Por Djnaldo Galindo*
Há sobrenomes que são um peso e uma bússola. Lyra, em Pernambuco e no Brasil, é um deles.
Fernando Lyra, tio de Raquel, não foi um político que surfou a história; ele a empurrou. Primeiro ministro da Justiça da redemocratização, foi o responsável pelo fim da censura oficial, passo fundamental na reconquista da liberdade de expressão no País. Exímio articulador, um dos expoentes da formação da Aliança Democrática, foi chamado por Pedro Simon de “grande arquiteto no processo de transição política”. Quando o país estava mergulhado no arbítrio, ele foi o mestre de obras da democracia.
Fernando Lyra entendeu algo que a sobrinha governadora parece ter desaprendido: em momentos de encruzilhada histórica, não há neutralidade inocente. Há apenas omissão calculada.
Leia maisRaquel Lyra foi reeleita para o governo de Pernambuco no primeiro turno das Eleições 2026. Logo em seguida, confirmou que manterá uma posição de neutralidade na disputa presidencial do segundo turno entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A justificativa oficial é a “coerência” desde 2022 e o foco em Pernambuco.
É a mesma estratégia do primeiro turno, agora repetida quando a reeleição já está assegurada. É pragmatismo puro. E é, filosoficamente, uma abdicação.
Pernambuco deu a Raquel mais de um milhão de votos declaradamente lulistas. O eleitor pernambucano que a reelegeu votou, majoritariamente, num projeto nacional que é antagônico ao que Flávio Bolsonaro representa. Ao lavar as mãos, a governadora não está sendo neutra: está dizendo a esse eleitor que seu voto para o Planalto tanto faz. Está transformando a legitimidade que recebeu em moeda de troca para negociar dividendos com quem quer que vença.
É aqui que a filosofia cobra sua conta. A neutralidade, quando apresentada como virtude administrativa, é na verdade um vício moral.
O Cristo, no Apocalipse, foi taxativo contra os mornos: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15-16). A tibieza não é prudência. É repugnância espiritual. É recusar-se a escolher entre o bem e o mal sob o pretexto da temperança.
Dante Alighieri, no Canto III do Inferno, reservou o Vestíbulo do Inferno — nem dentro, nem fora, o lugar mais desprezível — aos ignavos, aos que nunca tomaram partido. A eles, nem o Inferno quer. A frase que atravessou séculos e que lhe é atribuída resume: “O lugar mais quente do inferno é reservado para aqueles que se mantêm neutros em tempos de grande crise moral.”
Estamos em uma crise moral. Não se trata de uma disputa entre dois gestores. Trata-se de escolher entre a democracia que Fernando Lyra ajudou a construir — aquela sem censura, com liberdade de expressão — e um projeto que flerta abertamente com sua desconstrução. A neutralidade de Raquel diante da possibilidade concreta de vitória de Flávio Bolsonaro não é equilíbrio. É cálculo.
Fernando Lyra, em seu lugar, jamais se calaria. Ele que enfrentou a ditadura quando o custo era a prisão, o exílio, a vida; que articulou a Aliança Democrática quando tudo podia ruir, não se esconderia atrás de obras da BR-232 e do Hospital da Restauração para justificar o silêncio. Ele sabia que governador também é pedagogo da República. Que liderar Pernambuco — berço de tantas revoluções — exige dizer de que lado se está quando a democracia está em jogo.
Raquel, a pergunta não é o que Pernambuco ganha com sua neutralidade. A pergunta é o que o Brasil perde com ela. E o que seu tio, que deu a vida para que você pudesse ser governadora numa democracia livre, pensaria de uma herdeira que, podendo escolher, escolheu não escolher.
*Analista político
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