Movimento
O movimento de ascensão de governos de direita ganhou mais força desde as eleições de Rodrigo Paz, na Bolívia, em outubro de 2025, e de José Antônio Kast, no Chile, em dezembro daquele mesmo ano. A eles, se juntaram os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, e do Equador, Daniel Noboa. Todos de direita.
No outro lado do espectro político, a esquerda comanda, além do Brasil com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Uruguai, com Yamandú Orsi; a Guiana, Irfaan Ali; o Suriname, Jennifer Simons, e a Venezuela, Delcy Rodríguez. Esta última, apesar de ser de esquerda, mantém uma relação de cooperação e aproximação diplomática o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde a destituição do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
Influência
No processo de ascensão de uma nova direita na América Latina, um artigo publicado no site da emissora conservadora Newsmax e compartilhado por Donald Trump em uma rede social na última terça-feira (23), chamou a atenção. O texto relata que as eleições presidenciais no Brasil serão “um grande teste” para o “ressurgimento conservador” não só na América do Sul, mas na América Latina como um todo. O documento diz ainda que a onda de presidentes alinhados a Trump começou na América Central, em 2019, com a eleição de Nayib Bukele em El Salvador “e tem se intensificado de forma constante desde então”.
“As atenções agora se voltam para o Brasil, a maior nação da América Latina e a potência política da região. A próxima eleição presidencial poderá se tornar a disputa mais importante do hemisfério”, diz parte do texto. A ação de Trump é mais uma que ocorre após o encontro do líder norte-americano com Lula na cúpula do G7, na França, onde os chefes de estado praticamente não interagiram. Apesar de posarem juntos para a oficial do encontro, não houve qualquer cumprimento oficial.
Cenário
É neste cenário que o presidente Lula (PT) enfrentará líderes de direita nas urnas como o senador Flávio Bolsonaro (PL); o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD); o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); e o empresário Renan Santos (Missão). Na disputa, Lula terá um contexto bastante diferente que encarou em 2022 quando venceu as eleições. Na época, a maioria dos líderes da região eram aliados ideológicos do PT.
O movimento no começo dos anos 2020 ficou conhecido como uma espécie de “nova onda rosa”. A primeira ocorreu no início dos anos 2000, com a ascensão de governos de esquerda e centro-esquerda na América Latina. Posteriormente, a direita conseguiu recuperar seu espaço.
Análise
Para o professor e colunista da Folha de Pernambuco, Luiz Otávio Cavalcanti, a onda de direita não se restringe à América Latina e vem acontecendo em diversos países do mundo. Segundo ele, há diversas razões por trás do fenômeno. “Geralmente, (a ascensão de governos de direita) ocorre por duas razões: em primeiro lugar, existe um sentimento de frustração social das pessoas com relação a alguns índices, como inflação, desemprego e violência. São temas que afetam todas as famílias. Em segundo lugar, o discurso principalmente da extrema-direita (abordando esses temas) faz com que as pessoas se identifiquem com aquelas falas”, argumentou. No Brasil, a oposição aposta no discurso da segurança pública e críticas à condução da política econômica do governo Lula para vencer as eleições. Por outro lado, o Planalto aposta em ações na área para tentar recuperar a sua popularidade.
Sobre a influência de Donald Trump no pleito, Luiz Otávio Cavalcanti pondera que Trump não deseja concentrar sua zona de influência apenas nas Américas. Segundo ele, a tendência é de que o presidente norte-americano queira ganhar terreno em todo o mundo. “É uma personalidade que não se contém nos Estados Unidos quanto à sua ambição. A gente observa claramente que ele possui um projeto de poder global. O mais grave disso tudo é que é algo que tem uma natureza destrutiva, o que é um problema. Por exemplo, (com sua política externa), Trump desmoraliza a ONU, a OMC, a Conferência do Meio Ambiente, entre outras instituições que necessitam de esforços de consenso para avançar em suas pautas”, destacou.
A cientista política Clarisse Gurgel destaca que o Brasil conta com um poder de influência muito grande não só na América do Sul, mas no contexto latino como um todo. “Ocupamos [diante da América Latina] um lugar central, até por sermos o maior e mais rico país. Por isso, ele é gravitacional, ou seja, atrai atenção dos Estados Unidos e dos outros países”, analisou.
Segundo ela, a influência dos Estados Unidos no pleito pode se manifestar de diversas formas. “(A influência dos Estados Unidos) pode se materializar em aspectos muito mais invisíveis do que visíveis no país, como criar uma instabilidade.”
Luiz Otávio Cavalcanti destacou que não há dúvidas de que Trump tentará interferir de alguma maneira nas eleições de outubro aqui no Brasil. “Todo o comportamento político e as suas manifestações são no sentido de se inserir de forma direta e indireta na eleição brasileira. O Brasil é o país mais importante da América Latina”, afirmou. Ainda de acordo com ele, o peso social, geográfico e social do Brasil são fatores que devem ser levados em consideração pelo governo norte-americano.
“Ele pode interferir de forma direta quando, por exemplo, recebe o senador Flávio Bolsonaro (PL) na Casa Branca, mostrando que, ao contrário de Lula, o seu adversário tem livre acesso. As formas indiretas podem ser uma série de medidas que ele pode tomar para dificultar a economia brasileira, mostrando que os acordos que foram feitos no passado não compõem mais o cenário para o futuro”, continuou o colunista Luiz Otávio Cavalcanti.
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