Por Gastão Cerquinha Neto*
O rio Cheonggyecheon, localizado em Seul, na Coreia do Sul, passou por uma transformação que mudou não apenas a paisagem da cidade, mas também a qualidade de vida da população.
O projeto de recuperação do rio fez com que a região passasse a ter capacidade para suportar uma chuva de 118 mm em apenas uma hora. Isso vai muito além da capacidade de drenagem de cidades como Recife, por exemplo, onde chuvas dessa intensidade provocam grandes alagamentos. E não somente Recife, mas também supera e muito as chuvas de projetos de drenagem urbana no Brasil.
Leia maisO mais surpreendente nessa transformação é que, antes do projeto, o rio estava praticamente enterrado sob um grande viaduto e várias faixas destinadas à circulação de veículos. Durante muitos anos, a região também sofreu com inundações frequentes, tornando cada vez mais necessária uma mudança na forma de pensar a cidade.
Diversos benefícios
O projeto também proporcionou um ganho enorme na biodiversidade, com o aumento da variedade de espécies de vegetação, peixes, pássaros, mamíferos e outros animais que voltaram a aparecer no local.
Outro benefício importante foi a redução da temperatura em até 6 °C, quando comparada com outras ruas do mesmo bairro. Efeito benéfico para controle das ilhas de calor. Isso foi possível graças à remoção do viaduto que existia sobre o rio, também pelo resfriamento proporcionado pela água, pelo ao aumento da vegetação, além da redução do tráfego de veículos e melhoria da circulação do ar.
A poluição do ar também apresentou uma redução de 35%, contribuindo para melhorar a qualidade de vida da população. Antes do projeto, os moradores da região apresentavam uma probabilidade duas vezes maior de sofrer com doenças respiratórias.
Motor na economia
O trecho recuperado do rio Cheonggyecheon tem aproximadamente 5 km de extensão. Para termos uma ideia dessa dimensão, seria aproximadamente a distância percorrida pelo rio Capibaribe, no Recife, desde o Marco Zero, no Recife Antigo, até a região da Ponte do Derby, ou cerca de duas vezes a extensão da Avenida Beira Rio, às margens do Capibaribe.
Atualmente, o projeto atrai, em média, 60 mil visitantes por dia, incluindo muitos turistas estrangeiros, contribuindo para movimentar até 2 milhões de dólares todos os dias na economia. Também houve valorização imobiliária na região, além da criação de novas oportunidades para o comércio e geração de empregos.
Investimentos iniciais
As obras tiveram início em 2003 e foram concluídas em 2005, com um custo total estimado em 500 milhões de dólares, incluindo o projeto. Durante o processo de tomada de decisão, também foi avaliada a possibilidade de recuperar o viaduto existente, que já apresentava sinais avançados de degradação. Essa alternativa teria um custo estimado em 260 milhões de dólares, mas não proporcionaria os inúmeros benefícios ambientais, sociais e econômicos alcançados com a recuperação do rio.
Desafios de implantação
Era preciso abandonar a concepção de uma cidade voltada prioritariamente para os veículos e passar a valorizar a qualidade de vida das pessoas e a preservação dos ecossistemas, que proporcionam inúmeros benefícios à população.
O desafio foi enorme. Muitos comerciantes locais se opuseram inicialmente ao projeto, preocupados com os impactos das obras e das mudanças na circulação de veículos. Foi necessário um amplo processo de diálogo para mostrar os benefícios da transformação. Ao longo desse processo, foram realizadas mais de 4 mil reuniões entre o governo e a população.
O viaduto também representava uma barreira física entre diferentes partes da cidade, prejudicando a circulação e a integração urbana. Com a recuperação do rio, foi possível melhorar essa conexão por meio da construção de pontes e passarelas.
O transporte público também recebeu melhorias, como forma de oferecer alternativas de deslocamento e reduzir a dependência dos automóveis na região.
Exemplo a seguir
O exemplo de Seul mostra que recuperar rios urbanos vai muito além de uma intervenção paisagística. É uma oportunidade de reduzir os riscos de inundação, melhorar o microclima, recuperar a biodiversidade, valorizar os espaços públicos e estimular a economia.
Mais do que recuperar um rio, Seul mostrou que é possível transformar a relação entre a cidade, a água e as pessoas.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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