Por Maurício Rands*
A beleza da diversidade. Nações diminutas como Curaçao, Haiti e Cabo Verde competindo com países de dezenas de milhões de habitantes e economias pujantes. Nada mais democrático. Nas quatro linhas, alguns gigantes sendo derrotados por emergentes. Nas arquibancadas, torcedores de culturas e credos diferentes. Muita emoção, mas também jogos sendo ganhos pelo equilíbrio e pelo cérebro.
Como dia desses comentou o amigo Ricardo Thibau, essa copa é de todas a que teve mais jogos espetaculares. E muitas vezes de seleções sem grandes tradições. A camisa não ganha mais jogo. As “zebras” galopam contra potências campeãs. Basta lembrar os feitos de Cabo Verde que pegou Uruguai, Espanha e Argentina, três campeões do mundo, e não perdeu no tempo regulamentar. Ou do Paraguai que eliminou a Alemanha na “Batalha de Boston”. Ou do Marrocos, que eliminou a Holanda, ganhou quatro partidas, empatou uma e se tornou o primeiro país africano a disputar duas vezes as quartas de final. Ou as precoces eliminações das fortes seleções da Croácia e do Uruguai.
Leia maisUm capítulo à parte é a evolução do futebol africano. Não apenas Marrocos e Egito, que se mantiveram vivos até os mata-matas. Mas outras equipes como Argélia, Gana, Cabo Verde e Costa do Marfim fizeram campanhas marcantes, vendendo caro suas derrotas para potências europeias e sul-americanas. A Tunísia foi a única seleção do continente eliminada ainda na fase de grupos. 24% dos jogadores que disputam a copa não nasceram nos países que representam. Isso mostra a maior internacionalização e nivelamento do futebol mundial. Subiram os níveis das marés da técnica, da tática e da aptidão física dos atletas de todas as regiões.
Mas tem muita coisa errada a ser corrigida. A começar pela submissão da FIFA ao autoritarismo dos EUA. Como aceitar que o anfitrião negue vistos a dirigentes e torcedores dos participantes num evento destinado a fomentar o internacionalismo? Como aceitar o racismo da migração americana que discriminou jornalistas negros e árabes, como a brasileira Karine Alves, da TV Globo? A mesma FIFA que foi cordeirinha com a prepotência americana, foi impositiva com o Brasil na Copa de 2014.
Outro absurdo da FIFA foi o preço dos ingressos. Algo precisa ser feito para que aos estádios também possam ter acesso os não-ricos. A beleza do futebol é a presença de público, que pode ser gigantesca porque as dimensões do gramado são mais extensas do que nos outros esportes. Uma boa solução me foi sugerida por outro amigo, o engenheiro André Gusmão. Poderia ser reservado um certo número de ingressos com preços limitados para os torcedores de menor poder aquisitivo. Poderia ser feito um cálculo proporcional à renda per capita do país do torcedor. Outro tema a ser revisitado é o dos impedimentos, que continuam gerando as maiores controvérsias. Portugal foi salvo por um fio de cabelo do atacante da Croácia que o VAR considerou ter tocado na bola e gerado o impedimento que anulou o que seria o gol de empate no finalzinho. Continuo achando que o VAR é bem-vindo. A tecnologia pode atenuar as falhas humanas dos árbitros. Mas já chegou a hora de revisitar a regra do impedimento. Suprimi-la pode gerar uma concentração excessiva de jogadores dentro da área. Por isso, talvez se pudesse pensar uma regra em que os impedimentos só poderiam ser marcados se os atacantes estivessem dentro da área.
O nivelamento do futebol mundial pode explicar a eliminação do Brasil. A Noruega antes não era páreo para a nossa seleção. Ontem nos eliminou jogando com mais eficiência, garra e equilíbrio emocional. Resta-nos agora aprender com a Noruega e outras seleções que já apresentaram futebol de melhor nível do que o nosso, como França, Argentina, Portugal, Espanha e Colômbia. Tudo parece em aberto. Até porque, sendo a copa decidida em mata-matas, nem sempre ganha a seleção de melhor qualidade.
*Advogado formado pela FDR da UFPE, professor de Direito Constitucional da Unicap, PhD pela Universidade Oxford
Leia menos




















