Por Inácio Feitosa*
Um dos fatos que mais me chocaram nos últimos anos foi ver, no São João de Monteiro, na Paraíba, Alok transformado em uma das principais atrações da festa. Nada contra ele, nem contra Roberto Carlos, Marisa Monte ou os cantores sertanejos de Goiás. Cada manifestação cultural possui o seu espaço. O problema surge quando o São João do Sertão deixa de valorizar suas raízes e passa a se comportar como um produto sem identidade.
Ninguém imagina uma festa sertaneja em Goiânia substituindo seus artistas por trios de forró pé de serra. Da mesma forma, seria impensável uma festa tradicional gaúcha abrir mão de sua música regional para se render a outros ritmos. No Nordeste, porém, alguns gestores parecem acreditar que aquilo que vem de fora é sempre mais moderno e mais importante do que aquilo que nasceu aqui.
Leia maisA desculpa mais frequente é culpar a juventude. Discordo. Os jovens consomem aquilo que lhes é oferecido. Os principais responsáveis por essa descaracterização são muitos prefeitos, que confundem política cultural com produção de eventos. Em vez de proteger o patrimônio cultural, preferem administrar espetáculos.
As antigas festas realizadas nas praças centrais, abertas ao povo, deram lugar a estruturas cada vez mais parecidas com grandes camarotes. Em alguns municípios, o São João virou uma espécie de São João S.A., onde a preocupação maior não é a cultura popular, mas os patrocinadores, os espaços VIP, os influenciadores digitais e as fotografias para as redes sociais.
Enquanto isso, artistas como Flávio José, herdeiros da tradição de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, perdem espaço justamente na festa que ajudaram a construir. A sanfona vai cedendo lugar aos efeitos especiais, a zabumba aos telões e o triângulo ao espetáculo. Em nome da modernidade, transforma-se em figurante aquilo que deveria ser protagonista.
A cultura influencia diretamente o desenvolvimento de um povo. Ela fortalece a identidade, movimenta a economia e preserva a memória coletiva. Quando o poder público abandona suas tradições, não é a juventude que está falhando. São os gestores que renunciam ao dever de proteger aquilo que faz do Nordeste algo único.
O novo pode conviver com o tradicional. O que não é aceitável é a substituição. Porque é inadmissível que, no Sertão nordestino, a sanfona seja expulsa da própria casa.
*Advogado, escritor e professor universitário
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