de Arena, a turma se reunia no Redondo, esquina de Avenida Ipiranga e Rua da Consolação. O jornalista iniciante na plateia, mas sem renda para participar dos comes e bebes.
Leia maisÀ época, o ainda iniciante Juca já era famoso por ter participado da telenovela “Nino o Italianinho”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão quando, em encontro no Redondo, Plínio Marcos, do elenco da revolucionária “BetoRockefeller”, escrita por Bráulio Pedroso, nos apresentou um ao outro.
Com a Tupi fora do ar, Juca mudou-se para o Rio, onde participou dos famosos elencos de telenovelas sob os auspícios do paulista Boni: “Selva de Pedra” e “O Astro”. Na fase mais aguda da tirania militar ele mudou-se para a Bolívia, mas o exílio durou pouco e ele brilhou interpretando João Gibão, de “Saramandaia”, de Dias Gomes, o doutor Albieri em “O Clone”, de Glória Perez e o vilão Santiago Moreira, de “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro.
O capítulo final de sua biografia foi dedicado a sátiras às vilanias da política nacional em sucessos teatrais dedicados a denunciar a roubalheira na vida pública como “Meno Male” e “Caixa Dois”. Nessa ocasião tive o prazer e a honra de conviver com o trio composto por ele, Irene Ravache e Fúlvio Stefanini em denúncias cômicas e ferozes. Nestas dividiu o palco com damas como Bibi Ferreira e jovens estrelas como Adriane Galisteu.
Também encenou Shakespeare tendo encomendado a adaptação do poeta Geraldinho Carneiro de “O Rei Lear” num monólogo, enchendo plateias com o desafio enfrentado pelo seu talento.
Aposentado na fazenda com Zu, sua mulher, filha de Fernando Faro e Iarinha, não parou de contribuir com a cultura atuando até o fim da vida na Academia Paulista de Letras. Agora pratica seu esporte favorito ler os poemas favoritos no céu.
(A foto é de julho de 2014, na estreia de “Rei Lear”)
São Paulo, 21 de março de 2026
*Jornalista, poeta e escritor
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