Por Mauro Souza*
A expressão “a corrupção mata o amanhã” não é apenas um dito de cunho moral; ela traduz um mecanismo econômico, social e político que destrói as bases de desenvolvimento de uma nação.
Eu concordo plenamente com os laureados do Prêmio Nobel de Economia de 2025 — Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt quando atestam que a corrupção não é apenas uma infração ética ou administrativa. Ela se constitui como mecanismo de bloqueio institucional, que desativa os motores do crescimento econômico. Quando ela se enraíza, a exemplo do que vemos sistematizado em nosso país, ela deixa de ser apenas o desvio de um recurso público e passa a comprometer a viabilidade do porvir.
O custo advindo da corrupção tem total correlação com o chamado “Custo Brasil”. Investidores internacionais e fundos de capital de risco fogem de mercados onde as regras mudam conforme o suborno pago, ou onde o sistema regulatório é parcial. Sem previsibilidade, o capital vai para outro lugar, e o dinheiro que deveria financiar a infraestrutura do país se vê consumido pelo superfaturamento.
Leia maisA erosão ocasionada por um sistema corrompido abre espaço para o ceticismo frente às instituições democráticas, gerando ciclos de instabilidade e ceifando qualquer planejamento de longo prazo. Nesse cenário, setores estratégicos como a transição energética, a exploração de recursos minerais (como as terras raras) ou a regulação da infraestrutura de portos, aeroportos e da economia digital passam a atender a interesses escusos, em vez de metas de soberania e sustentabilidade nacional.
Na minha avaliação, uma sociedade só prospera se tiver instituições que protejam a inovação e impeçam que os vencedores de ontem usem a corrupção ou a regulação do Estado para impedir o florescimento dos vencedores de amanhã.
O comitê do Nobel destacou que o trabalho dos laureados em 2025 se faz essencial para entender os desafios atuais da IA, que se configura como força de criação de riqueza e prosperidade para alguns países… exatamente aqueles que se mostrem efetivos na proteção da inovação, diante da sanha da cleptocracia.
A IA tem potencial para atuar como antídoto contra a corrupção e a burocracia, na medida em que apoia a transformação de cadeias produtivas inteiras, maximiza, cruza massivamente dados para detectar anomalias e substitui a “subjetividade humana” por rastreabilidade digital.
Neste diapasão, eu vejo com bons olhos o PL 704/2026. Trata-se de uma proposta legislativa recente, que foca em direcionar parte dos esforços em desenvolvimento tecnológico para o combate à corrupção.
Diferente de projetos que buscam apenas mitigar danos ou estabelecer barreiras de segurança (como o PL 2.338/2023), o PL 704/2026 propõe uma postura ativa: o Estado deve priorizar e incentivar o desenvolvimento de IAs (em especial regulatórias), que atuem diretamente na integridade pública.
A prosperidade não é um estado natural, mas uma conquista moral. Ela depende da preservação de um ambiente onde as regras sejam claras e o sucesso seja determinado pela superioridade da inovação. Usar a IA como instrumento de combate à corrupção pode ser o último baluarte, antecessor da barbárie e da completa degradação social. Vamos em frente, pois temos um compromisso para com as gerações futuras.
*Engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
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