Por Marlos Porto*
Na última sexta-feira, 19 de junho, após a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Haiti, numa transmissão pós-jogo que reunia convidados para comentar a partida, uma imagem chamou a atenção de quem assistia. Romário, campeão mundial em 1994, artilheiro daquela conquista, eleito o melhor jogador do mundo naquele ano, autor de mais de mil gols na carreira, sentado no braço do sofá. Ao centro, dois apresentadores jovens ocupavam o lugar de destaque. Ao lado, Matheus Cunha, autor de dois gols na partida e grande nome do jogo, completava o grupo. A cena não passou despercebida e já gerou muitos comentários nas redes sociais.
O que se celebra hoje, no entretenimento esportivo e em outras esferas da mídia, não é a qualidade, mas a aderência. Não se pergunta: “O que essa pessoa tem a dizer?”; pergunta-se: “Essa pessoa gera reação?”. A linguagem que domina é a do excesso: vozes elevadas, risadas que soam quase cenográficas, gestos amplos, trejeitos que funcionam como marca registrada. A aparência, por vezes, acompanha esse exagero: cabeleiras desgrenhadas, figurinos que buscam chamar atenção. Não há juízo de valor estético nessa constatação; trata-se de observar que o invólucro, muitas vezes, ocupa o lugar que deveria ser do conteúdo. O comentário não precisa ser inteligente; precisa ser rápido. Não precisa ser verdadeiro; precisa ser impactante. Não precisa acrescentar; precisa entreter. E o público, educado para consumir esse modelo, começa a confundir popularidade com autoridade e ruído com relevância.
Leia maisA inversão se dá em várias camadas. Quem construiu uma carreira por décadas vê seu espaço ocupado por quem aparece por um clique. O saber é substituído pelo espetáculo. Romário tem muito a dizer sobre tática, sobre posicionamento em campo, sobre a inteligência para ler o jogo e decidir no momento exato. Tem uma compreensão ímpar do espaço e do tempo dentro das quatro linhas, algo que poucos jogadores na história dominaram como ele. Tem também uma personalidade fortíssima, que se manifestava na postura em campo, na confiança inabalável, na capacidade de assumir a responsabilidade nos momentos decisivos. Do ponto de vista humano, sua trajetória é repleta de lições sobre superação, resiliência e autoconfiança, elementos que poderiam enriquecer qualquer debate sobre futebol e sobre a formação de atletas. Mas o programa, muitas vezes, não quer isso; quer a “lenda” dando risada, sendo descontraída, validando o clima de “resenha”. E o convidado, mesmo tendo mais a oferecer, se curva ao palco. Fala o que se espera. Entra no jogo da leveza, da anedota, da brincadeira, porque ser levado a sério, hoje, muitas vezes, significa ser chato.
Não custava nada um daqueles apresentadores ter se levantado e dado o lugar para Romário. Seria um ato de profunda gentileza, um reconhecimento mínimo à trajetória de quem ali estava. Mas talvez eles tenham receio de perder o espaço se fizerem isso. E essa é uma das faces mais reveladoras do modelo vigente: o lugar de destaque é ocupado com tanta insegurança que não pode ser cedido, nem mesmo por um instante, a quem evidentemente o merece mais.
Romário não precisava estar ali. Ele tem seu próprio canal, a Romário TV, com sua própria voz e curadoria. Tem uma história no futebol que poucos no mundo podem ostentar, com atuações que marcaram gerações. Isso sem falar no mandato de senador, que traz ainda um relevo maior para sua participação (não há incompatibilidade da atividade de comentarista com suas funções parlamentares, e o senador pode participar de sessões de forma remota). Mas sentou no braço do sofá por escolha, porque topou o jogo, porque entrou na dinâmica da “resenha leve”, talvez pensando em dar uma força, se divertir ou simplesmente aparecer. Ao fazer isso, ao aceitar o lugar marginal, ao não questionar o formato, escancarou, sem querer, a mediocridade do programa. Porque, se até Romário, com todo o peso que tem, aceita ser coadjuvante num formato que não privilegia quem tem o que dizer, o que isso revela sobre o modelo?
Qualquer pessoa comum, sem formação em mídia, com um mínimo de senso de hospitalidade e respeito, perceberia o constrangimento da cena. Bastaria um olhar leigo para sentir que a figura maior deveria ocupar o lugar maior, não por vaidade, mas por reconhecimento elementar. Se uma pessoa comum percebe o equívoco, por que os profissionais não percebem? Porque não querem. Perceber significaria abrir mão do centro, reconhecer que o protagonista da história não são eles.
Nas redes sociais, muita gente criticou o Romário por estar sentado no braço do sofá, por ter pegado o celular e mandado um áudio durante o programa. Mas essa crítica revela mais sobre o público do que sobre ele. Se o programa não o tratou com o devido respeito, por que ele teria que dedicar toda sua atenção àquele formato? Se o lugar que lhe ofereceram foi marginal, por que ele deveria corresponder com protagonismo? A atitude de Romário, olhar para o celular, enviar mensagens, não se entregar totalmente à dinâmica foi, talvez, uma resposta silenciosa ao espaço que lhe deram e uma exposição involuntária do que o programa realmente valoriza.
Não se trata de um programa específico, de um apresentador ou de um sofá pequeno. Trata-se de uma parcela significativa dos espectadores, aquela que aplaude o palavrão em vez da ideia, que lota canais para ver alguém reagir, mas não lê uma página de análise, que confunde autenticidade com ausência de filtro e profundidade com pedantismo. Romário no braço do sofá é a imagem de uma sociedade que não sabe mais onde colocar seus verdadeiros patrimônios, colocando-os na margem, no canto, no desconforto e ainda achando bonito.
Obviamente, os apresentadores fazem seu trabalho dentro das regras do jogo que o mercado estabeleceu e conforme o que eles têm a oferecer. O tal Casimiro construiu um negócio legítimo, gera empregos, movimenta a economia (e ainda ajuda a quebrar um pouco a tão danosa hegemonia da Globo). Mas há uma escolha estética e ética que estamos fazendo coletivamente: a de valorizar mais o invólucro do que o conteúdo, mais a forma do que o fundo, mais o “como” do que o “quê”: um modelo que privilegia a superficialidade em detrimento da substância. Romário, por sua trajetória, por sua bagagem tática, técnica e humana, não precisa daquele sofá. Mas aceitou o lugar e, ao aceitar, deu um atestado involuntário da mediocridade do programa. E, ao pegar o celular e se desconectar, mostrou que o respeito, quando não é oferecido em termos minimamente aceitáveis, também não precisa ser devolvido em padrões ideais.
A pergunta que fica é: até quando uma parcela significativa do público continuará valorizando a superficialidade, enquanto quem tem o que dizer segue sentado no braço do sofá?
*Ensaísta
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