Por Marlos Porto*
A chegada do psiquiatra e escritor Augusto Cury ao noticiário político despertou um debate que vai além das preferências partidárias. Seu nome como candidato à Presidência da República reacendeu uma discussão crucial sobre conflitos de interesses de postulantes a cargos públicos. Escancara também um discurso pedagógico que, sob a aparência de inovação, pode estar prestando um desserviço silencioso às vítimas de violência escolar.
Cury construiu um império editorial com milhões de livros vendidos e um programa de educação socioemocional, a Escola da Inteligência, cuja empresa foi avaliada em um bilhão de reais. O negócio vende metodologia e material didático para centenas de escolas e tem nas prefeituras um importante cliente. O histórico revela um modelo de negócios que se alimenta, em boa medida, de dinheiro público.
Leia maisA expansão desse modelo, contudo, não se limita à venda direta de materiais e treinamentos. Ela se sustenta em uma capilaridade que transforma gestores públicos em potenciais compradores e divulgadores da metodologia. A ausência de vedações legais claras para esse tipo de vínculo cria um terreno fértil para que interesses privados se entrelacem com a formulação de políticas educacionais, sem que haja o devido escrutínio público.
Aqui reside o equívoco central do projeto que agora tenta ganhar escala nacional. A metodologia da Escola da Inteligência tem sido alvo de críticas de pesquisadores, que a veem como uma promessa de apaziguamento e conformação dos alunos. Ao focar no desenvolvimento da resiliência e do autocontrole da vítima, a abordagem pode, na prática, escamotear a responsabilidade da instituição de ensino.
Em situações de bullying, a Lei 13.185/2015 obriga a escola a prevenir e combater a violência de forma ativa. No entanto, o discurso que enfatiza que o aluno deve aprender a gerir melhor suas emoções diante da agressão opera uma transferência preocupante: se a vítima continua sofrendo, é porque não desenvolveu inteligência emocional suficiente. A falha deixa de estar na omissão da escola ou do sistema e passa a recair sobre a suposta incapacidade individual do estudante de lidar com o trauma. O selo de escola emocionalmente inteligente corre o risco de se tornar um tapete sob o qual se varrem problemas que exigiriam intervenções estruturais.
A notoriedade de Augusto Cury e sua candidatura a um cargo público de primeira grandeza tornam esse debate urgente. O risco não está no resultado das urnas, mas na própria candidatura como ferramenta. Ainda que se confirme uma votação irrisória, a simples passagem pelo palco eleitoral já seria suficiente para projetar nacionalmente sua assinatura e, por tabela, os produtos que carregam seu nome. Não seria a primeira vez que uma campanha serve, na prática, como mola propulsora de uma marca.
O problema não é existir um negócio privado legítimo, mas a possibilidade de instrumentalização da política para alavancá-lo. Utilizar a projeção que a política confere com a finalidade de vender mais seria, no mínimo, uma inversão perversa do que se espera de quem um dia pede o voto do cidadão.
*Analista político
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