Por Antônio Campos*
A eleição presidencial de 2026 começa a revelar uma característica que pode ser decisiva: o eleitor brasileiro ainda não está completamente acomodado nos dois polos que, até aqui, dominam a disputa. É justamente nesse espaço que Augusto Cury tenta entrar.
O candidato do Avante ainda aparece com apenas 2% nas pesquisas mais recentes, tendo como vice Júlio Delgado, tanto no levantamento Quaest quanto no BTG/Nexus. À primeira vista, é um número pequeno. Mas seria um erro concluir que sua candidatura está condenada a permanecer pequena.
Leia maisCury tem uma vantagem que muitos candidatos tradicionais não possuem: é conhecido nacionalmente antes mesmo de entrar na política. Psiquiatra, professor e escritor, construiu uma carreira editorial com milhões de livros vendidos e uma presença pública que ultrapassa o universo político. Sabe manejar as redes sociais.
E há outro fator importante: Cury não chega à eleição tentando ser mais um personagem da guerra entre Lula e Bolsonaro. Sua estratégia é apresentar-se como uma alternativa à polarização, apostando em educação, saúde emocional, segurança, mudança institucional e em um discurso de pacificação. No primeiro debate presidencial, realizado pela Band, essa foi uma das marcas de sua participação.
É aí que está o potencial de crescimento.
Augusto Cury provavelmente não será o próximo presidente da República. Hoje, os números não autorizam essa previsão. Mas uma candidatura não precisa chegar ao Planalto para ser decisiva. Em uma eleição fragmentada, poucos pontos percentuais podem determinar quem fica pelo caminho e quem continua na disputa.
A pergunta mais interessante, portanto, não é se Cury ganhará a eleição. É quanto ele poderá crescer.
Se conseguir transformar sua imagem de escritor e especialista em comportamento humano em uma candidatura política competitiva, Cury pode conquistar justamente aquele eleitor que está cansado da polarização, mas que também não se sente representado pelos candidatos tradicionais.
Esse eleitor existe. E pode ser maior do que as pesquisas atuais conseguem capturar.
A eleição começa com Lula e Flávio Bolsonaro concentrando a maior parte das intenções de voto. No BTG/Nexus divulgado nesta semana, Lula aparece com 41% e Flávio com 37%. Na simulação de segundo turno entre os dois, há empate técnico: 46% a 45%.
O dado mais importante, porém, está abaixo dos dois líderes. Caiado tem 5%, Renan Santos e Zema aparecem com 3%, e Cury registra 2%.
É justamente nessa faixa que uma candidatura pode crescer rapidamente.
Cury não precisa necessariamente ultrapassar Lula ou Flávio no primeiro turno. Precisa apenas conquistar uma fatia significativa dos eleitores que hoje estão distribuídos entre candidaturas menores, indecisos e aqueles que ainda não encontraram um nome capaz de convencê-los.
E existe uma consequência ainda mais relevante.
Quanto mais Cury crescer, mais difícil fica prever quem chegará ao segundo turno.
Uma candidatura de 5%, 6% ou 8% pode parecer pequena diante dos líderes, mas pode retirar votos suficientes de um dos favoritos para mudar completamente a matemática eleitoral. Em uma disputa apertada, o candidato que cresce não precisa necessariamente ser o vencedor. Pode ser o responsável por impedir que outro vença.
É nesse sentido que Augusto Cury pode se transformar em um personagem importante da eleição de 2026.
Seu slogan resume a estratégia: “O Brasil tem cura”. A frase não é apenas uma peça de campanha. Ela tenta traduzir uma narrativa política: o país estaria cansado de conflitos permanentes e precisaria de uma espécie de tratamento para seus problemas institucionais, sociais e econômicos. A expressão vem sendo utilizada pelo próprio candidato em sua comunicação de campanha.
Cury tenta vender esperança onde a política brasileira vende conflito.
Esse pode ser seu maior trunfo.
Mas também está aí sua maior dificuldade. A Presidência da República não é um consultório, uma palestra ou uma livraria. Governar o Brasil exige capacidade política, articulação no Congresso, experiência administrativa, conhecimento de orçamento público e capacidade de enfrentar interesses organizados. Ele tenta neutralizar esse aspecto, com o discurso de gestor de suas empresas e empresário também do agronegócio.
Cury ainda precisa provar que consegue transformar seu discurso em projeto de governo viável.
Mesmo assim, sua candidatura merece atenção.
Porque, se a campanha conseguir ampliar sua presença nacional, ocupar espaço no horário eleitoral, crescer nas redes sociais e converter sua enorme popularidade como escritor em voto, Cury poderá deixar de ser apenas um candidato alternativo para se tornar o fiel da balança.
E aqui está a grande ironia da eleição: Augusto Cury pode não ter votos suficientes para ganhar a Presidência, mas pode ter votos suficientes para decidir quem terá a oportunidade de disputá-la no segundo turno.
Lula, por sua vez, não chega ao segundo turno com tranquilidade absoluta. As pesquisas mostram liderança no primeiro turno, mas também apontam uma disputa apertada contra o opositor do segundo turno.
Isso significa que qualquer candidatura capaz de retirar alguns pontos dos favoritos terá importância estratégica.
É por isso que Augusto Cury deve ser observado com atenção.
Ele pode não ser o presidente que o Brasil escolherá em outubro
Mas pode ser o candidato que ajudará a escolher os dois nomes que chegarão à decisão final.
E, numa eleição tão polarizada, talvez essa seja uma das posições mais poderosas que um candidato possa ocupar.
O Brasil tem cura, diz Augusto Cury.
A política brasileira, entretanto, talvez ainda precise descobrir se a cura passa por ele.
E essa resposta não estará nas pesquisas de agosto. Estará nas urnas.
*Advogado e escritor.
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