Raquel, mais pressionada, passou boa parte do debate na defensiva. O desempenho de João pode ser resumido em uma palavra: massacre. Nos duelos diretos com Raquel, o socialista conseguiu impor a pauta e obrigar a governadora a responder por seu próprio governo.
A cada bloco, João voltava às mesmas perguntas incômodas: onde estão as delegacias, as escolas técnicas, as UPAs e as UPAs Especialidades prometidas ou esperadas pelos pernambucanos? E, mais importante, por que entregas que foram marcas das administrações do PSB não tiveram continuidade na mesma proporção durante o governo Raquel?
A governadora apresentou obras, investimentos e ações de sua gestão, mas teve dificuldade para responder de maneira objetiva ao tipo de comparação que João colocou sobre a mesa. Foi justamente aí que o debate ganhou um caráter de prestação de contas.
João não estava apenas atacando Raquel. Estava perguntando o que ela fez com durante os quatro anos em que teve a caneta na mão. O momento mais emblemático veio quando Raquel voltou a explorar a passagem de João pelo governo Paulo Câmara, repetindo a tentativa de associá-lo ao antigo governo do PSB.
João devolveu com ironia e uma pergunta que virou uma das frases da noite: “Quem manda no governo? É a governadora ou é o chefe de gabinete?” A provocação foi certeira porque desmontou uma das principais linhas de ataque de Raquel. João lembrou, na prática, que ele nunca foi governador de Pernambuco e que quem precisa prestar contas pela atual administração seria a própria Raquel.
Foi uma inversão importante de posições. Raquel tentava levar a eleição para o passado. João conseguiu trazê-la para o presente. Em vez de discutir indefinidamente Paulo Câmara, obrigou a governadora a explicar suas próprias entregas. E, nesse terreno, conseguiu conduzir praticamente todos os duelos em que os dois se enfrentaram diretamente.
Na saúde, o domínio também foi evidente. João voltou a colocar sobre a mesa os números e equipamentos que considera símbolos das gestões anteriores e perguntou o que Raquel efetivamente acrescentou à estrutura estadual.
Hospitais, UPAs, UPAs Especialidades e novos equipamentos entraram no centro do confronto. A governadora respondeu com obras e investimentos de sua gestão, mas não conseguiu retirar o debate do terreno escolhido pelo adversário: o da comparação concreta de entregas.
A sensação de pressão sobre Raquel ficou ainda mais forte pelo comportamento da governadora durante o debate. Em diferentes momentos, ela pareceu tensa, gaguejou e trocou palavras. Isso, isoladamente, não permite tirar conclusões sobre seu estado emocional.
Politicamente, porém, a imagem contrastou com a segurança que uma candidata na reta final precisaria transmitir. Enquanto João avançava sobre os pontos mais sensíveis da adversária, Raquel frequentemente parecia estar tentando recuperar o controle da conversa.
E houve ainda o episódio que se tornou uma espécie de calcanhar de Aquiles da campanha governista: o “faz sem ela saber”. A frase voltou a aparecer no debate e dificilmente deixará de fazer parte da eleição. Mesmo com o pedido de desculpas posterior, o episódio passou a ser explorado por João como símbolo de uma campanha que precisa explicar não apenas o que pretende fazer, mas também declarações e decisões que marcaram o atual governo.
O assunto, ao contrário do que a campanha de Raquel gostaria, ganhou vida própria e já não parece haver uma explicação capaz de simplesmente retirá-lo da disputa. Ivan Moraes teve uma atuação mais independente, procurando se diferenciar dos dois candidatos e atacando tanto João quanto Raquel.
Em alguns momentos, conseguiu introduzir temas próprios, como a questão das bets e da tributação. Mas, quando o debate era transformado em duelo direto entre João e Raquel, o socialista conseguia impor uma dinâmica diferente: perguntava, pressionava e deixava a governadora na posição de responder.
A confirmação mais importante veio depois. Horas após o debate, o levantamento Paraná Pesquisas divulgado pelo Diario de Pernambuco tornou-se a sexta pesquisa consecutiva a mostrar João à frente ou numericamente à frente de Raquel.
São 49,1% dos votos válidos para João contra 48,6% para a governadora. No cenário estimulado, 45,3% a 44,8%. Os números configuram empate técnico pela margem de erro de 2,7 pontos, mas o dado político mais relevante está na sequência: seis levantamentos sucessivos registrando a mudança de posição ou uma disputa em equilíbrio na reta final.
É impossível dissociar o debate desse ambiente. João chegou ao estúdio já beneficiado por uma tendência que vinha sendo registrada nas pesquisas. Saiu com a impressão de ter vencido os principais confrontos diretos e, poucas horas depois, recebeu uma nova pesquisa que reforçou a mudança de cenário.
A eleição ainda está aberta e os números não permitem declarar resultado antecipado. Mas a dinâmica mudou profundamente. O que os aliados de Raquel apresentavam como uma eleição resolvida agora precisa ser defendido diariamente. E o debate da Globo mostrou por quê: João conseguiu transformar a noite em uma cobrança sobre o governo que está terminando, venceu os principais embates retóricos com a adversária e deixou Raquel diante de uma pergunta que a campanha terá cada vez menos espaço para evitar: depois de quatro anos no poder, quais são, afinal, as grandes entregas que justificam pedir ao eleitor mais quatro?
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