Carlos Siqueira diz que esquerda encerra ciclo com Lula e precisa se renovar
A esquerda brasileira precisa se preparar para uma nova etapa política e abandonar a ideia de que pode continuar operando com as mesmas referências de décadas atrás. A avaliação é de Carlos Siqueira, pernambucano que presidiu nacionalmente o PSB por 11 anos e lançou recentemente o livro O novo perfil eleitoral do Brasil – como vota o brasileiro. Em entrevista, ontem, ao podcast Direto de Brasília, ele analisou a perda de espaço da esquerda, o avanço do campo conservador e os desafios que, em sua avaliação, se impõem ao grupo político depois de Lula.
“Estamos encerrando um ciclo com o presidente Lula, que já deu sua colaboração, mas também é preciso que surjam novas lideranças. O capitalismo se renova permanentemente, e a esquerda precisa se renovar”, afirmou Siqueira. Para ele, o campo progressista perdeu espaço ao deixar de ocupar com clareza o papel de força transformadora. “Não podemos ser apenas a força da defesa do status quo. A esquerda sempre foi a força de transformação. Hoje quem está propondo transformação é a extrema-direita”, completou.
Leia maisO ex-presidente do PSB situa 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro (PL), como um marco importante dessa mudança. Segundo ele, o bolsonarismo trouxe para o centro da política valores conservadores que já existiam em parte da sociedade, mas permaneciam menos mobilizados eleitoralmente. “Ele politizou e ideologizou a política brasileira muito claramente, porque colocou valores extremamente conservadores, que estavam adormecidos em uma parcela da população, que encontrou eco naquele discurso conservador”, analisou.
Siqueira reconhece que a esquerda nunca foi majoritária no país e hoje depende de alianças mais amplas para disputar o poder. “Houve uma diminuição de espaço, estamos conscientes disso. Tanto que precisamos nos aliar às forças de centro e, às vezes, até com a direita”, declarou. O cenário regional, segundo ele, reforça a necessidade de adaptação: na América do Sul, Brasil e Uruguai são hoje as principais exceções em meio ao predomínio de governos de direita e extrema-direita.
A reeleição de Lula (PT), na avaliação do socialista, ainda pode abrir espaço para uma agenda de mudanças mais profundas. Siqueira defendeu um novo ciclo de industrialização, maior agregação de valor às exportações brasileiras, modernização da indústria e avanço na educação. “Se não elevarmos o nível da educação brasileira, não sairemos desse atraso. Estamos num país atrasado desse ponto de vista, precisamos pensar estrategicamente”, defendeu.
A mesma lógica aparece quando ele trata do Nordeste. Siqueira considera insuficiente uma estratégia de desenvolvimento apoiada apenas na expansão dos programas sociais e defende que a região avance em industrialização, energias renováveis e qualificação profissional. “Não é viver apenas de programas sociais. Esse é o pior dos mundos. O que precisamos é de desenvolvimento estrutural”, disse. Ao falar do Bolsa Família e de outras políticas de transferência de renda, acrescentou: “É lamentável que ainda precisemos de ajuda do Estado”.
Um dos pontos que Siqueira considera fundamentais nessa revisão estratégica é a relação da esquerda com o eleitorado evangélico. O tema aparece na pesquisa que serviu de base para seu novo livro. Para ele, esse público precisa ser compreendido para além das campanhas eleitorais, inclusive pelo papel social desempenhado pelas igrejas em áreas onde o poder público é ausente. “É um setor que precisa ser compreendido, não apenas durante as eleições, mas entendendo o papel social que desenvolvem hoje as igrejas evangélicas ou protestantes, inclusive pela ausência do Estado”, observou. “É um eleitor que vem das classes CDE, mais o público-alvo das políticas de esquerda”, concluiu.
STF como bandeira – O advogado especialista em Direito Eleitoral Geraldo Cristóvão Júnior analisou, em entrevista à Rádio Folha FM 96,7, ontem, o uso do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal como discurso político. Para o especialista, transformar o confronto com a Corte em uma bandeira eleitoral pode ser prejudicial ao sistema democrático. “Isso está virando propaganda: ‘eu sou o candidato contra o Supremo. Por isso, não vote nele, vote em mim’. Eu acho que isso é muito negativo para o sistema democrático”, afirmou. O advogado ressaltou que o eleitor pode discordar de decisões judiciais, mas defendeu o respeito às instituições e criticou a distorção dos fundamentos das decisões. “Eu posso até discordar do posicionamento de um ministro, mas eu tenho que entender que dessas decisões, a ampla maioria é bem fundamentada e, às vezes, essas fundamentações são distorcidas”, concluiu.

Lula diz que Lulinha provará inocência – O presidente Lula (PT) afirmou, ontem, durante sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, que acredita que seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, provará a inocência nas investigações das quais é alvo. O petista classificou como “ilações” as suspeitas levantadas até agora. Lulinha é investigado em três inquéritos da Polícia Federal, autorizados pelo STF, que apuram sua possível atuação para favorecer interesses privados junto ao Governo Federal. “Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, afirmou Lula. O presidente também garantiu que não interferirá nas apurações. “Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado”, declarou.
Fotos com lobista – Na mesma entrevista ao Jornal Nacional, Lula afirmou que nunca viu nem conversou com a empresária e lobista Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por sua relação com Lulinha e com o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. “Não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça”, declarou. Roberta, no entanto, mantém em seu perfil no Instagram pelo menos três fotografias publicadas em 2022 nas quais aparece ao lado do presidente, aparentemente em ocasiões diferentes. Em uma das postagens, chamou o registro de “foto da esperança”; em outra, defendeu “Lula no primeiro turno”.
Lula descarta privatizar os Correios – Ainda durante a sabatina, Lula (PT) descartou a possibilidade de privatizar os Correios, que acumulam prejuízo de R$ 15 bilhões nos últimos quatro anos. Segundo ele, a estatal perdeu espaço porque “não se adaptou aos novos tempos” diante do avanço das empresas privadas de entrega. Lula afirmou que a nova administração terá de promover o enxugamento necessário das contas e admitiu parcerias com empresas brasileiras ou estrangeiras. “Não considero vender os Correios”, declarou.

Vorcaro terá nova oitiva hoje – O depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, à Polícia Federal foi adiado novamente, ontem, desta vez por problemas técnicos na videoconferência da “Papudinha”, onde ele está preso preventivamente desde junho. A oitiva foi remarcada para a manhã de hoje e será a primeira desde que a PF recusou duas propostas de delação premiada apresentadas por sua defesa, por considerar insuficientes os elementos oferecidos. Vorcaro deverá ser questionado sobre a atuação de ex-diretores do Banco Central que, segundo as investigações, teriam prestado orientação ao banqueiro na tentativa de evitar a liquidação do Master, decretada em novembro de 2025. O depoimento já havia sido adiado na semana passada, a pedido dos advogados, que alegaram não ter acesso à íntegra dos autos.
CURTAS
HORÁRIO ELEITORAL – O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa hoje em Pernambuco e marca uma nova etapa da campanha para as eleições. Até 1º de outubro, candidatas e candidatos aos cargos de governador, senador e deputados terão espaço na programação das emissoras para apresentar propostas e buscar o voto do eleitor.
HORÁRIO ELEITORAL – O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) definiu a ordem de exibição e o tempo destinado a cada partido, federação e coligação. Na disputa pelo Governo de Pernambuco, a Frente Popular de Pernambuco, que tem João Campos (PSB) como candidato, terá o maior tempo: 4 minutos e 21 segundos. A coligação Pernambuco de Coração, de Raquel Lyra (PSD), terá 4 minutos e 3 segundos.
E-TÍTULO – O aplicativo e-Título ficará totalmente indisponível entre 8h30 e 18h de amanhã, informou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A interrupção programada poderá durar nove horas e meia e faz parte dos preparativos tecnológicos para as Eleições Gerais de 2026. Durante esse período, os eleitores não poderão utilizar os serviços oferecidos pelo aplicativo. Por isso, quem precisar consultar informações ou acessar algum documento digital deve se organizar antes do início da manutenção.
Perguntar não ofende: A esquerda já começou a preparar o pós-Lula?
Leia menos









