Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
No programa “Bom Dia, Ministro”, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), na manhã desta terça-feira (17), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, admitiu um ponto que é hoje uma das maiores dores de cabeça do governo Luiz Inácio Lula da Silva e dos partidos de esquerda: a dificuldade de interlocução com segmentos da sociedade que tiveram rápido crescimento recente no país, mais especialmente os evangélicos.
A última pesquisa Datafolha, por exemplo, aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula na corrida eleitoral, tem 48% dos votos entre os evangélicos contra 21% de Lula. Boulos reconheceu: o governo e a esquerda têm dificuldades nessa aproximação.
Leia mais“Temos que ter a humildade de reconhecer as dificuldades que o campo da esquerda tem para dialogar com alguns segmentos”, disse Boulos. O Correio da Manhã foi um dos veículos convidados para a entrevista, e foi justamente do jornal a pergunta relacionada à dificuldade com o segmento evangélico. Dificuldade que há também, admite Boulos, na relação com os novos modelos de trabalho, como os motoristas de aplicativo.
Tais igrejas pregam o que é conhecido como “teologia da prosperidade”, um caminho a partir do qual, pela fé, é possível obter a recompensa em vida, e não somente após a morte, como prega a religião católica tradicional. Tal linha de pensamento estimularia a vitória mais pessoal, menos coletivista, um modelo que contraria a linha adotada pela esquerda. Com relação aos motoristas de aplicativo e entregadores, diz o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, o governo estaria agora conversando mais para mais bem entendê-los.
Com relação ao segmento evangélico, no entanto, Boulos afirma que “pontes foram rompidas” no relacionamento, e precisariam ser reconstruídas. “Houve um envenenamento do debate, promovido por alguns dos próprios pastores”, afirma o ministro. O desafio, então, do governo e dos partidos de esquerda seria, na sua avaliação, conseguir reconstruir essas pontes.
O discurso contrário vai no sentido de dizer que a esquerda não respeitaria os “valores cristãos”. Boulos questiona: “Quais são os valores cristãos?” Segundo ele, são especialmente os valores ligados à solidariedade. E isso teria relação com as preocupações sociais do governo e dos partidos de esquerda.
O desafio, então, seria levar tal discurso para os “milhões” de evangélicos que, na avaliação de Boulos, teriam seus valores próximos também das mesmas ideias de solidariedade, relacionadas com as preocupações sociais do governo. Um problema, porém, é admitido: com alguns líderes religiosos não há diálogo.
Esse é um grande problema diante da forma como tais comunidades agem e se organizam. Boa parte dessa organização acontece a partir das próprias igrejas e seus mecanismos de socialização. A força dos líderes religiosos é grande. Governo e esquerda terão de encontrar conexão com alguns deles.
Aí, na mesma linha, há uma dificuldade adicional relacionada ao fato de que há um projeto político declarado de parte dessas igrejas neopentecostais. Elas de fato entram no jogo eleitoral, têm partidos e elegem seus próprios representantes rumo a um objetivo. Que tem a ver com um processo conhecido como conquista dos “Sete Montes”.
Também conhecida como “teologia do domínio”, ela parte do princípio de que o cristão teria perdido o “domínio” sobre “sete montes”, que seriam “família, religião, mídia, lazer, negócios e governo”. Para preparar a Terra para o retorno de Jesus Cristo, seria necessário recuperar os tais montes.
Tal teoria foi desenvolvida por um pastor presbiteriano nos Estados Unidos chamado Rousas John Rushdoony a partir da década de 1950. E incorporada pelo partido Republicano nos EUA na década de 1970. Ou seja, são valores que a direita, a partir dos EUA, incorporou. Deixaram de ser valores somente religiosos.
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