Por Osório Borba Neto
Imagine uma cidade em guerra.
Hospitais superlotados. Macas nos corredores. Acompanhantes dormindo em cadeiras. Prédios deteriorados. Água entrando. Sujeira. Improviso. Tetos desabando sobre pacientes.
Uma mulher recém-operada é atingida no leito e precisa voltar para a cirurgia. Em outro hospital, cai o teto do alojamento dos médicos. Em outro, detritos e lama atingem pacientes. Numa maternidade, desaba parte do teto. Até um timbu cai pelo forro e passeia pelo refeitório.
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Poderia ser Gaza. Poderia ser Síria. É Pernambuco! E aqui não caiu bomba nenhuma.
Houve governo. Houve orçamento. Houve dinheiro. Houve tempo.
O G1 já fez a conta: em menos de um ano, cinco desabamentos em hospitais públicos. Cinco. Quando cai uma vez, é acidente. Quando cai cinco, é governo.
E não é só hospital. Em julho, telhas de uma escola estadual caíram sobre alunos e professor.
Em Pernambuco, parece que tudo resolveu obedecer à gravidade.
Cai teto. Cai forro. Cai telha. Cai a qualidade do serviço.
Só não cai a propaganda. Essa está bem sustentada.
Agora aparecem as obras, os tapumes, os anúncios, os milhões, as visitas de capacete e os vídeos dizendo que Pernambuco está mudando.
Ótimo.
Mas existe uma pergunta que nenhum tapume consegue esconder: por que só agora, Raquel?
Ela assumiu em janeiro de 2023. Teve dinheiro, tempo e poder. Recebeu hospitais velhos? Claro que recebeu. Mas ninguém elege governador para explicar problema. Elege para resolver.
Manutenção não dá fotografia. Teto que não cai não rende inauguração. Talvez por isso seja tão fácil esquecer dele.
Até cair na cabeça do povo.
Porque o poderoso vê a propaganda do hospital.
O pobre entra nele.
É sua mãe na maca. Seu filho no corredor. Sua mulher esperando atendimento. É ele quem olha para cima e torce para o teto aguentar.
Daqui a pouco chega a eleição e o governo vai dizer que agora está fazendo.
O povo deveria responder apenas: – E por que não fez antes?
Porque propaganda pode esconder atraso.
Tapume pode esconder parede.
Mas teto caindo não há marqueteiro que esconda.
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