Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua general Tasso Fragoso fica a sede náutica do Vasco da Gama, às margens da lagoa Rodrigo de Freitas. Foi ali que Alexandre Parola, um típico adolescente da zona sul, estudante do Colégio Franco Brasileiro, aprendeu a remar. O remo exige disciplina, foco, equilíbrio e trabalho em equipe. Os anos passaram e ele nunca abandonou o esporte.
Quando serviu como embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio, em Genebra, Parola era visto com frequência remando no lago Léman a bordo do seu skiff, barco de remador solitário que exige muito equilíbrio e força para combinar ritmo e velocidade. Quando serviu em Londres, no início da carreira, treinava no Tâmisa, remando contra a correnteza num barco com oito remadores, exigindo da equipe foco, resiliência e sinergia.
Leia maisPorta-voz de dois presidentes, Fernando Henrique e Michel Temer, ex-chefe do Departamento Econômico do Itamaraty e hoje embaixador no Marrocos, Parola é um dos quadros mais preparados do Ministério das Relações Exteriores, professor do Instituto Rio Branco, profissional da diplomacia consciente do seu papel como funcionário do Estado. Com esse espírito, escreveu seu “Manual de Diplomacia” (Blucher, 2026), lançado no último dia 5 de novembro, em São Paulo.
São 200 páginas escritas com elegância e erudição por alguém que conhece como poucos as engrenagens e roldanas da política externa mundial. Aqui temos o retrato da diplomacia e seus fundamentos, profissão ancorada na prudência e na racionalidade, que prevalecem sobre emoções ou conveniências. Exercer a diplomacia com eficiência depende de sangue frio e ousadia. E, principalmente, não brigar com a realidade, mas buscar entendê-la, dissecá-la, identificar riscos e oportunidades na defesa dos interesses do país.
O livro nasceu de um curso dado no Instituto Rio Branco a futuros diplomatas e mantém essa vocação. São cinco capítulos:
• o medo como fundamento da ordem internacional;
• a economia como campo de poder;
• a linguagem como instrumento de dominação;
•a grande estratégia, com seus limites;
• um guia de estudos.
O percurso é ambicioso. Vai do historiador grego Tucídides ao cientista político John Mearsheimer (autor de “Como os Estados Pensam”), passa por Thomas Hobbes (1588-1679) e Carl Schmitt (1888-1985), atravessa a crise da OMC e o acordo Mercosul-União Europeia e desemboca em Michel Foucault (1926-1984), Ludwig Wittgenstein (1889-1951), Pierre Bourdieu (1930-2002) e a questão da descolonização. Poucos textos voltados à formação diplomática brasileira ousaram tanto.
Logo na introdução, Parola mostra a que veio separando diplomacia de política externa. Ele recusa dois mitos simétricos. O primeiro é o do diplomata como executor sem vontade. O segundo, do diplomata como guardião de uma política de Estado imune aos governos eleitos. A política externa, ensina, é formulada por quem tem mandato popular, e cabe à diplomacia dar forma a essa orientação, com discernimento, mas sem autonomia para substituí-la.
Há um limite, lembrado com precisão: “Desde Nuremberg, e à luz do Estado de Direito, o diplomata não está autorizado a cumprir ordens manifestamente ilegais ou inconstitucionais, nem invocar a hierarquia funcional para eximir-se de responsabilidade”. Depois de o país assistir ao Itamaraty ser conduzido em direções opostas por governos recentes, essas páginas valem o livro.
Também merece registro a observação mais afiada do capítulo econômico, fruto da experiência de negociador em Genebra. A inversão da flexibilidade que os países em desenvolvimento reivindicavam como exceção, o policy space, que nada mais é do que a liberdade, a autonomia e a soberania que um governo nacional tem para conceber, escolher e implementar políticas públicas, sem sofrer restrições indevidas de tratados internacionais, acordos de livre-comércio ou regras de organismos globais.
Essa reivindicação passou a ser usada como arma competitiva pelos países ricos. Subsídios industriais, regras de carbono e controles ambientais ou tecnológicos, antes vistos com desconfiança quando vinham do Sul, foram normalizados como resposta às exigências de segurança econômica. Exatamente o que fizeram os europeus em relação aos produtos agrícolas do Mercosul. O espaço para fazer política comercial ou industrial encolheu para quem mais precisa dele. É um diagnóstico que merecia um livro inteiro.
Quando fala do Brasil, o racional prevalece ao reconhecer que “seremos cada vez mais provocados a entrar no jogo do poder real”, justamente pela nossa importância crescente no cenário internacional. Jogo de poder real significa enfrentar as barreiras comerciais e a disputa por dominação econômica a que assistimos todos os dias nos portais de notícias e redes sociais.
Nesse aspecto, Parola resgata o episódio do livro de Tucídides sobre a guerra do Peloponeso, lembrando a relação de força estabelecida entre atenienses e mélios, habitantes da pequena ilha dos Melos. Mais fortes e mais poderosos, os atenienses se impuseram pela força e o medo, dissolvendo quaisquer argumentos. O medo tem sido arma de países poderosos (vide Trump e a Venezuela), mas a diplomacia contemporânea tem inteligência suficiente para reduzi-la, ou até neutralizá-la. Basta deixá-la trabalhar.
A velocidade das mudanças tornou o cenário de hoje completamente diferente daquele de dois anos atrás e, no ano que vem, mudará mais ainda. Donald Trump não tem o mesmo poder da semana passada, com a derrota nas eleições parlamentares. A Europa enfrenta uma pandemia de manifestações. As terras-raras brasileiras, antes ilustres desconhecidas, devem ocupar o centro da disputa por poder tecnológico envolvendo China e Estados Unidos, rivalizando com o agro nas próximas décadas. Haja diplomacia racional e profissional.
Nada disso tira do “Manual de Diplomacia” o mérito de ser um livro raro, bem escrito, generoso no repertório e corajoso ao levar para a formação diplomática autores que o Itamaraty costuma deixar na antessala.
A diplomacia brasileira, vista pela ótica do embaixador Parola no seu Manual, evoluiu desde Rio Branco, buscando sinergia nas grandes equipes de jovens secretários e conselheiros e, ao mesmo tempo, o equilíbrio e a força dos embaixadores mais experientes. Exatamente como os atletas do remo nos seus treinos na lagoa Rodrigo de Freitas. Em conjunto ou solitários, todos remando na mesma direção.
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