Por João Neto
Minha última coluna, Sergipe 2030, foi sobre o futuro de Sergipe.
Já essa é sobre história sergipana. Porque um povo que não conhece e valoriza seu passado não tem futuro e está condenado a repetir os erros geração após geração!
Escrevi esse texto na esperança que ele ajude a despertar nos sergipanos (e também nos brasileiros) o orgulho de sua terra – um sentimento que eu também tenho.
Leia maisEntrando no assunto propriamente dito, em 15 e 16/8/1942, o submarino nazista U-507 torpedeou e afundou três navios que navegavam na costa sergipana: o Baependi, o Araraquara e o Aníbal Benévolo.
O ataque matou mais de 600 pessoas, incluindo mulheres e crianças.
Não há dúvida de que foram os nazistas os autores, como confirmado pelo diário de bordo do capitão-de-corveta Harro Schacht, cuja cópia foi encontrada após o fim da guerra pelas Forças Aliadas nos arquivos centrais do alto-comando alemão. Cópia porque o original afundou com o submarino em 13/1/1943 na costa do Ceará, alvejado pelo avião militar americano PBY-5 Catalina, afogando o seu capitão e todos os 54 tripulantes.
Os destroços dos três navios jamais foram encontrados, embora tenha havido um recente esforço em 2023 pelo Laboratório de Arqueologia da UFS, conforme mostra o documentário “A Segunda Guerra Submersa”, disponível no Youtube.
À época, o Brasil não estava em guerra com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), mas havia rompido relações diplomáticas com eles desde janeiro de 1942, após o ataque japonês a Pearl Harbor, no arquipélago americano do Havaí, em dezembro de 1941.
Com a reação americana ao ataque japonês e a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, o seu presidente Franklin Roosevelt exigiu do presidente-ditador Brasileiro, Getúlio Vargas, o uso do Norte e Nordeste do Brasil para instalar bases militares e, a partir destas, apoiar o esforço de guerra na África – por ser o ponto das Américas mais próximo do continente africano.
Roosevelt também tinha o receio de que a Alemanha invadisse o Brasil e fizesse dele uma base para toda a América do Sul, considerando que o Brasil tinha muitos membros dos Partidos Nazista (o maior depois da Alemanha, incrivelmente) e Fascista, além de muitos simpatizantes dentro do Governo Getúlio Vargas, inclusive no Alto Comando Militar.
Uma prova inconteste dessa influência nazifascista no Brasil é que centenas de brasileiros foram lutar na Europa do lado da Alemanha e Itália antes de o Brasil entrar na guerra, a maioria filhos de imigrantes, sendo o mais famoso deles Egon Albrecht, nascido em Curitiba, que lutou como piloto da Luftwaffe (a Força Aérea Alemã). Este inclusive foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro, uma das mais altas honrarias militares nazistas. Morreu em combate em agosto de 1944 na França.
Foi preparado até um plano americano para invadir o Nordeste caso Getúlio Vargas não aceitasse as bases na região: o Plan Rubber (Plano Borracha).
Getúlio vinha tentando desde 1939 não entrar no conflito e vinha tendo sucesso nisso, como tiveram os Ditadores de Portugal e da Espanha, respectivamente Salazar e Franco.
Após Pearl Harbor, porém, não deu mais.
Getúlio Vargas então negociou com Roosevelt a criação da primeira siderúrgica do Brasil (a CSN) e autorizou as bases.
Dessa forma, foram instaladas bases militares norte-americanas em Natal, Recife, Fernando de Noronha, Salvador, Fortaleza, São Luís, Belém, Amapá, e pontos de apoio em Maceió e no Rio de Janeiro.
A de Natal foi a maior base americana fora dos EUA durante a guerra, conhecida como “Trampolim da Vitória”, e chegou a abrigar mais de 10 mil militares americanos.
Hitler e Mussolini, enfurecidos, deram ordens para afundar navios mercantes brasileiros que levavam matéria prima para os EUA e para a Europa (foram 15 navios afundados até agosto de 1942), mas, mesmo assim, Getúlio Vargas não declarou guerra.
Então Hitler planejou dar um susto nos brasileiros para levar o povo a pressionar Getúlio a não se aliar aos EUA ou apenas como retaliação (não se tem certeza).
Por que o ataque em Sergipe?
Porque era o local mais desprotegido da costa nordestina, e bastante movimentado, com muitos alvos possíveis. Devido às bases americanas supracitadas, um submarino alemão poderia ser localizado e afundado antes de qualquer ação em outras regiões (como o U-507 foi poucos meses depois).
Veio, então, o terror: nos três ataques na costa sergipana, só 51 pessoas sobreviveram.
A reação do povo sergipano foi, primeiro, resgatar os sobreviventes e cuidar deles nos hospitais de Estância (Amparo de Maria) e Aracaju (Cirurgia), além de recolher e enterrar dignamente os mortos (no cemitério dos Náufragos, em Aracaju).
Para isso, envolveu-se a população civil: pilotos do Aeroclube de Sergipe, médicos, enfermeiros, pescadores, empresários – como Júlio César Leite, de Estância, que mandou sua maior lancha ao local para resgatar sobreviventes – e até populares, como o então adolescente Zé Peixe, com 15 anos à época.
As imagens dos corpos foram divulgadas por muitos jornais e revistas brasileiros e comoveram o país, mesmo com a censura existente na época.
Quando as vi, para escrever este texto, chorei. São muito fortes.
O Governador de Sergipe de então, o Interventor Coronel Augusto Maynard – líder de revolta tenentista de 1924 – exerceu o papel de conter a revolta popular.
As massas, lideradas por estudantes, foram para as ruas em transe coletivo exigindo a entrada do Brasil na guerra e a punição aos nazistas. Invadiram lojas e casas de alemães, italianos e japoneses, suspeitos de serem espiões. Também membros do partido Integralista, de orientação fascista, foram perseguidos nas ruas.
Inspirados pela reação altiva sergipana, em Salvador – de onde era originária parte das vítimas – aconteceram manifestações semelhantes. Até porque o submarino U-507, em 17/8/1942, afundou também três embarcações na costa baiana, o Itagiba, o Arará e a barcaça Jacyra, matando mais 56 pessoas.
Em seguida os protestos se espalharam pelo Brasil: São Paulo, Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro
Foram as maiores manifestações populares da história do país até então.
Getúlio Vargas, temendo uma crise interna sem precedentes caso não desse uma resposta à altura, declarou a guerra à Alemanha e seus aliados no dia 31 de agosto, na forma do Decreto-lei 10.358.
O tiro de Hitler saiu pela culatra, pois a reação do bravo povo sergipano foi de ir à luta, sem medo, inspirando o restante do país!
Até o fim da guerra, Aracaju viveu como uma cidade sitiada, com toque de recolher noturno, todas as luzes apagadas à noite (para não dar pistas para novos ataques) e racionamento de comida e combustí
A FEB (Força Expedicionária Brasileira) foi formada, mas demorou dois anos para enviar soldados para a Europa – tanto que o povo começou a dizer “É mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil ir para a guerra”. A FEB então adotou como símbolo uma cobra fumando e chegou na Europa em julho de 1944.
Isso teve uma razão: primeiro as Forças Armadas do Brasil trataram de proteger o litoral brasileiro, com a ajuda os norte-americanos, para não sofrer mais ataques. Até o fim de 1943, os submarinos alemães e italianos que aterrorizavam nosso litoral foram dizimados, sendo afundados doze deles.
Iniciada a atuação na Europa, quase 26 mil soldados (pracinhas) brasileiros foram lutar no continente, dentre os quais 300 sergipanos. Destes 300, destacaram-se quatro grandes heróis:
1 – Sargento Zacarias Izidoro: recebeu a Silver Star, medalha do governo americano, por bravura em combate, além da Medalha Sangue do Brasil;
2 – General Walter Paes: na época Capitão, foi essencial na vitória do Monte Castelo e depois autor do clássico militar A Lenda Azul, uma das principais fontes sobre a atuação da FEB na Segunda Guerra;
3 – O tenente Aviador Aurélio Sampaio: morto em combate na Itália em 22/1/1945, aos 21 anos, na sua 16ª missão, condecorado com a Cruz de Bravura;
4 – O Jornalista Joel Silveira: correspondente de guerra que ia para a linha de tiro, correndo risco de vida com grande coragem, e que foi homenageado ao dar nome à ponte do Mosqueiro, em Aracaju;
Destaque: só o Brasil enviou homens para lutar na Segunda Guerra na Europa em toda a América Latina!
E a FEB atuou em várias vitórias decisivas, como nas batalhas de Monte Castelo, de Montese e de Fornovo di Taro. Perdeu 451 homens, abateu mais de 1500 inimigos e fez 20 mil prisioneiros de guerra!
Na Praça dos Expedicionários, no bairro Getúlio Vargas, em Aracaju, existe um memorial com os nomes dos 300 combatentes sergipanos.
Para quem não sabe, o Brasil é considerado estratégico e decisivo para a vitória Aliada na Segunda Guerra Mundial, não só pela atuação da FEB na Europa, mas também pelas bases militares americanas supracitadas no país e pelo fornecimento de matérias primas críticas aos Aliados (borracha, ferro, manganês, quartzo e bauxita, entre outras) pela nossa Marinha Mercante.
O que me intriga é:
Como uma história dessas ainda não virou filme, série, novela, romance de grande sucesso, enquanto o ataque de Pearl Harbor, nos EUA, já rendeu dezenas de produções?
Em outubro de 2025, saiu na imprensa sergipana a notícia de que o filme Corações Naufragados, sobre os fatos acima relatados, iria estrear, com grande elenco, como o ator Dalton Vigh, Daniel de Oliveira, Olívia Torres e outros, dentre os quais 40 atores sergipanos. A previsão é que isso ocorra até o fim de 2026.
Também li há pouco tempo que o Governo do Estado vai construir o Museu dos Náufragos, com projeto do Arquiteto Ézio Déda, em local a ser definido, provavelmente na Orla de Aracaju. Data de início e conclusão, não consegui apurar.
Espero que esses dois projetos se tornem realidade e essa memória única no Brasil seja resgatada!
Vou além: na minha modesta visão, essa história merece um Parque temático com réplicas reais dos navios afundados, do submarino atacante, um memorial com as fotos de todos os mortos e todos os sergipanos que participaram do resgate dos sobreviventes e enterro dos mortos, os nomes dos líderes das manifestações populares que tomaram as ruas, os nomes dos estrangeiros que tiveram suas casas e lojas atacadas (muitos dos quais foram presos e posteriormente inocentados), entre outras informações.
Por que não?
Em Santa Catarina, em julho deste ano foi aberto o Bravura Park, maior parque temático militar da América Latina, com investimento estimado em 100 milhões de reais.
Concluindo, nós, sergipanos, devemos ter orgulho de nosso passado de gente valente, que se manifestou não só nestes episódios relatados, mas em muitos outros ao longo da nossa história: na Revolta tenentista de 1924, na Revolta de Fausto Cardoso em 1906, na Guerra de Canudos em 1896-1897, nas Guerras de independência do Brasil entre 1822-1824, na Guerra Cisplatina entre 1825 e 1828 (ao redor de 600 sergipanos foram lá lutar), no apoio ao Império Brasileiro durante as Revoltas de 1817 e 1824 em Pernambuco, na Revolta de Santo Amaro em 1836, na Guerra do Paraguai (com o envio de quase três mil sergipanos entre 1865-1870), na luta contra o Cangaço na década de 1930 e a consequente morte de Lampião e Maria Bonita em 1938 em Sergipe, entre tantas outras ocasiões.
E devemos também usar esse passado para incrementar o turismo, pois Aracaju viveu a tragédia da Segunda Guerra como nenhuma outra cidade brasileira.
E como sergipano, pesquisando o tema, aumentou também meu orgulho de ser brasileiro, pois talvez sem o Brasil juntos aos Aliados o desfecho da guerra poderia ser diferente, como expliquei acima.
Somos valentes! Saibamos também usar nossa história com sabedoria!
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