No início da tarde desta quinta-feira (20), na companhia do governador Tarcísio de Freitas, o presidenciável Flávio Bolsonaro se encontrou com cerca de 350 empresários da Mooca, na Zona Leste, em um shopping da região. Ambos chegaram juntos, mas Flávio foi logo para um local mais distante do público, ao contrário de Tarcísio, que parou para tirar fotos. Cerca de meia hora depois, o governador se juntou a Flávio e ao prefeito Ricardo Nunes. Entre sanduíches de mortadela, pastéis de queijo e bolinho de bacalhau, o trio ficou conversando por mais 20 minutos.
Na etapa seguinte, em um salão menor do restaurante, todos subiram em um pequeno palco e discursaram. O primeiro a falar foi Nunes e pediu aos candidatos presentes que incluíssem em seus “santinhos” e demais materiais de campanha os números de Tarcísio (10) e Flávio Bolsonaro (22).
Leia maisNa sequência foi a vez de Tarcísio discursar. Em sua fala, citou a crise das Casas Bahia e pediu votos para Flávio, mesmo que de forma indireta.
— E eu quero falar de Casas Bahia. Olha o que está acontecendo com o nosso empreendedor. Apertado pela insegurança jurídica, apertado pelo crédito, endividado, fechando as portas. O Brasil está indo mal, está indo na direção errada. E isso acaba afetando todo mundo. E a gente tem a oportunidade de mudar. Essa mudança vai demandar esforço nosso. Essa mudança o Flávio não vai fazer sozinho, vai depender dos senadores, vai depender do Derrite, vai depender do André do Prado, vai depender de candidatos a deputado federal — afirmou Tarcísio.
Na sequência, Flávio pegou o microfone e falou por cerca de cinco minutos. Além de citar o pai e dizer que irá à posse de Tarcísio caso ele vença Fernando Haddad, do PT, deu a entender que, se eleito presidente, está disposto a fazer um mandato de transição.
— Tarcísio entrou para a história como ministro da Infraestrutura do Bolsonaro e Tarcísio já entrou para a história como governador de São Paulo. E eu pretendo entrar para a história, Tarcísio, nem que seja como presidente de transição. Porque esse Brasil precisa atravessar esse mar revolto nesse momento — disse Flávio.
Sem entrar em mais detalhes, o senador deu sinais de que talvez esteja disposto a exercer apenas um mandato, como ele mesmo propôs em fevereiro. Em outras ocasiões, no entanto, o candidato deu a entender que gostaria de ser presidente por mais de um mandado.
Duas horas após o início do evento, Flávio foi embora, mas Tarcísio e Nunes permaneceram no para tirar fotos com os convidados. Na manhã desta quinta, em sabatina de O GLOBO, Valor e CBN, o governador afirmou que Flávio deveria, sim, caso eleito, governar apenas por quatro anos.
— O Flávio procurou fazer um gesto, ser signatário de uma emenda de fim da reeleição, porque alguma coisa deixa de ser feita porque aquele incumbente pensa: “tenho que me reeleger, não posso fazer isso, é impopular”. A gente precisa de pessoas que tomem o desgaste, que façam aquilo que precisa ser feito. Acredito que Flávio, caso seja eleito, vai honrar (o fim da reeleição), até porque ele é signatário da PEC – afirmou Tarcísio na sabatina.
Governador ausente
Tarcísio não acompanhou agenda de Flávio na manhã desta quinta. Candidato à reeleição Tarcísio deve priorizar eventos conjuntos com o presidenciável no interior e não na capital, onde o fiador de Flávio é o prefeito Ricardo Nunes. Ao lado de Nunes e de outros aliados, como os candidatos ao Senado André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), Flávio fez seu primeiro ato de campanha em São Paulo nesta quinta, no Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na Zona Leste.
Durante o ato, Nunes apresentou a Flávio um programa municipal voltado para a segurança alimentar e o levou para conhecer um armazém solidário localizado ao lado do mercado, com alimentos mais baratos voltados para população de baixa renda. Depois, eles visitaram ainda o Mercado Municipal de São Miguel Paulista e comeram pastel, além de tirarem fotos com apoiadores.
O senador prometeu replicar o programa dos armazéns solidários para o restante do Brasil, caso eleito, e aproveitou para criticar o governo Lula (PT).
— Aqueles que precisam de algum benefício do governo conseguem comprar comida mais barata aqui. E aqui, com o Ricardo Nunes, tem picanha. Vamos levar isso aqui também, essa ideia, adaptar para o Brasil inteiro. É mais um compromisso que eu faço — disse o candidato.
‘Dark Horse’
O candidato também falou sobre o caso do filme ‘Dark Horse’. O filme abriu uma crise na campanha de Flávio após a revelação de mensagens do senador pedindo dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para supostamente financiar a produção. Questionado sobre a prestação de contas envolvendo o filme, Flávio tratou o caso como um capítulo do passado e tentou vincular o caso Master ao presidente Lula (PT).
— A prestação de contas que foi feita do filme foi vazada do processo, responderam e viram que estava tudo certinho. Agora quem tem que prestar contas é o Lula, não sou eu. É ele que recebe Augusto Lima (ex-sócio do banqueiro do Master) e Vorcaro, prometendo que vai trocar o presidente do Banco Central — disse o senador.
Como mostrou O GLOBO, a produtora Go UP Entertainment, que produziu o filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, declarou que o longa-metragem custou R$ 75 milhões. Desse montante, R$ 54 milhões foram gastos no exterior e R$ 20,9 milhões, no Brasil. Em dólar, o filme saiu por US$ 13,39 milhões.
Esses valores foram informados à Justiça, no âmbito da investigação policial que apura supostas irregularidades na execução de um contrato de R$ 108 milhões entre a prefeitura de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5 mil pontos de internet em vias públicas da cidade.
Depois da visita ao mercado, Flávio seguiu para um centro de comunidade na Vila Formosa, onde jogou bola com crianças que faziam aulas no local. Com Nunes e Derrite na equipe, o senador enfrentou um time de adolescentes. No campo de ataque, recebeu passes do candidato ao Senado e do prefeito e marcou dois gols, em um placar que terminou em 2 a 1 para os políticos. O deputado estadual Gil Diniz (PL) também participou da partida e atuou como zagueiro na equipe de Flávio.
Recall’ da direita
Segundo aliados, a ideia é aproveitar a aliança com o prefeito Ricardo Nunes para levar o filho de Jair Bolsonaro (PL) a bairros da periferia durante a campanha, principalmente aos distritos onde a direita foi mais votada em 2024.
Neste caso, o cálculo não considera apenas os votos que Nunes recebeu, mas também os de Pablo Marçal (PRTB), que naquele pleito dividiu a direita, ficou em terceiro lugar e por pouco não foi para o segundo turno contra Guilherme Boulos (PSOL). São Miguel Paulista foi um dos locais onde a direita se saiu melhor: Marçal foi o mais votado e Nunes ficou em segundo lugar.
Essa estratégia também inclui o apoio de um exército de vereadores do campo da direita e da centro-direita. No início do mês, Flávio se reuniu com 20 parlamentares do município em seu QG de campanha em São Paulo para discutir estratégias de como alavancar seu desempenho na cidade. Sua expectativa é conseguir cerca de 3 milhões de votos na capital com a ajuda desses vereadores.
Ato marcado por protesto
As agendas da manhã foram marcadas por protestos com faixas contra o senador e contra o governador Tarcísio. Do lado de fora do mercado, uma centena de manifestantes segurava faixas com mensagem principalmente contrárias ao governador. O grupo também entoava cantos contra Tarcísio. Integrantes do protesto não quiseram gravar entrevista e afirmaram que não são ligados a um partido ou movimento politico específico, mas que estão no local para se manifestar contra temas como a violência policial. Eles seriam de comunidades da Zona Leste e de outras regiões da capital.
Na porta do centro de comunidade na Vila Formosa, um grupo também entoava gritos contra o candidato do PL e o governador.
Flávio volta ao estado de São Paulo na noite de sábado (22) para participar da 71ª Festa de Peão de Barretos — de manhã, ele é esperado em um ato do PL no Maracanãzinho, onde haverá o lançamento conjunto dos candidatos da sigla no estado do Rio de Janeiro.
No rodeio, ele deve estar acompanhado de Tarcísio, Derrite e André do Prado, além do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que tenta a reeleição. A campanha ainda articula uma cavalgada no domingo (23) em Barretos, emulando a cavalgada que o pai fez em 2022 na mesma cidade, mas a agenda não está fechada.
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