Por Flávio Brayner*
Aquele tempo em que entrávamos numa livraria e ficávamos várias horas circulando entre livros de alta importância intelectual, obras canônicas, clássicas, aquelas que compunham a agenda bibliográfica do leitor culto (minha referência é a “Livro 7”, claro!), esse tempo, retomo, acabou. Nossas “livrarias” investem em “best sellers” escritos por “influencers” digitais, autoajuda, gastronomia ou obras religiosas pra consumo imediato e superficial.
Assim, para evitar o mal-estar de entrar numa livraria contemporânea, eu compro livros num conhecido site da internet, que me oferece obras usadas e novas de muita qualidade de conservação e de apresentação. E por um preço aceitável! Recentemente comprei o livro de Tzvetan Todorov (1938-2017) “Mémoire du mal Tentation du bien. Enquête sur le siècle” (Paris. Laffont, 2000), uma versão francesa usada e lida certamente por um leitor francês que deixou assinaladas diversas passagens ao longo de sua (qualificada, posso dizer!) leitura.
Leia maisGeorge Steiner dizia que um judeu é “alguém que lê um livro com um lápis na mão!”. Não sei se o leitor daquele livro de Todorov é judeu, mas eu, nesse caso, sou: sem um lápis na mão eu sou analfabeto!
O curioso – para mim, claro! – nesse leitor francês de Todorov é que ele vendeu seu livro para um sebo deixando, nele, a sua “leitura”: assim tive acesso ao livro e à leitura de um desconhecido e pude, dessa forma, saber o que esse desconhecido pensa e valoriza numa obra lida (aliás, o nome dele não está na página inicial, nem há sinal de página arrancada, o que significa que ele não autografa seus livros para depois vendê-los, mesmo deixando marcas de leitura!). Quem é ele? Por que se desfez do livro depois de deixar nele sua leitura tão pessoal? Que mensagem ele está passando para eventuais leitores que o comprem? O que devo fazer da leitura dele? Apagar seus traços, ignorar suas anotações? Fazer de conta que esse livro voltou a ser “virgem”?
Como disse, só sei ler assinalando e comentando passagens do livro que estou lendo, assim, tenho receio de emprestá-los, e jamais pensei em vendê-los ou doá-los para uma biblioteca pública, embora saiba que terei que fazê-lo: ninguém, aqui em casa, os quer, como se fossem meus amores privados e intransferíveis: assim como amo meus livros, eles me amam e “sabem” que a marca que deixei neles é só minha, uma expressão subjetiva única e intransferível! Doar meus livros seria traí-los, “revelar-me” para estranhos, deixa-los entrar em minh’alma, negociar meu amor…
Todo autor, naquilo que escreve, vai deixando pistas e indicações que permitem ao seu eventual leitor (que ele nunca, ou quase nunca, saberá quem é, onde está, em que tempo, em que cultura, nem porque razão está lendo aquela obra) fazer daquelas palavras uma “apropriação”: elas serão, depois da leitura, palavras “suas”! E é assim que aquele livro marcado nunca mais deixará de ser “MEU”, e apenas “MEU”! Mesmo que um dia ele tenha sido o amor de outra pessoa.
Willy Bolle, ex-professor da USP, disse-me minha querida Thereza Didier, analisou os livros da biblioteca de Walter Benjamin e observou que ele usava diferentes símbolos para assinalar e classificar a importância das passagens em sua leitura: tal símbolo tal importância… Na França isso constitui uma disciplina chamada “Études Margenalistes”!
Voltar a ler, tempos depois, um livro marcado por você mesmo é visitar a “pessoa” que você foi um dia: marcaria, assinalaria, sublinharia hoje, as mesmas passagens? Trata-se do estranho ato de encontrar e conversar com uma pessoa que não existe mais: VOCÊ MESMO.
Uma biblioteca, claro, “não é um depósito de livros lidos” (dizia Anatole France): é um projeto, uma expectativa de leitura, uma CAIXA DE FERRAMENTAS ESPIRITUAIS que, em certas situações, somos obrigados a recorrer para nos ajudar – com a experiência de pessoas que eu nunca vi e que, eventualmente, viveram em outra época- e poder conversar sobre as coisas que vivo, sofro, lembro e espero. E cada vez que assinalo uma passagem, eu mando uma mensagem para o autor: ao tirar VOCÊ da minha biblioteca, nem que seja pelo tempo de uma leitura, estou trazendo você de volta à vida e, ao te ler, me oferecendo, ao mesmo tempo, uma vida que eu não teria se não o fizesse! Muito obrigado!
*Professor Emérito da UFPE
Leia menos



















