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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro criou uma rede de influência em sites de notícias por meio de patrocínios e investimentos de empresas ligadas a ele, mostram mensagens extraídas pela PF (Polícia Federal) em seu celular. Por meio desses aportes, ele interferia em critérios jornalísticos das redações e decidia o que deveria ser publicado e em qual tom.
As conversas em seu celular indicam que ele conseguiu influenciar diretamente notícias publicadas nos sites Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, DCM e CartaCapital.
O PlatôBR tem como sócia a Foone, empresa de Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro. Em março de 2025, dois dias depois do anúncio da compra do Master pelo BRB, Carneiro combinou com Vorcaro que mandaria a ele textos antes da publicação. “Vou te mandando as minutas e você analisa e publicamos”, escreveu.
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Naquela noite, enviou ao banqueiro a íntegra de uma entrevista do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, ao PlatôBR. “Entra agora à noite!”. Vorcaro reclamou da chamada: “Colocar esse tema precatório no subtítulo também não é legal”.
Na manhã seguinte, com a matéria no ar e já corrigida, ele voltou a reclamar do destaque dado aos precatórios. “Vamo alterar agora”, respondeu Carneiro.
Em agosto de 2025, Vorcaro deu uma ordem: “Não deixa Platô falar de Ciro e Rueda”, em referência aos presidentes do PP, Ciro Nogueira, e do União Brasil, Antônio Rueda.

No mesmo mês, pediu que o site atacasse Ricardo Cappelli, então presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e pré-candidato ao governo do Distrito Federal. “Tem que pegar o Platô e moer esse Cappelli”, escreveu. “Vamo desancar esse desgraçado”, respondeu Carneiro, que disse que iria “alinhar isso no Platô e no Correio”.

Quando o PlatôBR publicou notas negativas sobre o banco, em abril de 2025, Carneiro disse que ia pedir para tirar as reportagens do ar.
Carneiro também era investidor das publicações IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, controladas por Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, apontado como operador financeiro de Vorcaro.
Em 2024, o dono do Master encomendou a Carneiro uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a farmacêutica Biomm, em que havia investido. “Na IstoÉ é que controlamos mais”, disse Vorcaro a Carneiro.

Em setembro daquele ano, escreveu ao assessor: “Qualquer coisa de Ciro, Arthur, Hugo não pode sair nada sem me falar”. “Vou colocar o Lira nessa lista agora”, respondeu Carneiro.

O UOL procurou Carneiro para falar sobre as trocas de mensagens com Vorcaro e sua relação com o PlatôBR e a IstoÉ e aguarda um posicionamento.
Brazil Journal
No Brazil Journal, Vorcaro era consultado diretamente pelo fundador do site, Geraldo Samor, sobre reportagens do Master antes que elas fossem publicadas. O banqueiro pedia alterações, que eram prontamente atendidas pelo jornalista.
Lá, a participação do ex-banqueiro foi feita por meio de terceiros. Em 2023, Samor criou a BJ Conteúdo, empresa de vídeos e eventos do site. A Foone, de Flávio Carneiro, amigo de Vorcaro, ficou com 49,86%.
Em dezembro daquele ano, Vorcaro e Carneiro discutiram como incluir o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da IstoÉ, na Foone.
“Não dá pra ele aparecer como sócio do Geraldo no Brazil Journal. Vai sujar a água”, escreveu Carneiro a Vorcaro. A solução sugerida foi “fazer uma Foone 2 e pôr só o BJ lá” para oficializar o investimento.
Depois disso, Samor passou a consultar Vorcaro sobre textos do Master antes de publicá-los.
Em fevereiro de 2024, Samor escreveu: “Flávio acaba de me mandar o texto. Vou trabalhar. Você quer isso publicado amanhã cedo?”. Na manhã seguinte, o banqueiro pediu: “A frase avenida pra agronegócio você pode tirar?”. Samor respondeu: “Atualizado”.

Dias depois, o site publicou a compra do Will Bank. Vorcaro pediu: “Me faz um favor, tira o nome Voiter, vamos falar só que anunciamos reorganização societária”. Samor respondeu: “Mudei”.
Em abril de 2024, Samor mandou a Vorcaro o texto sobre o evento do Master em Londres com Tony Blair. “Flávio falou que você queria ver antes”, escreveu. Depois, enviou uma “versão mais curta” e disse: “Na nossa opinião, perdeu muito. Mas entendemos a limitação”.
Na mesma conversa, Vorcaro pediu para que Samor acrescentasse que “os três ministros do STF” (Supremo Tribunal Federal) tinham se reunido “privadamente” com Blair antes do debate. Ele citou Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

Samor também foi procurado para se posicionar, mas não respondeu aos contatos do UOL.
Sites de esquerda
O DCM (Diário do Centro do Mundo) recebia uma mesada para não publicar críticas a Vorcaro, segundo mensagens de Felipe Mourão, responsável pela reputação digital do banqueiro. Era ele quem negociava com o site.
Em outubro de 2024, depois de uma nota negativa, Vorcaro mandou Mourão fazer “uma parceria direito” com o DCM, com “um valor mensal”. A condição era que não saísse “uma frase com meu nome ou Master”.
Segundo Mourão, o diretor do site quis “saber sobre os alvos” antes de fechar. Dois dias depois, contou que o acordo estava firmado e que o DCM removeria qualquer texto negativo que viesse a sair.
O trato também permitia ao grupo publicar no site, todo mês, “uma matéria positiva ou negativa de alguém”. Em 21 de outubro, Mourão confirmou ao banqueiro que o “Dcm está pago e fechado”.
Mourão já submetia a Vorcaro os textos que sairiam no site. Em janeiro de 2024, o banqueiro vetou uma menção ao pai, Henrique Vorcaro, e pediu que o nome dele fosse sempre desvinculado das reportagens.
Em maio de 2025, quando o DCM publicou um artigo crítico ao Master, Vorcaro mandou “tirar isso imediato”. O texto foi apagado no mesmo dia, segundo mensagem de Mourão.
O DCM foi procurado após a publicação da reportagem. O posicionamento do site será publicada assim que for enviada.

Na CartaCapital, a relação era mais antiga. A revista fechou em 2021 um contrato de patrocínio de cinco anos com o Banco Máxima, que depois passaria a se chamar Master. Em dezembro de 2020, o banco já tinha adiantado R$ 300 mil à revista.
O dinheiro ajudava a pagar salários. A diretora da revista, Manuela Carta, avisou a Vorcaro que precisaria de “mais um recurso para a próxima folha de pagamentos” no início de 2021.

Em agosto de 2023, a revista deixou com Vorcaro a decisão sobre publicar uma reportagem que vinha preparando. Naquele mês, Carta e o dono do Master se encontraram para tratar da eventual entrada dele como sócio da revista, possibilidade que vinha sendo discutida havia um ano.
Três dias depois do encontro, ela enviou a Vorcaro dados sobre a dívida da revista e sinalizou que aguardaria então uma proposta do banqueiro.
A negociação de compra não se concretizou. Em 2024, Carta pediu um “adiantamento de publicidade”, e Vorcaro se ofereceu para ajudar “fora do banco”.
Em nota, Manuela Carta, publisher de CartaCapital, informou que o Banco Master “fechou um contrato de publicidade com a editora em 2021 e anunciou na revista até 2023. Tratava-se de um contrato regular de veiculação de anúncio, conforme as regras do mercado publicitário.”
Segundo Manuela, “o grupo voltou a anunciar nesta publicação por meio da seguradora Kovr e do banco digital Will, em termos semelhantes ao que se deu com inúmeros meios de comunicação brasileiros”.
Manuela diz, ainda que Vorcaro nunca a procurou para pedir a publicação de notícias positivas ou interferir em qualquer tipo de conteúdo jornalístico, “o que, obviamente, seria um erro, dada a separação entre a área comercial e a redação”.
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