Por Fábio Chaves*
Deixei a chave reserva sob o vaso de samambaia, no degrau que dá para a rua. Era o nosso costume. Quem chegasse primeiro entrava e tornava a pôr a chave no lugar, uma pequena delicadeza que durante anos nos poupou de acordar um ao outro. Naquela manhã de sábado, porém, eu levava uma mala e ambos sabíamos que eu ia embora. Ainda assim me abaixei, ergui o vaso, acomodei a chave na marca que o tempo lhe cavara na madeira. Dos gestos daquela despedida, foi esse o que mais demorei a compreender. Eu havia decidido partir e, diante da porta, minhas mãos só sabiam fazer o que tinham aprendido para voltar.
No domingo anterior, ela usara um vestido amarelo. Lembro que, ao atravessarmos a ponte, o vento colara a saia em minhas pernas e ela dissera, com aquela seriedade que reservava para as coisas engraçadas, “Agora vais ter de acertar o passo comigo”. Foi assim que atravessamos, um pouco aos tropeços, rindo da dificuldade de andar a dois dentro de um vestido feito para um corpo só. Durante o resto da tarde ainda me aconteceu olhar para ela e rir sozinho, e ela, que sabia muito bem do que eu estava rindo, juntava os joelhos e prendia a saia com as duas mãos, embora estivéssemos sentados e já não houvesse vento algum.
Leia maisGente de fora da nossa casa invejava a alegria que tínhamos juntos e via na nossa união um obstáculo às próprias ambições. Era sobre a mulher que eu amava que recaía a parte mais dura daquele sofrimento. Naquela manhã de sábado, perto da janela onde ela costumava ler, contei-lhe por que eu tinha decidido partir. Queria poupá-la, e me custou dizer isso olhando para os olhos que eu teria querido ver envelhecer de perto. Depois fui buscar a mala. Ao atravessar a sala, pisei de leve, como quem passa por uma casa de madrugada e toma cuidado para não acordar nenhum cômodo.
No quarto alugado onde passei a morar, descobri aos poucos a extensão da mudança. Certa manhã, vesti a camisa pelo avesso e só dei por isso na padaria, ao procurar o bolso para pagar o pão. Levei a mão ao peito, achei o bolso do lado de dentro e me ocorreu, inteira, a frase que lhe diria ao chegar em casa, que eu andava tão distraído que já precisava entrar na camisa para tirar o dinheiro. Era uma tolice das nossas. Havia anos eu lhe dizia coisas assim com a liberdade de quem sabia que podia ser um pouco menino aos olhos de uma mulher sem que ela o amasse menos por isso. Voltei com o pão debaixo do braço e, pela primeira vez desde a partida, senti saudade de mim. Daquele homem que atravessara uma ponte metido na saia do vestido dela e, se a ponte fosse mais comprida, teria agradecido.
Hoje, quando passo pela rua, ainda olho o degrau. A samambaia cresceu, as folhas mais compridas já tocam o chão. Nunca mais vi seu rosto. Não bato. Não ligo. Nunca mais levantei o vaso.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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