Por Pedro Melo*
Uma emergência lotada é um retrato de sofrimento. De quem espera por atendimento, de quem acompanha um familiar e, muitas vezes, de quem trabalha sem as condições necessárias para cuidar como gostaria.
Mas é também um cenário propício a julgamentos apressados. Basta uma câmera ligada, uma autoridade indignada e uma acusação para que, em poucos minutos, profissionais sejam condenados diante de uma plateia que não conhece todos os fatos.
Leia maisSegundo o relato que motivou esta reflexão, um prefeito de uma cidade do interior de Pernambuco entrou no estar médico e acusou dois profissionais, um casal, de negligenciar pacientes e de estar “namorando” durante o plantão. Uma acusação grave, que exige provas e apuração, sobretudo quando expõe publicamente a honra de duas pessoas.
Se houve negligência, que seja investigada. Se comprovada, que haja punição proporcional à gravidade da conduta. O diploma de medicina não concede imunidade ao erro nem dispensa ninguém de responsabilidade.
O cargo de prefeito também não.
Fiscalizar um serviço público é legítimo e necessário. Humilhar profissionais ou apresentar suspeitas como verdades é outra coisa. Uma câmera pode registrar uma cena; dificilmente explica, sozinha, tudo o que aconteceu antes dela.
Estar no repouso médico, por si só, não comprova abandono de pacientes. É preciso verificar a escala, a jornada, as condições do serviço, os atendimentos realizados e se havia alguém precisando de assistência imediata sem recebê-la. É para isso que existe apuração.
Há ainda uma discussão que costuma desaparecer quando a indignação escolhe um culpado: a emergência começa a lotar muito antes da porta do hospital.
Começa quando falta acesso à atenção básica. Quando uma consulta não acontece, um tratamento não tem continuidade ou um problema que poderia ser acompanhado na unidade de saúde termina buscando acolhimento no pronto-socorro.
A população procura a porta que encontra aberta. Não merece ser culpada por isso. Mas o médico que está atrás dessa porta também não pode responder sozinho por todas as falhas do caminho.
Quem conhece a medicina nos pequenos municípios sabe que há plantões com equipes insuficientes, falta de medicamentos, dificuldades para realizar exames e obstáculos para transferir pacientes. Essas condições precisam ser examinadas junto com a conduta dos profissionais. Cobrar responsabilidade exige olhar para toda a cadeia de responsabilidades.
Nos comentários das redes sociais, entretanto, o julgamento costuma chegar antes da investigação. A conduta atribuída a dois médicos vira sentença contra uma profissão inteira.
Há maus profissionais na medicina, como em qualquer atividade. Devemos enfrentá-los com seriedade. Generalizar a suspeita apenas amplia a injustiça e enfraquece a confiança de que o cuidado precisa.
Espero que o Conselho Regional de Medicina apure a conduta dos médicos e que as demais autoridades competentes examinem também a atuação do prefeito. Se os profissionais erraram, que respondam. Se houve acusação falsa, abuso ou exposição indevida, que seu autor também responda, inclusive criminalmente, se assim couber após a devida apuração.
Nós, médicos, precisamos nos solidarizar e nos mobilizar. Cabe discutir um dia de mobilização na rede ambulatorial, organizado com responsabilidade, comunicação prévia e proteção aos pacientes, preservando integralmente as urgências e emergências. Um movimento que torne visíveis as condições de trabalho e cobre compromissos concretos de quem administra a saúde.
A dor da população merece atendimento. A conduta médica exige responsabilidade. E a autoridade pública deve prestar contas da forma como exerce o poder.
Não defendo o erro. Defendo a apuração. E exijo respeito — porque nenhum cargo autoriza alguém a transformar a dignidade alheia em espetáculo.
*Presidente da Unimed Caruaru
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