Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Em 1989, o deputado Ulysses Guimarães disputou a Presidência da República depois de ter sido maestro da redemocratização, presidindo seu partido, o PMDB, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Nacional Constituinte. Ele vinha da resistência à ditadura, da campanha pela anistia e pela “Diretas Já”. Mas naquela eleição, o velho timoneiro acabou com 4,43% dos votos, amargando um 5º lugar no 1º turno.
Tinha 73 anos, menos que os atuais 80 anos de Lula ou os 76 anos de Ronaldo Caiado. Era muito conhecido Brasil afora, mas a sociedade queria mudança de rumo radical, algo novo. Foi assim que Fernando Collor, então governador de Alagoas, começou a se tornar o queridinho daquele momento histórico: a 1ª eleição desde 1960.
Leia maisCollor foi um deputado do baixo clero, um playboy de Brasília, rico e dono de jornal e emissora de TV em Alagoas. Antes de chegar à Câmara, foi prefeito de Maceió. Em 1986, se elegeu governador, investiu numa campanha nacional e logo ficou conhecido como o Caçador de Marajás batendo nos supersalários de funcionários públicos. Com 40 anos, foi eleito presidente da República. O resto da história conhecemos bem.
Collor mostrou ser possível sair de um Estado pequeno para o Palácio do Planalto investindo em comunicação, se fazendo conhecido na mídia e caindo na boca do povo. Esta eleição de 2026 polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro poderia ter sido diferente se Ronaldo Caiado e Romeu Zema tivessem saído da toca já em 2023, investindo pesado em comunicação e viagens Brasil afora.
Ambos tinham sido reeleitos no 1º turno e estavam super-bem na foto. O eleitor deu a eles régua e compasso e muito o que mostrar. Tanto Caiado quanto Zema já haviam decidido concorrer a presidente depois de reeleitos. Só não tratavam disso publicamente para não queimar o filme. Poderiam ter usado aqueles três anos para percorrer sistematicamente o Brasil, construir relações políticas e empresariais, aproximarem-se de lideranças regionais e, principalmente, apresentarem seus modelos de governo a eleitores que pouco sabiam sobre Goiás ou Minas Gerais. Mas preferiram não apostar numa estratégia viável mirando o eleitorado nacional.
Deveriam ter rodado o Brasil como fez Bolsonaro a partir de 2015, trabalhando o interior, onde estão concentrados 75% dos votos, contra 25% nas capitais, de acordo com o TSE. Ficaram em casa, perderam o timing e estão pagando caro por isso, encalhados em 5%, 4% ou qualquer coisa abaixo de 10%, conforme as pesquisas. Se engana quem imagina que eleição se vence com rede social. O efeito de uma agenda presencial é enorme, porque o eleitor passa a ver o candidato como ele é, pode apertar sua mão, notar quem está ao seu lado e ouvir sua voz. É o político real.
Zema fez algumas poucas viagens para além das alterosas, todas insuficientes para torná-lo conhecido e desejado como candidato para os milhões de brasileiros que vivem fora de Minas. No caso de Caiado, reportagem de janeiro de 2025 do Jornal Opção, de Goiás, informou que o então governador preparava uma agenda de viagens pelo país. Ou seja: a menos de 2 anos da eleição, a imprensa goiana mostrava que a agenda nacional ainda não tinha saído do papel para um candidato com o diferencial da capilaridade do agro.
Aí a conta começou a chegar e a incomodar. Em novembro de 2025, levantamento da Quaest indicava que 49% dos brasileiros não conheciam Romeu Zema, que na mesma pesquisa registrava só 6% das intenções de voto. Caiado enfrentava problema semelhante: era desconhecido por 51% e tinha 5% das preferências. Meses depois, piorou. O Datafolha de abril de 2026 mostrava 56% dizendo não conhecer Zema e 54% desconheciam Caiado. Estavam estacionados na casa dos 5% a 7% das intenções de voto. E lá ficaram.
Ou seja: em 2025, a menos de 1 ano da eleição, continuavam sendo políticos regionais. Caiado e Zema precisavam, portanto, realizar duas operações simultâneas: ter identidade própria e candidatura conhecida nos 4 cantos do Brasil. Não bastava dizer que Goiás tinha melhorado ou que Minas colocara salários em dia. Era necessário explicar ao Brasil que pretendiam governar e conquistar o maior número possível de corações e mentes.
O problema é que nenhum deles deu solução para isso. Caiado ensaiou um discurso de gestão técnica e segurança pública, flertando com uma direita pragmática, mas sem romper claramente com o bolsonarismo. Zema, por sua vez, tentou se posicionar como alternativa liberal e modernizadora, mas oscilou entre críticas veladas ao ex-presidente e gestos de aproximação ao seu eleitorado.
A falta de uma boa estratégia custou caro, porque não conquistaram e muito menos ocuparam territórios políticos além das suas fronteiras. Viajar pelo Brasil não assegura votos, mas ajuda muito a construir empatia e familiaridade. O candidato passa a fazer parte da vida das pessoas, mesmo aquelas que poderiam não votar nele.
Os mais velhos lembram das famosas caravanas de Lula pelo Brasil nas eleições de 1994, 1998 e 2002. Ele chegou a cruzar o rio São Francisco de barco, perambulou pelo sertão, foi à Amazônia, ao Vale do Jequitinhonha, debateu com as comunidades do Rio, com os gaúchos, rodou tudo o que poderia rodar. Quando ganhou em 2002, sem rede social, sem caneta e diário oficial, era personagem do imaginário popular.
Boas intenções e trajetória de vida limpa não ganham eleição. Doutor Ulysses é o maior exemplo, como já vimos. O Brasil tem calendário eleitoral curto. Portanto, quem não começa a trabalhar cedo acaba comendo poeira. Especialmente num pleito em que os 2 principais concorrentes são um presidente sentado na cadeira e o herdeiro político de um ex-presidente vitimizado pela prisão, pelo isolamento e pela saúde precária.
Faltando 36 dias para a eleição, Zema e Caiado continuam mais desconhecidos que conhecidos. Perderam a oportunidade. Deixaram Kairós passar, como diziam os gregos. Era o deus da oportunidade. Tinha longos cabelos escorrendo pela testa e uma reluzente careca atrás da cabeça. Caiado e Zema não agarraram Kairós pelos cabelos e ele se foi.
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