Por Gastão Cerquinha Neto*
No Brasil, ainda é muito comum encontrar lotes com quintais e calçadas quase totalmente pavimentados. Embora as legislações urbanísticas geralmente exijam percentuais mínimos de áreas permeáveis nos terrenos, na prática, muitas dessas áreas acabam sendo impermeabilizadas após a aprovação dos projetos, o que evidencia também as dificuldades de fiscalização e controle urbano.
O problema é que, cada vez que substituímos o solo natural por concreto, asfalto ou outros materiais impermeáveis, alteramos o ciclo da água dentro das cidades. Menos água consegue infiltrar no solo e uma parcela maior da chuva passa a escoar pela superfície, aumentando rapidamente o volume direcionado às ruas, galerias, canais e rios e, consequentemente, favorecendo a ocorrência de alagamentos.
Leia maisCompetição de despavimentação
Diante desse problema, algumas cidades estão começando a fazer justamente o caminho inverso da urbanização tradicional, retirando concreto para devolver espaço à água e à vegetação. Um exemplo interessante vem da Holanda (Países Baixos). Lá existe uma competição nacional entre municípios para estimular a retirada de pavimentos de concreto e sua substituição por áreas verdes. Em edição recente, foram removidas aproximadamente 5,9 milhões de placas de concreto de jardins, quintais e calçadas.
Os próprios cidadãos retiram o concreto de suas propriedades, substituem a superfície impermeável por solo e vegetação, registram fotografias do antes e do depois e cadastram a intervenção no site da iniciativa. As placas removidas são contabilizadas para o município participante. Como incentivo adicional, algumas prefeituras oferecem serviços gratuitos para recolhimento do entulho.
Adaptação às mudanças climáticas
A iniciativa está diretamente relacionada à necessidade de tornar as cidades mais resilientes aos efeitos das mudanças climáticas. A substituição de superfícies impermeáveis por áreas verdes proporciona diversos benefícios simultâneos.
Primeiro, reduz o risco de alagamentos, porque permite que uma parcela maior da água da chuva infiltre no próprio local onde precipitou, diminuindo o escoamento superficial e a sobrecarga dos sistemas de drenagem.
Também favorece a recarga das águas subterrâneas. Esse aspecto é particularmente importante em regiões nas quais os aquíferos representam uma fonte relevante de abastecimento de água, como é o caso da Holanda.
Redução do calor
Outro benefício é a redução do calor urbano. Superfícies de concreto e asfalto absorvem e armazenam grande quantidade de energia solar, contribuindo para a formação das chamadas ilhas de calor. A vegetação, por sua vez, proporciona sombreamento e evapotranspiração, ajudando a reduzir as temperaturas no ambiente urbano.
Além disso, a transformação de áreas pavimentadas em jardins contribui para o aumento da biodiversidade, criando pequenos espaços capazes de abrigar vegetação e atrair insetos polinizadores e outras espécies importantes para o equilíbrio dos ecossistemas urbanos.
Utilizar melhor os espaços
A experiência holandesa traz uma reflexão importante para as cidades brasileiras. Durante décadas, urbanizar foi quase sinônimo de pavimentar. Ruas, calçadas, estacionamentos, praças e até quintais particulares foram progressivamente impermeabilizados. Em um cenário de mudanças climáticas, faz-se necessário começar a percorrer também o caminho inverso: despavimentar onde o concreto não é indispensável.
Isso não significa eliminar a infraestrutura urbana, mas utilizar melhor os espaços disponíveis. Calçadas podem incorporar canteiros e jardins de chuva, praças podem utilizar pavimentos permeáveis, estacionamentos podem combinar vegetação e superfícies drenantes, e lotes particulares podem preservar parcelas efetivamente permeáveis.
Ondas de calor
Essa discussão se torna ainda mais relevante diante dos episódios de calor extremo que vêm atingindo o Brasil. A previsão meteorológica indica forte elevação das temperaturas em partes das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com possibilidade de temperaturas próximas ou superiores a 40 °C em algumas localidades. Entre os estados com previsão de temperaturas particularmente elevadas estão Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Piauí, Bahia, São Paulo e Minas Gerais.
Uma onda de calor não é caracterizada apenas por temperaturas muito elevadas. O fenômeno envolve também a persistência de temperaturas significativamente superiores à média histórica de determinada região durante vários dias consecutivos. Portanto, uma localidade pode registrar temperaturas acima de 40 °C sem necessariamente atender aos critérios meteorológicos utilizados para caracterizar uma onda de calor.
Cada metro quadrado conta
Esse cenário mostra que drenagem urbana, disponibilidade de água, arborização e conforto térmico não são problemas separados. Todos estão relacionados à forma como ocupamos o território e tratamos o solo das cidades.
Cada metro quadrado desnecessariamente impermeabilizado representa menos espaço para a água infiltrar, menos possibilidade de vegetação e mais superfície capaz de armazenar calor. A experiência dos Países Baixos apresenta, portanto, uma ideia simples, mas poderosa: além de discutir como construir cidades mais resilientes no futuro, podemos começar a corrigir parte do que já foi feito.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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