Das três eleições que levaram Miguel Arraes ao Palácio do Campo das Princesas, a mais emocionante, para não se apagar da memória, foi a de 1986. Se deu no campo ideológico da esquerda contra a direita. Arraes estava de volta ao Brasil depois do exílio na Argélia e incutiu no eleitor o sentimento de que havia sido injustiçado com a cassação do seu mandato de governador no golpe de 64.
O discurso da perseguição contaminou o coração dos pernambucanos. Arraes precisava voltar ao poder, usurpado das suas mãos de forma violenta. E a volta teria que ser pela porta que saiu, conforme a estratégia de marketing na propaganda eleitoral, cujo ápice era um trem simbolizando o regresso. Os marqueteiros capricharam no tom emocional.
Leia maisNenhum adversário seria capaz de derrotá-lo. Nas ruas, na TV, no rádio, nos palanques, tudo era “Volta, Arraes”. Quase imberbe, vindo de uma eleição municipal como prefeito de sua terra natal, Rio Formoso, José Múcio Monteiro, hoje ministro da Defesa de Lula, era o jovem velho, Arraes o velho jovem. Nas ideias e pensamentos, no melhor para o Estado. Múcio já sabia que nem um milagre o levaria a escapar de uma surra monstruosa nas urnas. E assim ocorreu.
Já na segunda volta de Arraes, em 1994, o fracasso da gestão de Joaquim Francisco pavimentou o caminho para a vitória do mito. A quarta e última eleição que disputou, em 1998, veio a se traduzir, no entanto, na mais traumática e sofrida. Arraes estava no apagar das luzes de um governo extremamente desgastado, sem nada novo, conflituoso. E seu adversário, o hoje senador Jarbas Vasconcelos, havia unido em torno dele todas as forças de centro-direita que o velho cacique combatia.
Vendo Jarbas abraçado a Marco Maciel, Roberto Magalhães, José Múcio e tantas outras lideranças expressivas do campo da direita que se opunham a ele, disse que o ex-aliado de esquerda e de tantas jornadas, inclusive na luta contra a ditadura, havia escolhido o “caminho da perdição”. Jarbas entrou na campanha com a mesma áurea daquele Arraes de 86, o super favorito, o que, mais tarde, se confirmou nas urnas quando deu uma surra eleitoral de mais de 1 milhão de votos de diferença, enterrando o mito.
Sem a quem apelar, no mato sem cachorro, Arraes precisava de uma luz na campanha para derrotar Jarbas. E eis que lhes fazem a cabeça para contratar o marqueteiro Duda Mendonça, que parecia ter a receita milagrosa, reverter derrotas, com uma varinha de condão.
Duda aterrissa no Recife e segue direto para uma reunião com Arraes e sua equipe de campanha. Abre um painel com um amontoado de slides, diagnósticos, tabelas, enfim, um amontoado de projeções e números para concluir que só um milagre levaria Arraes a derrotar Jarbas.
Já sem paciência diante da chatice da explanação, Arraes, que não perdia uma oportunidade diante de um ambiente pesado para descontrair com o seu humor, pegou a deixa de Duda e sapecou: “Mas você foi contratado para fazer o milagre. Se vire!”.
O encontrou acabou com uma sonora gargalhada coletiva.
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