Por Cláudio Soares*
As eleições de 2026 deixaram uma mensagem política que merece ser lida com atenção. O eleitor demonstrou um forte sentimento de mudança, retirando das urnas nomes que, durante anos, ocuparam posições de enorme influência no Congresso Nacional.
Mais do que derrotas individuais, o resultado revela uma transformação na composição política do país e poderá produzir efeitos importantes na relação entre os Poderes da República.
Leia maisNo Senado, ficaram pelo caminho nomes de grande peso político, como Ciro Nogueira (PP-PI), Renan Calheiros (MDB-AL), Randolfe Rodrigues (PT-AP), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Gleisi Hoffmann (PT-PR). Também não conseguiram renovar seus mandatos Esperidião Amin (PP-SC), Leila Barros (PDT-DF), Weverton (PDT-MA), Zenaide Maia (PSD-RN), Eliziane Gama (PSD-MA), Fabiano Contarato (PT-ES), Sérgio Petecão (PSD-AC), Carlos Viana (PSD-MG), Vanderlan Cardoso (PSD-GO), Angelo Coronel (Republicanos-BA), Chico Rodrigues (PSB-RR), Carlos Fávaro (PSD-MT), Marcos do Val (Avante-ES) e Zequinha Marinho (Podemos-PA).
Entre as derrotas mais simbólicas estão Renan Calheiros, que deixa o Senado depois de décadas de protagonismo político, Ciro Nogueira e Benedita da Silva, que buscava mais um mandato na Casa.
A renovação também alcançou a Câmara. Na Câmara dos Deputados, o sentimento de mudança também atingiu nomes históricos da política nacional. José Dirceu, Vicentinho, Rui Falcão e Paulo Teixeira, figuras ligadas à história do PT, não conseguiram retornar ou permanecer na Câmara. O resultado demonstra que a insatisfação do eleitor não ficou restrita a um partido ou a uma corrente ideológica. A mensagem das urnas foi mais ampla, renovação e mudança na representação política.
Um novo equilíbrio de forças e o resultado poderá produzir uma mudança significativa na correlação de forças do Senado a partir de 2027. A nova composição terá uma presença expressiva de parlamentares identificados com uma agenda conservadora, entre eles Carlos Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Filipe Barros, Deltan Dallagnol, Carlos Portinho, Carlos Jordy, Sanderson, Marcel van Hattem, Gustavo Gayer, Carol de Toni e Zé Medeiros, entre outros.
Essa nova configuração poderá alterar o debate sobre temas institucionais relevantes e, especialmente, sobre a responsabilização de autoridades dos demais Poderes.
Impeachment de ministros do STF. É nesse ponto que a nova composição do Senado ganha especial importância. O impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal depende de um processo político-jurídico próprio e dos quóruns constitucionalmente estabelecidos.
Há, inclusive, uma questão relevante envolvendo o quórum para a instalação do processo. Em 2025, o ministro Gilmar Mendes, em decisão cautelar nas ADPFs 1.259 e 1.260, suspendeu a interpretação segundo a qual bastaria maioria simples do Senado para instaurar o processo e estabeleceu, cautelarmente, a exigência de 2/3 dos senadores.
Como o Senado possui 81 senadores, 2/3 correspondem a 54 votos. Assim, considerando essa decisão cautelar, 54 votos seriam necessários tanto para a instauração do processo quanto para a condenação e consequente perda do cargo, esta última já prevista constitucionalmente no quórum de dois terços.
É importante fazer uma ressalva. A eleição de um senador não significa automaticamente que ele apoiará um pedido de impeachment. Cada parlamentar terá liberdade para formar sua convicção e votar de acordo com sua interpretação da Constituição e dos fatos. Mas é inegável que uma composição mais favorável à discussão desses mecanismos poderá colocar novamente o tema no centro do debate nacional.
A mensagem das urnas
Mais do que a derrota de políticos tradicionais, as eleições de 2026 podem ser interpretadas como uma manifestação de parcela expressiva do eleitorado por renovação, alternância de poder e mudança na representação política.
O eleitor não quis apenas trocar nomes. Quis mudar a forma como o poder é exercido. Agora, o novo Congresso terá uma enorme responsabilidade, representar a vontade popular, preservar a independência entre os Poderes e, acima de tudo, respeitar rigorosamente a Constituição.
A renovação não pode significar apenas a troca de personagens. Ela precisa representar mais equilíbrio institucional, mais fiscalização, mais responsabilidade e maior respeito à vontade soberana das urnas. Porque, no fim, a democracia não pertence a partidos, grupos ou políticos. Pertence ao povo.
*Advogado e jornalista
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