Por Tatiana Farah – UOL
Diz um provérbio antigo que “em casa onde falta pão todos brigam e ninguém tem razão”. Neste segundo turno, poderia ser adaptado para “campanha em que faltam votos…” Este é o espírito que tem dominado o comando da corrida do presidente Lula à reeleição: acusações mútuas, muita lavação de roupa suja e um fratricídio político típico de quem não esperava um resultado tão ruim como foi o primeiro turno. O maior alvo das críticas é o presidente do PT, Edinho Silva, seguido da primeira-dama, Janja. E não faltam também críticas ao próprio candidato.
É neste clima pesado que Lula convocou três novos coordenadores, o que vai, na prática, diminuir o poder de Edinho na campanha. O UOL apurou que o ex-ministro Camilo Santana vai assumir a coordenação política e o ex-ministro Rui Costa, a agenda. O governador Rafael Fonteles também entrará em campo, assumindo a comunicação.
Leia maisLula não tem poupado Edinho. Em reunião com deputados nesta quarta-feira (7), afirmou que reclamou com o dirigente de que esta foi a campanha mais desorganizada desde que ele concorreu pela primeira vez ao Planalto, em 1989, e que estava “aquém” de sua possibilidade. Foi uma crítica dura, que Edinho teve de ouvir diante de todos, ao lado do presidente.
Se a mudança na coordenação pode aplacar a guerra interna no comando da campanha, outra queixa será ignorada por Lula: o protagonismo de Janja nos palanques e nos bastidores. A insatisfação foi verbalizada pela ex-ministra Katia Abreu, mas tem apoio de grande parte dos dirigentes petistas. Segundo “O Globo”, Janja afirmou à ex-ministra que sua participação na campanha ocorre a pedido de seu marido, o presidente.
“A fala de Janja sobre Nikolas (Ferreira) ser um ‘piá de bosta’ rendeu os votos de cinco deputados para o PL em Minas”, queixou-se uma pessoa da direção à coluna, referindo-se aos mais de três milhões de votos do deputado no estado. Até o fato de a primeira-dama cantar um jingle de teor evangélico nos comícios tem incomodado os dirigentes, que acreditam que essa atuação piora o relacionamento de Lula com religiosos.
Mas o presidente está longe de declinar da participação de Janja. Ontem, pediu desculpas a ela por não ter aceitado antes a ideia de fazer vídeos em estilo selfie para a campanha. Esse tipo de conteúdo não era pedido apenas por ela, mas pelo QG de marketing. Mas o fato é que o presidente, agora com os apelos dos deputados mais jovens eleitos no domingo, começará a fazer esse tipo de vídeo, o que vai mudar um pouco a cara da campanha nas redes sociais.
Nesse tiroteio, não têm faltado críticas ao próprio presidente. A coluna ouviu reservadamente dirigentes que consideraram que o petista começou a campanha do primeiro turno de “salto alto” e subestimou o adversário. Além disso, impôs que a propaganda falasse mais de seu legado e não do futuro, contrariando a proposta do ministro Sidônio Palmeira e do marqueteiro Rui Rabelo.
Agora, Lula parece querer assumir as rédeas: desde segunda-feira tem se reunido com dirigentes, parlamentares, candidatos de todo o país derrotados ou vencedores, numa clara mudança de postura. Tem sido mais agressivo em relação a Flávio Bolsonaro e faz críticas mais incisivas aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Deixou o tema da soberania nacional e abraçou o da segurança pública. E está fazendo do fim da escala 6×1 um diferencial entre petistas e bolsonaristas.
Sobre segurança pública, arriscou um slogan nesta quarta-feira, dizendo que seu eventual quarto mandato protegeria os trabalhadores e mandaria os criminosos para a cadeia. Ainda neste tema, tanto o presidente quanto os líderes lulistas têm afirmado que Flávio não teria condições de combater o crime organizado e teria ligação com as milícias.
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