A imagem acima, que vem circulando pelas redes sociais nos últimos dias, repercute um cenário que já se transformou em símbolo da crise da saúde pública em Pernambuco. Em ano eleitoral, a governadora Raquel Lyra (PSD) intensificou a divulgação de reformas, entregas e requalificações em hospitais estaduais. Nas últimas semanas, porém, a agenda positiva construída pelo governo passou a disputar espaço com uma sucessão de problemas registrados dentro de algumas das principais unidades de saúde do Estado.
O Hospital da Restauração, maior emergência do Norte e Nordeste e uma das principais vitrines dos investimentos anunciados pela gestão estadual, tornou-se o retrato mais evidente desse contraste. Enquanto o governo divulgava obras milionárias de recuperação de fachada, pintura, troca de esquadrias, reforma da Sala Vermelha e intervenções em diversos setores, o hospital acumulou ocorrências envolvendo queda de parte do teto do 7º andar, vazamentos internos apontados pelo Cremepe, infiltrações provocadas pelas chuvas, entrada de água em áreas de internação e novos registros de comprometimento da estrutura da enfermaria masculina.
Leia maisO caso do HR não ficou isolado. No mesmo período, o Hospital Agamenon Magalhães registrou dois desabamentos de teto em intervalo de poucos dias, um deles na área de triagem obstétrica e outro na ala de obstetrícia. No Hospital Barão de Lucena, parte da estrutura da UTI Neonatal cedeu poucos meses após intervenções de requalificação. Já no Hospital Getúlio Vargas, o forro do setor de Pediatria desabou durante a madrugada, obrigando o isolamento da área.
A crise estrutural caminha ao lado de outro problema recorrente: a superlotação. No fim de maio, uma paciente internada no Hospital Otávio de Freitas denunciou ao blog que aguardava uma cirurgia renal em meio a macas espalhadas pelos corredores, dificuldades de locomoção e falta de condições adequadas para os pacientes. O vídeo ganhou repercussão um dia após a governadora participar da entrega da requalificação do Bloco Cirúrgico Ambulatorial e da recepção da unidade, obra inserida em um pacote superior a R$ 158 milhões anunciado para o hospital.
Os problemas não se restringem à infraestrutura. No fim de maio, deputados estaduais da oposição apresentaram um relatório apontando redução proporcional dos investimentos em saúde, fechamento de unidades hospitalares e diminuição da oferta de leitos durante a atual gestão. O documento cita o fechamento do Hospital Jesus Nazareno, em Caruaru, do Hospital de Retaguarda em Neurologia, no Recife, e do Hospital Central de Paulista, além da redução de 226 leitos na rede estadual. O relatório também menciona denúncias sobre recipientes improvisados para coleta de urina no Hospital da Restauração e um documento interno relatando a presença de fezes e urina de roedores em uma área de armazenamento de equipamentos médicos do Hospital Agamenon Magalhães. O deputado federal Pedro Campos, por sua vez, afirmou que Pernambuco perdeu mais de 1,2 mil leitos do SUS desde o início da atual gestão.
O governo rebate as acusações. A secretária estadual de Saúde, Zilda Cavalcanti, contestou os números apresentados pela oposição, afirmou que Pernambuco alcançou em 2025 o maior volume de investimentos da história da saúde estadual e desafiou os parlamentares a comprovarem a alegada redução de leitos. Segundo ela, os fechamentos do Hospital Jesus Nazareno e do Hospital de Retaguarda em Neurologia foram compensados pela abertura de vagas em outras unidades, sem prejuízo para a rede. Zilda também negou ter sido procurada pelos deputados para tratar das denúncias envolvendo hospitais estaduais e afirmou que a gestão atua com “verdade, coerência e transparência”. A secretária sustenta que o orçamento da saúde passou de R$ 8,67 bilhões para R$ 11,42 bilhões entre 2022 e 2025, que 670 novos leitos foram abertos e que outros 1.500 deverão ser entregues nos próximos meses.
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