Por Rinaldo Remígio*
Confesso que, ao tomar conhecimento da violência sofrida pelo meu amigo, o jornalista Magno Martins, fui tomado por um misto de indignação e preocupação. Tenho viajado com certa frequência e não pude deixar de pensar que, a qualquer momento, eu ou qualquer outro cidadão poderemos ser vítimas da mesma violência. Na saída para o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, três garotos de rua quebraram o vidro do táxi em que ele seguia na tentativa de roubar seu telefone celular. Felizmente, não conseguiram consumar o crime. Restaram apenas um pequeno ferimento em sua mão e um grande susto. Mas, convenhamos, há feridas que os olhos não veem e que levam tempo para cicatrizar.
O episódio, infelizmente, está longe de ser um caso isolado. Em muitas cidades brasileiras, a violência já deixou de ser notícia extraordinária para tornar-se parte da rotina. O cidadão de bem sai de casa sem a certeza de que voltará tranquilo. O medo passou a acompanhar quem trabalha, quem estuda, quem viaja e até quem simplesmente aguarda um semáforo abrir.
Leia maisO que mais chama a atenção nesse caso é a idade dos envolvidos. Eram garotos. Jovens que, em vez de estarem na escola, praticando esportes ou construindo um futuro digno, encontram-se, muitas vezes, inseridos em uma realidade marcada pela criminalidade, seja como vítimas das circunstâncias, seja como participantes ativos de ações delituosas.
Diante dessa realidade, é inevitável que ressurja um debate antigo e delicado: estaria o Brasil preparado para rever a forma como responsabiliza adolescentes que praticam crimes graves? Não se trata de uma discussão simples, tampouco de uma resposta única. Há quem defenda a redução da maioridade penal como instrumento de responsabilização mais efetiva. Outros sustentam que a solução passa, prioritariamente, por educação de qualidade, fortalecimento das famílias, oportunidades de inclusão e políticas públicas capazes de afastar crianças e adolescentes da influência do crime organizado.
Talvez o maior erro seja imaginar que apenas uma dessas medidas, isoladamente, resolverá um problema tão complexo. A violência não nasce de um único fator, nem desaparecerá por força de uma única lei. Contudo, fechar os olhos para a realidade também não parece ser o caminho.
O Brasil precisa discutir o tema com serenidade, coragem e responsabilidade. Não por impulso diante de um fato isolado, mas porque os episódios se repetem com frequência inquietante. O sofrimento das vítimas merece respeito. A recuperação dos jovens que ainda podem reconstruir suas vidas também.
A violência que atingiu Magno Martins poderia ter atingido qualquer um de nós. Hoje foi um celular; amanhã pode ser algo muito mais precioso. É exatamente por isso que o debate não deve ser movido pelo desejo de vingança, mas pela busca de soluções que protejam a sociedade e ofereçam perspectivas reais para que menos jovens escolham — ou sejam levados a escolher — o caminho do crime.
Enquanto essa reflexão não se transforma em ações concretas, seguimos convivendo com uma sensação incômoda: a de que, em muitos momentos, a violência chega antes do Estado. E essa talvez seja uma das maiores derrotas de uma sociedade que sonha em ser verdadeiramente justa, segura e humana.
*Professor universitário aposentado
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