Por Letícia Lins – Oxe Recife
Houve um tempo em que nós, jornalistas, não podíamos sequer citar o nome Dom Helder Câmara (1909-1999), então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, onde ficou entre 1964 e 1985, período em que ajudou a criar comunidades eclesiais de base e disseminou a Teologia da Libertação. Eram tempos sombrios, da ditadura militar quando inimigos do regime eram sequestrados, torturados e assassinados nas masmorras dos órgãos de repressão. Mas esses tempos passaram, e o religioso vem inspirando roteiro turístico e espetáculo sobre sua trajetória. O segundo entre os dias 19 e 22 de agosto, na Igreja das Fronteiras. Serão várias sessões por dia, cada uma com cerca de 20 minutos.
Para os que não lembram, o religioso era uma das vozes mais poderosas em defesa dos direitos humanos e como era impedido de falar no Brasil, denunciava a situação no resto do mundo. Ficou conhecido como o “bispo vermelho” e sofria tantas perseguições políticas, que a casa onde residia (na Rua das Fronteiras) e o Juvenato Dom Vital (onde costumava trabalhar) chegaram a ser metralhados. No Juvenato, no bairro da Boa Vista, ficava a sede da Comissão de Justiça e Paz, instituição ligada à Igreja Católica que denunciava a violência do regime, defendia presos políticos, religiosos perseguidos e os interesses dos excluídos.
Leia maisA perseguição era tão grande que para intimidar o Dom da Paz – como ele ainda hoje é chamado – que um dos principais auxiliares do arcebispo e a ele mais chegado, o Padre Henrique Pereira Neto, foi sequestrado no dia 26 de maio de 1969, torturado e deixado morto em um terreno baldio do Recife no dia seguinte. Os seus assassinos só viriam ser identificados anos depois, já no século 21, durante audiências da Comissão da Memória e da Verdade em Pernambuco.
Amordaçado, o Dom continuou no seu silêncio, escrevendo, produzindo, orientando o seu rebanho. Chegou a ter seu nome lembrado para ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Pois ultimamente o Dom, que está em processo de canonização no Vaticano, em fase de análise pelo Dicastério para as Causas dos Santos, tem sido constantemente tema de roteiros turísticos, incluindo no Olha! Recife, projeto de sensibilização turística da Prefeitura do Recife. Quando em vida, lembro-me que alguns estrangeiros – editores, livreiros, intelectuais- que vinham ao Recife nem faziam questão de ver a cidade. Queriam, mesmo, era ter um encontro com o Dom. Sei disso porque, algumas vezes, quando recebia gente de fora, tentei intermediar pelo menos uns três encontros com seus auxiliares, todos efetivados. Felizmente.
Agora, prestem atenção: a Prefeitura do Recife (por meio da Secretaria de Turismo e Lazer) e o Instituto Dom Helder Câmara promovem, entre os dias 19 e 22 de agosto, a Experiência Imersiva Dom Hélder Câmara, iniciativa que convida moradores e visitantes a vivenciarem a trajetória de um dos maiores símbolos da paz, da justiça social e dos direitos humanos no Brasil. As apresentações acontecerão das 19h às 21h, com intervalos de 25 minutos, na Igreja de Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras, no bairro da Boa Vista. Durante a experiência, o interior do templo será transformado em um ambiente de contemplação e memória por meio da integração entre projeção mapeada (mapping), trilha sonora original, locução, fotografias históricas, animações, arte sacra e iluminação cênica. Ao longo da narrativa audiovisual, frases marcantes de Dom Hélder serão projetadas sobre a arquitetura da igreja, reforçando valores como paz, fraternidade, esperança, solidariedade e justiça social.
“Realizado em um dos mais importantes espaços de memória da cidade, onde Dom Hélder Câmara escolheu viver seus últimos anos de vida, o projeto utiliza recursos tecnológicos para proporcionar uma experiência sensorial que aproxima o público de sua história, espiritualidade e legado humanitário”, informa a Secretaria de Turismo. Atualmente, a igreja abriga o Memorial Dom Hélder Câmara, que reúne objetos pessoais, documentos, fotografias e registros históricos do religioso.
“Recife tem uma história muito rica, que precisa ser cada vez mais conhecida e vivenciada por moradores e visitantes. Ao unir tecnologia, memória e patrimônio, essa experiência permite que o público se aproxime do legado de Dom Hélder de uma maneira sensível e inovadora. É também uma forma de fortalecer o turismo religioso e valorizar espaços históricos que fazem parte da identidade da nossa cidade”, destaca o secretário de Turismo e Lazer do Recife, Felipe Porto.
“Além de valorizar o patrimônio histórico, cultural e religioso do Recife, a iniciativa fortalece o turismo religioso e cultural, segmento em expansão no país, incentivando a visitação ao Memorial Dom Hélder Câmara e contribuindo para ampliar a circulação de visitantes no Centro Histórico, especialmente no período noturno. O projeto também impulsiona a economia criativa e o setor de serviços ligados ao turismo, ao mesmo tempo em que promove a preservação da memória e da identidade cultural recifense”, destaca a PCR.
Importante: Toda a estrutura tecnológica foi desenvolvida respeitando as características arquitetônicas da Igreja das Fronteiras. Os equipamentos serão instalados de forma não invasiva, sem qualquer intervenção permanente no monumento histórico, garantindo a preservação do patrimônio enquanto oferece ao público uma experiência inovadora. Nos links abaixo, mais informações sobre o Dom da Paz.
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