E explico por quê.
A política precisa de continuidade. Alguém precisa assumir responsabilidades, ocupar espaços, renovar lideranças e dar prosseguimento a projetos. É a representação política que, em grande medida, proporciona sustentação às demandas de uma cidade, de uma região, de um Estado e do próprio País.
Lideranças não podem ter medo de liderar. Precisam ter coragem, determinação e disposição para enfrentar críticas — inclusive aquelas mais duras e, por vezes, depreciativas.
Conheço Petrolina e acompanho seu desenvolvimento há décadas. Sei o quanto a representação política foi importante para que nossa cidade alcançasse a posição que ocupa hoje. Petrolina não chegou até aqui por acaso. Houve trabalho de sua gente, capacidade empresarial, agricultura irrigada, comércio, educação e empreendedorismo, mas também houve presença política, articulação e representação nos centros de decisão.
Por isso, não consigo enxergar com naturalidade a ideia de que a candidatura de Miguel necessariamente transforme Fernando Filho ou Antônio Coelho em figuras secundárias, muito menos em “mamulengos” de um projeto familiar.
Fernando Filho tem sua própria história. Construiu mandatos, ocupou espaços importantes na vida pública nacional e possui uma folha de serviços que deve ser avaliada pelo eleitor. Antônio Coelho, da mesma forma, vem construindo seu caminho político. Miguel, por sua vez, foi prefeito de Petrolina, disputou o Governo de Pernambuco, percorreu o Estado e ampliou sua presença política para além das fronteiras do município.
São trajetórias que podem se encontrar sem necessariamente se anularem.
A história política de Petrolina, evidentemente, registra divisões familiares profundas. Quem viveu ou acompanhou o rompimento entre Fernando Bezerra Coelho e Osvaldo Coelho sabe o quanto aquele episódio marcou a cidade. Durante muitos anos, Petrolina conviveu com uma polarização que ultrapassou a política e alcançou amizades, relações empresariais e até famílias.
Mas os tempos são outros.
Também considero necessário algum cuidado quando se busca estabelecer uma relação direta entre o atual momento e o velho coronelismo. A história deve servir para compreendermos o presente, mas não necessariamente para reproduzirmos, sobre ele, as mesmas categorias do passado.
Hoje existem eleições competitivas, partidos, redes sociais, imprensa atuante, oposição, fiscalização e, sobretudo, um eleitor muito mais informado e independente. Ninguém possui mandato por direito hereditário. Sobrenome pode ajudar a abrir portas, mas não substitui votos.
E voto precisa ser conquistado.
Miguel tentou chegar ao Governo de Pernambuco e não conseguiu. Buscou outras construções políticas e encontrou obstáculos. Isso faz parte da política. Derrotas, recuos e mudanças de estratégia não significam necessariamente o encerramento de uma trajetória. Muitas vezes são justamente esses movimentos que obrigam uma liderança a se reposicionar.
A política é dinâmica.
O que hoje parece uma derrota pode amanhã representar aprendizado. O que parece um recuo pode ser reorganização. E aquilo que alguns interpretam como disputa interna pode também representar uma tentativa de ampliar a representação política de Petrolina e do Sertão.
Será que Petrolina deve escolher entre Miguel e Fernando Filho? Ou poderá eleger os dois?
Essa pergunta não será respondida pelos analistas, pelas famílias políticas nem pelos candidatos.
Será respondida pelas urnas.
E é justamente aí que está a beleza da democracia.
Tenho defendido que Petrolina precisa ampliar sua representação. Uma cidade com a importância econômica, populacional e estratégica que conquistou não deve se contentar com pouco espaço político. Quanto maior for sua representação qualificada na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados, no Senado e nos demais espaços de decisão, maiores poderão ser as possibilidades de defender os interesses da região.
Naturalmente, caberá aos candidatos demonstrarem que possuem méritos próprios. Nenhum deles deve viver à sombra do outro. Fernando Filho precisa continuar sendo Fernando Filho. Antônio precisa construir a trajetória de Antônio. E Miguel precisa responder politicamente por suas escolhas, acertos e erros.
A democracia fará o restante.
Por isso, vejo com naturalidade esse novo capítulo da política petrolinense. Divergências existirão. Críticas também. Algumas construtivas, outras exageradas e outras até depreciativas. É o preço pago por quem decide participar da vida pública.
Mas liderança exige coragem.
A história não é construída apenas por aqueles que permanecem onde estão para preservar espaços conquistados. Também é feita por quem aceita correr riscos, enfrentar julgamentos, disputar eleições e colocar seu nome novamente diante da população.
No final, não serão os sobrenomes, as análises ou as previsões que decidirão.
Será o eleitor.
E talvez seja exatamente essa a grande diferença entre o coronelismo do passado e a democracia do presente: antes, poucos decidiam por muitos; hoje, pelo voto, muitos têm a oportunidade de decidir quem continuará escrevendo a história.
*Professor universitário aposentado, administrador, contador e mestre em economia
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