Por Rudolfo Lago
Do Correio da Manhã
No momento em que é escrito o Correio Político, Jaques Wagner (PT-BA) permanece como o líder do governo no Senado. Há bastidores fortes no sentido de que ele possa entregar o cargo. É possível que sejam mais desejos de alguns — a pressão sobre ele está forte — do que de fato intenção, seja de Wagner seja do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tempo dirá.
Mas o fato é que o episódio pode promover mudanças na forma como Lula formatou seu terceiro governo na hipótese de vir mesmo a conquistar um cargo. No Lula III, o presidente deu grande espaço e poder para dois grupos, que ficaram conhecidos como República de Curitiba e República do Acarajé. Grupos que, de certa forma, se interconectam.
Leia maisO primeiro traz aqueles que mais se aproximaram de Lula quando ele esteve preso em Curitiba. O segundo é a turma da Bahia, onde houve uma impressão de experiência petista bem sucedida nos últimos anos. Alguns nomes de um grupo e outro já tinham saído, como o deputado Paulo Pimenta (RS) da Secretaria de Comunicação — representante do primeiro grupo — e Rui Costa da Casa Civil, quadro forte do segundo grupo.
Na avaliação de quem acompanha o governo de perto, a experiência da prisão em Curitiba muito impactou Lula. E, nesse sentido, ele nutriu muito carinho e confiança a quem mais ele considera que esteve próximo dele naquele período. Isso inclui sua própria esposa agora, Janja da Silva, a quem muitos atribuem ter ampliado sua blindagem. Incluía também a deputada Gleisi Hoffmann, na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência. Na disputa eleitoral, essas pessoas deixaram o governo para disputar cargos no Parlamento.
Esses grupos teriam substituído o núcleo duro original de Lula nos seus dois primeiros governos: a República de São Bernardo. Eram nomes que acompanham o presidente desde o início da formação do PT nas greves do ABC. Casos de Luiz Gushiken, Luiz Dulci, José Dirceu. Nomes que teriam mais liberdade para fazer um contraponto crítico a Lula.
No terceiro governo, Lula teria ficado mais blindado. Seus novos aliados já o conheceram presidente. Têm uma admiração distanciada que os antigos aliados, que cresceram com ele, não tinham tanto. Do novo grupo, um dos poucos que tinham essa capacidade, pela intimidade, era Jaques Wagner.
Da turma da Bahia, há muitas queixas internas à forma como agia na Casa Civil Rui Costa, que deixou o cargo para disputar o Senado pela Bahia. Não são poucos os ministros e ex-ministros que se queixaram de desprestígio, da forma como Rui Costa conduzia a pasta, de não serem bem tratados.
A força baiana veio da forma como o PT lá se consolidou nos últimos anos. Jaques Wagner foi reeleito governador em 2006. Reeleito em 2010. Rui Costa assumiu o governo 2014. Reeleito em 2018. Fez Jerônimo Rodrigues governador em 2022. Na eleição presidencial, Lula teve 72% dos votos baianos.
Se as eleições fossem hoje, o encanto baiano talvez tenha se quebrado um pouco. Derrotado em 2022, agora quem lidera as pesquisas na Bahia é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Um levantamento da Quaest, porém, mostra aprovação do governo de Jerônimo em 56%. Será preciso ver se o caso Jaques Wagner provocará danos.
Iniciada a semana, Jaques Wagner discutiu a situação com Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, antes de uma possível reunião com Lula. O problema não envolve somente Jaques Wagner. A ponta do caso Master que envolve consignados fantasmas tem sua origem na Bahia, a partir do CredCesta.
Embora ainda tímida, há quem enxergue uma possibilidade de reaproximação de alguns integrantes dos grupos originais. Nomes como Gilberto Carvalho agora já estão na equipe de campanha, cuidando da agenda. Caso se eleja deputado federal, José Dirceu também deverá ter influência.
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