Resultado de 95% das seções totalizadas até o momento para a presidência da República. Lula com 50,66% e Bolsonaro com 49,34%.
Resultado de 95% das seções totalizadas até o momento para a presidência da República. Lula com 50,66% e Bolsonaro com 49,34%.
Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O relatório do DSC Lab que mediu o comportamento das redes sociais durante a sessão de UFC verbal no octógono do Supremo Tribunal Federal (STF) traz ainda muito mais achados do que os que foram mencionados aqui no Correio Político na edição de fim de semana. O relatório assinado por Tiago Falqueiro, diretor do DSC Lab, mediu o dano produzido na reputação dos ministros do Supremo que se enfrentaram naquele dia vexaminoso para a história da República brasileira.
E mostra que quase ninguém – ou mesmo ninguém – se saiu bem do episódio. O DSC Lab mediu ainda os impactos de tudo na corrida eleitoral. E, pela observação do que ocorreu nas redes sociais naquele dia, novamente a crise STF/Master não ficou boa para ninguém, dada a amplitude de ataques para todos os gostos. Numa eleição acirradíssima, toda reação do eleitor é importante de ser observada.
Leia maisO DSC Lab criou um método de pontuação para aferir o quanto os comentários nas redes sociais afetam a reputação de quem é mencionado. A pontuação aponta tanto para um nível de criticidade – quando o dano fica claro – quanto para um nível de risco – que estabelece uma situação de alerta. E a avaliação mostra que as coisas não acabaram boas nem para Alexandre de Moraes nem para André Mendonça, os dois principais antagonistas do embate da terça-feira (15).
Moraes, sem dúvida, foi o mais afetado. Ficou com 88,8 pontos de criticidade e 90,2 pontos de risco à reputação. Mas Mendonça não ficou muito longe dele. Seu nível de criticidade ficou em 78,6 pontos de criticidade e 79,9 pontos de risco. A intensificação do debate na terça ampliou também o nível de percepção quanto ao papel de cada um. “Moraes ficou associado às mensagens, aos contratos e à legitimidade de sua participação. Mendonça concentrou a disputa sobre condução, sigilo e validade da apuração”, observa Tiago Falqueiro.
A análise feita pelo DSC Lab mostra que o dano à reputação virou um risco para todos os dez ministros do Supremo Tribunal Federal. O presidente do STF, Edson Fachin, também ficou com pontuação alta: 61 pontos de criticidade e 61,4 póntos de risco à repútação. Todos os demais ministros passaram a apresentar risco moderado às suas reputações. Inclusive Cármen Lúcia, com a pontuação mais baixa.
Curiosa é a situação que o DSC Lab avalia quanto à repercussão do caso junto aos dois principais adversários na corrida eleitoral deste ano. Nos últimos dias, a percepção que passava era que Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato à reeleição, estava nas cordas. E que Flávio Bolsonaro (PL) se aproveitava aumentando o tom da crítica.
Os acontecimentos da terça-feira e dos dias próximos, no entanto, fizeram com que, segundo o DSC Lab, o dano à reputação ficasse maior para Flávio Bolsonaro. Seu nível de criticidade atingiu 80,8 pontos e o risco à reputação ficou em 80,9 pontos. Lula ficou com níveis altos, mas menores: 68,7 pontos de criticidade e 67,1 pontos de risco à reputação.
Na terça-feira anterior, havia mais menções a Flávio que a Lula. Isso mudou. “Lula apareceu em 692 publicações no dia 15, com 1,18 milhão de interações. Flávio Bolsonaro reuniu 407 posts e 674,9 mil interações. Em relação à terça-feira anterior, as menções a Lula cresceram 23,6%, enquanto as de Flávio recuaram 46,4%”.
“Flávio aparece como autor de cobranças contra Moraes e como alvo de publicações sobre Dark Horse”, diz o relatório do DSC Lab. “Lula circula em conteúdos que defendem sua desvinculação financeira do caso, em cobranças sobre providências do Executivo e em leituras eleitorais da crise”, continua. São as duas faces da repercussão.
A liberação dos conteúdos das investigações atingiu novamente o pivô inicial de toda essa crise, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As notícias a respeito das festas de luxo, em boates e mansões ganhou tração, embora as questões relacionadas diretamente à fraude financeira ganhem mais menções.
“O tema financeiro, que reúne fraude, BRB, FGC e dimensão do Banco Master, apareceu em 9.513 publicações, ante 2.358 na semana anterior. O conteúdo sobre luxo, festas e gastos pessoais de Vorcaro passou de 396 para 1.771 posts”, diz o DSC Lab. Enfim, ao final de uma das semanas mais tensas da República brasileira, ninguém escapou.
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A candidata a vice-governadora de Pernambuco, Alice Gabino (Rede), se manifestou sobre a declaração da governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), relacionada à realização de laqueadura sem o conhecimento da paciente. O episódio ocorreu em 2025, durante uma visita da governadora ao Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, mas ganhou repercussão pública ontem, após a divulgação de um vídeo da conversa. Na gravação, Raquel afirmou, ao comentar o caso de uma gestante com sete filhos, “Mas faz sem ela saber”.
Em publicação nas redes sociais, Alice classificou a declaração como “criminosa” e se disse enojada com a declaração. Afirmou ainda que a fala deveria ser esclarecida diante da população pernambucana. A candidata relacionou o episódio às normas brasileiras que regulamentam o planejamento familiar e a esterilização cirúrgica, destacando que procedimentos como a laqueadura dependem da manifestação de vontade da própria pessoa.
Leia maisA Lei nº 9.263/1996, que regulamenta o planejamento familiar, estabelece que a esterilização cirúrgica exige manifestação expressa da vontade em documento escrito, após o recebimento de informações sobre riscos, efeitos e alternativas contraceptivas. A legislação, portanto, prevê a obrigatoriedade do consentimento da pessoa submetida ao procedimento.
Alice também cobrou posicionamento da governadora e da vice-governadora, Priscila Krause, sobre o episódio. Para a candidata, a declaração deveria ser tratada com atenção por envolver autonomia e direitos das mulheres. Após a repercussão, Raquel Lyra publicou um pedido de desculpas e afirmou que a fala havia sido equivocada e que não representava o respeito que afirma ter pelas mulheres.
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O Ministério da Justiça oficializou, hoje, a demissão do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro do cargo de escrivão da Polícia Federal (PF). O motivo da demissão é infração disciplinar de “abandono de cargo”, após Eduardo “faltar ao serviço injustificadamente pelo período superior a trinta dias consecutivos”.
A determinação foi assinada pelo ministro Wellington Lima e Silva na última sexta-feira (18), e publicada no Diário Oficial da União (DOU) de hoje. A saída encerra o vínculo de Eduardo com uma carreira que tem remuneração inicial superior a R$ 14 mil e permite progressão salarial ao longo dos anos de serviço.
O blog da Camila Bomfim questionou o Ministério da Justiça se Eduardo Bolsonaro estava recebendo salários até a demissão, e se cabe recurso da decisão, e aguarda retorno. Eduardo estava afastado de suas funções na PF para cumprir o seu mandato na Câmara dos Deputados. Contudo, teve o mandato cassado em 18 de dezembro por excesso de faltas.
A perda do mandato foi declarada com base em uma regra da Constituição que proíbe deputados e senadores de faltar a mais de 1/3 das sessões deliberativas do ano. Eleito por São Paulo, Eduardo Bolsonaro mora nos Estados Unidos desde o início do ano passado. Ele tem afirmado que a mudança ocorreu para evitar uma suposta perseguição política e jurídica no Brasil.
O município do Brejo da Madre de Deus recebeu, neste fim de semana, uma movimentação política liderada pelo prefeito Roberto Asfora, em apoio às campanhas da candidata ao Governo de Pernambuco, Raquel Lyra, e dos candidatos Kaio Maniçoba, Lula da Fonte, Eduardo da Fonte e Humberto Costa.
A mobilização aconteceu na noite do sábado (19) e contou com as presenças de Kaio Maniçoba, Lula da Fonte e Eduardo da Fonte. Para Asfora, a presença dos candidatos em Brejo representa a importância de manter o diálogo aberto e buscar, junto às diferentes esferas, caminhos para atender às necessidades do município. A mobilização também marcou mais um momento da campanha no município, com a participação de lideranças e apoiadores em defesa dos nomes apresentados pelo grupo.
Desde a declaração da candidata Raquel Lyra sobre fazer uma laqueadura em uma paciente “sem ela saber”, foram realizados mais de 20 mil procedimentos do gênero em Pernambuco. Pela naturalidade com que a fala foi dita, a chefe do executivo que deveria passar segurança acabou gerando apreensão em milhares de mulheres pernambucanas. Seja por uma decisão religiosa, ou por planejamento familiar, a decisão sobre o que fazer com o corpo cabe exclusivamente à mulher. Seu corpo, suas regras.
As perguntas que chegam agora só tornam a questão ainda mais grave: essa seria uma determinação em outras unidades de saúde geridas pelo estado? Será que a mesma postura seria adotada em pacientes de maior poder aquisitivo que optam por ter mais filhos? A medida teria relação com o controle de natalidade de possas com menor renda como já se cogitou no passado?
São questionamentos que pairam na cabeça de muitas pessoas. Trata-se de uma postura, no mínimo, repreensível. É difícil que o eleitorado, em especial as mulheres pernambucanas, passem pano para uma declaração tão forte e, ao mesmo tempo, dita com o sorriso no rosto, antecedendo a pose para uma fonte. O lugar torna tudo ainda mais emblemático: era dentro de uma unidade de saúde, cercada por mães com filhos no colo.
Você acha que Raquel Lyra agiu corretamente nessa situação? Deixe aqui a opinião nos comentários.
Por José Adalbertovsky Ribeiro*
MONTANHAS DA JAQUEIRA – Mesmo no mundo da ficção difícil imaginar um personagem tão rocambolesco quanto o gângster do Master. Ele é um onívoro, transava com gregos e troianos, baianos, ministros, ex-ministros, baianos e paulistanos. Era dos carecas que ele gostava mais. Foram transas bilionárias com os demiurgos, entidades que se imaginam flutuando entre o céu e a terra. Incrível é a guarda pretoriana arregimentada por ele e que opera a plenos vapores malignos.
Ai-ai-ai – ui-ui-ui — A montanha estava gemendo e chorando. Eram as dores do parto. Nasceu um lobisomem. Fizeram o teste do pezinho, da carequinha, da barbinha vermelha, do couro cabeludinho.
Toma, que o filho é teu! A montanha disse ao careca. Mostraram a ele a prova do batom na calcinha da montanha. Eu não sou a Débora do batom na calcinha, disse o careca. Ela violou a castidade de uma estátua de Brasília e por isso foi castigada com 14 anos de cadeia. As estatuas de Brasília são virtuosas de nascença, falou.
Um doula, especialista em partos heterodoxos, vai solicitar a quebra do sigilo sexual da montanha. Nem precisa. Slides e transparências revelam que a montanha caiu na gandaia e ofereceu ofertas de gratidão milionárias aos seus pretendentes. A montanha promoveu uma orgia na Europa com a presença de centenas de donzelas loiras para degustação dos aiatolás.
A montanha hoje está enjaulada na cadeia, mas tudo gira em torno das aventuras dela. Vai escrever um livro intitulado “Memórias cabeludas de uma montanha” e pretende que seja uma delação premiada para sair da cadeia. Propõe que suas transas pecaminosas sejam perdoadas e seja proclamado inocente para desfilar em carro de bombeiro como herói nacional. Nada surpreende nestas terras Brasilis onde o maior ladrão do Estado da Guanabara, condenado a 200 anos de cadeia, hoje desfila lépido e fagueiro no calçadão de Copacabana e se proclama a alma mais honesta do Reino de Pindorama.
O juiz evangélico está ameaçado de ser julgado e condenado por ter tido a ousadia de desafiar os poderes do maior gângster da nossa história. Neste Brazil de bananões e isentões faltam homens com a fibra cívica de um Carlos Lacerda, Leonel Brizola e Ulisses Guimarães capazes de fibrilar, fibra por fibra, o coração dos corruptos e malévolos. Os militantes conservadores e da direita são de fritar bolinho, não têm tutano para encarar a caterva vermelha e suas circunstâncias.
O código de honra da Cosa Nostra, invocado por um aiatolá de esquerda, chama-se Omertà. É a lei do silêncio e da cumplicidade, mesmo diante de crimes cometidos por seus sequazes.
Este Brazil S.A. é dominado por homens maus e perversos. Nestas horas e desoras meu guru o economista Roberto Campos dizia que esta Terra de Vera Cruz, a terra da verdadeira Cruz, não corre nenhum risco de dar certo. Desde 1500 até hoje ele continua acertando, e a história não costuma dar cavalo de pau.
*Periodista, escritor e quase poeta
O que a fala de Raquel revela sobre o poder de decidir pelo corpo de uma mulher pobre
Há frases que podem ser classificadas como infelizes. E outras que obrigam a sociedade a discutir algo muito maior do que o constrangimento de quem as pronunciou, como esta: “Mas faz sem ela saber! Vai!” Saiu, pasmem, da boca da governadora Raquel Lyra (PSD) em meio a uma visita ao Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, em maio de 2025.
O vídeo, com a lamentável frase, veio a público, ontem, e mostra a governadora conversando com pessoas que aparentam integrar a equipe da unidade sobre uma paciente grávida que, segundo o relato ouvido por ela, já teria sete filhos. Na sequência, Raquel fala em colocá-la na fila para uma laqueadura e, depois de uma resposta inaudível, afirma que o procedimento deveria ser feito sem que a mulher soubesse.
Leia maisO primeiro problema é objetivo: uma esterilização cirúrgica não pode ser decidida por terceiros. A legislação brasileira estabelece que a esterilização voluntária exige manifestação expressa da vontade da própria pessoa, registrada em documento escrito, depois de receber informações sobre riscos, efeitos colaterais, dificuldades de reversão e alternativas contraceptivas.
O Ministério da Saúde também estabelece que a pessoa deve passar por orientação sobre os métodos disponíveis e, caso escolha a cirurgia, assinar termo de consentimento. Portanto, a expressão “sem ela saber” não é um detalhe semântico. Atinge justamente o elemento que transforma uma intervenção médica em uma escolha legítima: o consentimento da mulher.
E existe uma segunda camada, talvez ainda mais incômoda. A conversa não trata de uma mulher abstrata. Trata de uma paciente da rede pública, apresentada naquele ambiente pelo número de filhos que já teria. A informação de que ela estaria grávida novamente, depois de sete filhos, aparece na conversa como justificativa para se pensar em esterilização.
É aí que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também social. Quantos filhos uma mulher tem não determina quanto direito ela possui sobre o próprio corpo. Ser pobre, morar no interior, depender do SUS ou já ter sete filhos não transforma ninguém em objeto de decisão de médicos, gestores, autoridades ou familiares.
Planejamento familiar é oferecer informação e condições para que a mulher escolha. Não é escolher por ela.
SEM SABER – A diferença parece elementar, mas é justamente ela que separa uma política pública de saúde de uma política de controle sobre corpos. A própria atualização da legislação brasileira reforçou a autonomia individual. Desde a Lei 14.443/2022, a esterilização voluntária pode ser realizada a partir dos 21 anos ou por quem tenha pelo menos dois filhos vivos, sem necessidade de autorização do cônjuge. A decisão pertence à pessoa que será submetida ao procedimento. Por isso, o episódio produz uma pergunta inevitável: o que significa, para uma autoridade pública, imaginar que uma mulher pode ser esterilizada sem sequer saber que isso acontecerá?

Mais grave do que se supõe – Não é necessário afirmar que o procedimento tenha ocorrido para reconhecer a gravidade da fala. Até o momento, não há informação de que a paciente mencionada no vídeo tenha sido efetivamente submetida a uma laqueadura sem consentimento. O que está documentado é a fala da governadora e a posterior admissão de que ela fez o comentário. O debate responsável não deve transformar uma declaração em uma acusação de que um procedimento efetivamente aconteceu sem autorização. Mas também não deve reduzir uma declaração dessa natureza a uma simples “fala equivocada”, porque existe uma questão de princípio que permanece mesmo depois do pedido de desculpas.
Reconhecimento não encerra o caso – Raquel reconheceu a declaração, classificou-a como equivocada e pediu desculpas, afirmando que ela não representa o respeito que tem pelas mulheres. Também disse defender o planejamento familiar baseado em informação e escolha.
O pedido de desculpas é um elemento da resposta política ao episódio. Não encerra, porém, as perguntas objetivas que o caso produz. A orientação foi apenas uma manifestação informal, sem qualquer consequência prática? Houve alguma comunicação à equipe? A paciente foi identificada? Recebeu orientação sobre planejamento familiar? Manifestou alguma vez interesse em realizar uma laqueadura? Algum procedimento foi realizado? São perguntas que podem e devem ser respondidas sem transformar o episódio em espetáculo político, porque existe uma questão maior em jogo: quem decide sobre o corpo das mulheres quando elas estão em situação de vulnerabilidade?
Expostas e sem proteção – A história brasileira e a própria discussão contemporânea sobre direitos reprodutivos mostram que mulheres pobres estão particularmente expostas a decisões tomadas por terceiros. Quando uma mulher rica decide não ter filhos, a sociedade tende a falar em escolha. Quando uma mulher pobre tem muitos filhos, surge com frequência a tentação de transformar sua reprodução em problema social a ser administrado. Pode oferecer contraceptivos. Pode garantir acesso à laqueadura. Pode ampliar atendimento. Pode orientar. Pode informar. Pode assegurar que uma mulher que deseja interromper sua capacidade reprodutiva consiga fazê-lo dentro das regras legais.

Além da disputa eleitoral – O que o Estado não pode fazer é substituir a vontade da mulher pela sua própria vontade. E talvez seja esse o aspecto mais grave da fala de Raquel Lyra: não apenas a referência à laqueadura, mas a ideia expressa de que a decisão poderia ser tomada sem que a própria mulher soubesse. Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições. Também se mede pelos limites impostos ao poder de uma autoridade sobre aqueles que estão em posição mais vulnerável. O corpo de uma mulher não é patrimônio do Estado. Não pertence ao médico. Não pertence ao marido. Não pertence ao governador. Não pertence à família. E muito menos pode ser tratado como uma variável de uma política de controle populacional. É por isso que o episódio merece ser discutido para além da disputa eleitoral de 2026. A questão central não é simplesmente se Raquel Lyra “se expressou mal”. A questão é compreender por que uma autoridade pública chegou a verbalizar a possibilidade de uma intervenção irreversível no corpo de uma paciente sem o conhecimento dela — e assegurar que nenhuma mulher atendida pelo poder público seja tratada dessa maneira.
CURTAS
POR OUTRA, NÃO – Se houve apenas uma frase infeliz, que se esclareça. Se houve alguma consequência prática, que se apure. E, em qualquer hipótese, que fique reafirmado o princípio básico que deveria ser óbvio em qualquer serviço de saúde: informar é obrigação. Orientar é obrigação. Oferecer acesso é obrigação. Decidir pelo corpo de outra mulher, não.
QUE HORROR! – No material bruto extraído dos celulares de Daniel Vorcaro pela PF, e que agora está nas mãos de vários ministros do STF, aparecem cerca de cinco mil itens classificados como “Score nudez”. Vão de nudes a cenas de sexo muito explícito.
PÉ NO CHÃO – Autor do bordão mais conhecido das últimas décadas em campanhas presidenciais — “Nunca antes na História deste país” —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a reconhecer as dificuldades de sua gestão e a adotar um discurso mais “pé no chão”. Após debater com aliados os obstáculos da corrida eleitoral, o petista tenta modular o tom ufanista e afirma até mesmo que poderia ter feito “muito mais”.
Perguntar não ofende: Muitas parturientes podem ter sido laqueadas nas maternidades estaduais sem saberem?
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A deputada federal Maria Arraes (PSB) classificou como “repugnante” a fala da governadora Raquel Lyra (PSD), que sugeriu realizar uma laqueadura sem o conhecimento da paciente. “De nada adianta a gente ter uma governadora se ela não colocar a luta das mulheres como prioridade e, quando a gente chega lá, a responsabilidade é ainda maior. Usar a caneta para abrir caminhos, garantir direitos e proteger outras mulheres, nunca para tirar delas o direito de decidir sobre o próprio corpo”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.
A declaração da governadora Raquel Lyra (PSD) sugerindo a realização de uma laqueadura em uma paciente “sem ela saber” também remete a um episódio envolvendo o então presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Em reportagem publicada em 2018, a Folha de S.Paulo recuperou declarações e propostas de Bolsonaro em defesa da esterilização de pessoas pobres como forma de, segundo ele, “combater a miséria e a criminalidade”. Em 2014, o então vereador Carlos Bolsonaro chegou a defender nas redes sociais que o Bolsa Família fosse concedido apenas a pessoas submetidas a vasectomia ou laqueadura.

Veja na íntegra:
Leia maisBolsonaro defendeu esterilização de pobres para combater miséria e crime
Por Ranier Bragon
Da Folha de S.Paulo
O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) apresentou projetos e defendeu em discursos nas últimas décadas a esterilização dos pobres como meio de combater a criminalidade e a miséria.
No último dia 23, ele afirmou na marcha dos prefeitos a Brasília que estuda colocar no seu plano de governo uma proposta de planejamento familiar, mas não a detalhou.
“Não estou autorizado a falar isso, que botei na mesa, mas eu gostaria que o Brasil tivesse um programa de planejamento familiar. Um homem e uma mulher com educação dificilmente vão querer ter um filho a mais para engordar um programa social.”
Nas dezenas de discursos que ele proferiu sobre o assunto, na Câmara, nos últimos 25 anos, defendeu a adoção pelo Estado de um rígido programa de controle de natalidade, com foco nos pobres.
Segundo o pensamento que manifestou nesse período, seria o caminho para a redução da criminalidade e da miséria.
No passado, Bolsonaro manifestou que programas como Bolsa Escola e Bolsa Família serviriam apenas para incentivar os pobres a ter mais filhos e, com isso, aumentar a fatia que recebem de benefícios.
“Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso, para votar no governo que está aí. Só para isso e mais nada serve, então, essa nefasta política de bolsas do governo”, afirmou em novembro de 2013 no plenário da Câmara.
Em 1992, seu terceiro ano como deputado, ele já falava sobre o tema. “Devemos adotar uma rígida política de controle da natalidade. Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender a esses miseráveis que proliferam cada vez mais por toda esta nação.”
No ano seguinte, voltou à carga, também na Câmara: “Defendo a pena de morte e o rígido controle de natalidade, porque vejo a violência e a miséria cada vez mais se espalhando neste país. Quem não tem condições de ter filhos não deve tê-los. É o que defendo, e não estou preocupado com votos para o futuro”.
Bolsonaro afirmava em seus discursos não acreditar que a educação pudesse solucionar os problemas do país.
“Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos”, disse em julho de 2008.
Segundo ele, a discussão sobre o auxílio governamental à população mais pobre entulharia o Congresso de projetos. “Já está mais do que na hora de discutirmos uma política que venha a conter essa explosão demográfica, caso contrário ficaremos apenas votando nesta Casa matérias do tipo Bolsa Família, empréstimos para pobres, vale-gás etc”, disse em 2003.
Em algumas das vezes que abordou o assunto, opinou que os pobres, por ignorância ou na expectativa de receber ajuda do governo, não controlam o número de filhos como os mais ricos.
“Tem que dar meios para quem, lamentavelmente, é ignorante e não tem meios controlar a sua prole. Porque nós aqui controlamos a nossa. O pessoal pobre não controla [a dele]”, afirmou em 2011.
A lei 9.263/96, que trata do planejamento familiar, proíbe qualquer ação com o objetivo de controle demográfico ou a indução individual ou coletiva à prática de esterilização. Ela estabelece como diretrizes ações preventivas e educativas para o livre exercício do planejamento familiar.
A esterilização cirúrgica voluntária — vasectomia ou laqueadura — é permitida apenas aos maiores de 25 anos ou, pelo menos, com dois filhos vivos, observados critérios como prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e a cirurgia, informação sobre a irreversibilidade do ato e não realização de laqueadura no período de parto.
Bolsonaro apresentou três projetos retirando praticamente todas essas restrições e reduzindo a idade mínima de esterilização para 21 anos. Dois foram arquivados e um está parado desde 2009.
Um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, manifestou em rede social, em 2014, proposta de dar Bolsa Família só a quem se submetesse a vasectomia ou laqueadura.
A Folha enviou perguntas sobre o tema à assessoria do presidenciável, mas não houve resposta. O vereador Carlos Bolsonaro também não se manifestou.
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A declaração da governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), sugerindo a realização de uma laqueadura em uma paciente do Hospital Dom Moura, em Garanhuns, “sem ela saber”, ganhou repercussão nacional após ser revelada pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles.
O caso passou a ser destaque nos noticiários de todo o país neste domingo (20) e, na Folha de S.Paulo, tornou-se a notícia mais lida da editoria de Política.
O candidato a governador João Campos (PSB) se pronunciou nas redes sociais, na noite deste domingo (20), sobre a divulgação de um vídeo em que Raquel Lyra (PSD) aparece recomendando a realização de um procedimento de laqueadura sem o consentimento de uma paciente. Segundo o líder da Frente Popular de Pernambuco, a postura da governadora, sintetizada na frase “Faz sem ela saber”, causa “indignação” e representa uma “violação da integridade física de uma mulher”.
“‘Faz sem ela saber’. Assisti com indignação ao vídeo em que a candidata usa essa frase pra sugerir a laqueadura de uma gestante, sem ela saber. A lei é clara: esterilização exige manifestação expressa da vontade da mulher. Autoridades e gestores públicos têm o dever legal e ético de garantir direitos e proteger a população, jamais de sugerir práticas ilícitas ou violações da integridade física. Fazer “sem ela saber” não é cuidado. É violência. É crime previsto em lei”, escreveu.
As imagens que viralizaram foram gravadas em 2025, no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste. Na gravação, a governadora aparece ouvindo o relato feito por uma servidora sobre uma mulher que já tinha filhos e estava novamente grávida. Raquel sugere a realização de uma laqueadura, ouve da funcionária uma frase que não é possível entender no vídeo e, então, diz: “Mas faz sem ela saber, vai!”. O caso vem gerando indignação de diversas autoridades, influenciadoras e outras personalidades em todo o país.
Depois das declarações da governadora Raquel Lyra sobre a realização de laqueaduras, inclusive diante da possibilidade de procedimentos sem o consentimento adequado das mulheres, a reação foi imediata. O assunto revoltou mulheres em todas as regiões de Pernambuco.
E agora é preciso ir além da declaração. É preciso saber o que aconteceu na prática: quantos procedimentos foram realizados, em quais unidades, sob quais protocolos e com qual autorização?
Leia maisNão adianta ser mulher, falar sobre mulheres e usar essa condição como discurso. Trabalhar pelas mulheres exige sensibilidade, responsabilidade e, principalmente, respeito aos seus direitos.
E essa discussão não termina nas laqueaduras. Ela também passa pelo fechamento ou redução do funcionamento de delegacias especializadas em atendimento às mulheres e pelas creches que foram prometidas e não foram entregues.
Ser mulher não é suficiente para demonstrar compromisso com as mulheres. É preciso governar pensando nelas, protegendo seus direitos e respeitando suas escolhas.
No caso das laqueaduras, a pergunta é simples e precisa de uma resposta objetiva: quantas foram feitas sem autorização ou sem o devido consentimento das pacientes?
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