Por Gastão Cerquinha Neto*
A chuva que cai sobre a cidade não afeta todas as pessoas da mesma maneira. Para uma parcela da população, uma noite de chuva pode significar apenas uma mudança nos planos ou algum transtorno no trânsito. Para outra, significa o medo de dormir sem saber se a água vai em casa ou se uma encosta poderá cair durante a madrugada. Essa insegurança faz parte da rotina de muitos grupos socialmente vulneráveis, que frequentemente vivem em áreas de risco e têm acesso limitado a condições básicas de moradia e infraestrutura urbana.
Quem vive nessas áreas geralmente conhece os riscos a que está exposto. Tem uma ideia de onde a água costuma subir, quais ruas alagam primeiro e quais encostas já cederam ou que precisa de proteção. Permanecer nesses locais, entretanto, nem sempre é uma escolha. Os custos de moradia, a necessidade de viver próximo ao trabalho, os vínculos familiares e comunitários e o acesso a serviços e oportunidades fazem com que muitas famílias tenham poucas alternativas para morar em locais mais seguros.
Leia maisEssa vulnerabilidade também é resultado da forma desigual como as cidades foram construídas e receberam investimentos ao longo do tempo. Enquanto determinadas áreas concentram infraestrutura, serviços públicos e espaços urbanos de melhor qualidade, bairros mais pobres podem permanecer durante anos sem intervenções capazes de reduzir os riscos e melhorar as condições de vida da população.
Ondas de calor
E essa desigualdade não aparece apenas quando ocorrem enchentes ou deslizamentos. Ela também pode ser percebida na distribuição das áreas verdes, na arborização das ruas, na existência de praças e parques e na própria qualidade dos espaços públicos. Em muitas áreas periféricas, predominam ruas pouco arborizadas, superfícies impermeáveis e escassez de espaços verdes. O resultado é um ambiente urbano mais quente, menos confortável e mais exposto aos efeitos das ondas de calor e das chuvas intensas.
Em muitos centros urbanos, assentamentos precários se estabeleceram justamente em áreas de várzea e encostas, e se desenvolveram sem estrutura adequada ou sem espaços verdes capazes de favorecer a regulação térmica. Assim, um fenômeno natural, como uma chuva intensa, encontra condições sociais e urbanas muito diferentes ao atingir cada parte da cidade.
Insegurança permanente
Para quem vive nesses locais, existe uma condição permanente de insegurança. A possibilidade de perder a moradia, encontrar a escola alagada ou não conseguir chegar a um posto de saúde durante uma chuva passa a fazer parte da vida cotidiana. A repetição desses episódios transforma o desastre, que para parte da cidade pode ser um acontecimento excepcional, em uma ameaça recorrente para quem vive nos territórios mais vulneráveis.
Também é importante perceber que essas populações não desconhecem os riscos do lugar onde vivem. Ao contrário, a convivência cotidiana com as enchentes produz um conhecimento muito particular sobre o território: quais caminhos ficam intransitáveis, aonde a água chega primeiro, como ela se comporta e quais espaços permanecem esquecidos pelo poder público.
Esse conhecimento precisa ser reconhecido e incorporado ao planejamento urbano. Para isso, o poder público deve ampliar os canais e criar espaços efetivos de participação, nos quais a população possa apontar suas necessidades, estabelecer prioridades e contribuir para a construção das soluções. Afinal, compreender o território exige também escutar quem o conhece.
Vulnerabilidade técnica e vulnerabilidade social
Para compreender por que uma mesma chuva produz consequências tão diferentes dentro de uma cidade, é importante distinguir a vulnerabilidade técnica da vulnerabilidade social. A vulnerabilidade técnica está associada às características físicas do território, como a proximidade de rios e canais, a ocupação de áreas de várzea, a declividade das encostas ou a fragilidade geológica do terreno.
Já a vulnerabilidade social está relacionada às condições que limitam a capacidade das pessoas de evitar, enfrentar ou se recuperar desses eventos. Assim, duas famílias podem estar expostas a uma inundação de intensidade semelhante, mas possuir condições muito diferentes para lidar com ela.
Assim, a concentração de populações pobres em áreas de risco não deve ser entendida simplesmente como consequência das características naturais desses lugares, mas também como resultado de decisões políticas e de processos históricos de ocupação e segregação do espaço urbano.
O caso das enchentes do Rio Grande do Sul
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 são um exemplo de como um evento climático extremo pode revelar desigualdades que já existiam antes de o desastre acontecer. Embora as chuvas tenham atingido uma extensa parcela do estado, bairros periféricos, comunidades ribeirinhas e territórios historicamente marginalizados apresentaram maior exposição aos riscos, enquanto comunidades indígenas e quilombolas sofreram perdas de moradias, áreas de produção e infraestrutura comunitária.
A dimensão alcançada pelo desastre não pode ser explicada somente pela intensidade do fenômeno climático, ela também evidencia problemas acumulados no planejamento territorial, na infraestrutura e nas políticas de prevenção e adaptação. Aos poucos, vamos percebendo que a resposta a essa urgência climática não passa apenas por erguer diques mais altos ou sistemas de drenagem mais largos, mas por identificar os muros invisíveis que produzem segregação socioespacial.
A adaptação climática precisa ser, obrigatoriamente, um projeto de justiça social e direito à moradia. Enquanto o som da chuva no telhado durante a noite continuar sendo sinônimo de terror e insônia para quem vive exposto, nosso modelo de cidade continuará falhando. O futuro só será verdadeiramente seguro quando a água que cai do céu voltar a ser apenas um fenômeno da natureza e não o prenúncio de um desastre.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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