Por Rogério Carvalho*
O falecimento de Diógenes Brayner é mais que uma grande perda para o jornalismo sergipano. É, de certa forma, o símbolo de uma passagem de tempo: a despedida de uma geração que fez da reportagem um ofício de presença, paciência e escuta, em contraste com um presente cada vez mais apressado, barulhento e condicionado por métricas e pela disputa permanente por atenção, ainda que efêmera e fluida.
Os últimos anos têm sido particularmente cruéis com a imprensa sergipana. Nomes como Clara Angélica, Ivan Valença, Yara Belchior, Euler Ferreira e Eugênio Nascimento deixaram vazios que dificilmente serão preenchidos.
Leia maisCada um, à sua maneira, ajudou a formar uma memória profissional e afetiva do jornalismo local. A morte de Brayner, portanto, não chega isolada: ela se soma a uma sequência de perdas que nos dá a impressão de estarmos assistindo ao fechamento de uma redação inteira, não apenas à partida de indivíduos.
Brayner pertencia a uma cepa de profissionais que o mundo e o tempo tornaram mais raros. Mais que jornalista, era também um ator político: alguém que compreendia os movimentos do poder, acompanhava seus personagens, percebia seus silêncios e sabia que, muitas vezes, uma notícia nasce antes de ser anunciada. Durante décadas, sua Coluna Plenário foi referência para quem queria entender não apenas o que havia acontecido, mas o que poderia estar por trás dos acontecimentos.
Brayner tinha perfeita consciência do impacto que exercia na política sergipana. Nesse aspecto, lembrava nomes de outra tradição do jornalismo brasileiro, como Carlos Lacerda, Assis Chateaubriand e Hélio Fernandes: profissionais que não apenas narravam a política, mas interferiam no modo como ela era lida, discutida e, em alguma medida, praticada. Evidentemente, cada um com suas contradições e circunstâncias, mas todos pertencentes a um tempo em que a imprensa tinha menos ferramentas tecnológicas e, paradoxalmente, talvez mais centralidade no debate público.
Brayner representava um modelo de jornalismo que dependia menos da autopromoção e mais da credibilidade acumulada. A autoridade não vinha do número de seguidores, mas da confiança construída ao longo dos anos. Não era uma confiança abstrata: era resultado de convivência, memória, acertos, erros, correções e, principalmente, de uma relação quase artesanal com a notícia e as fontes.
Isso acontecia porque, antes de mais nada, Brayner era repórter – a condição mais nobre no jornalismo. E um grande repórter. Talvez por isso cultivasse profundo respeito pelas fontes. Ia atrás da notícia, mas era ainda mais cuidadoso na verificação de sua veracidade, na rigidez da apuração.
Hoje, temos a sensação de que o jornalismo é cada vez mais condicionado por uma lógica que nem sempre nasceu dentro das redações. O que antes era medido pela relevância pública, pela consistência da apuração e pela capacidade de iluminar temas complexos passou a disputar espaço com indicadores como engajamento, alcance, retenção e viabilidade comercial. O tal do algoritmo.
Não há, nisso, necessariamente uma condenação. Os tempos mudam, as linguagens mudam, as plataformas mudam. Há influenciadores responsáveis, há jornalistas que aprenderam a dialogar com as novas ferramentas e há públicos que encontraram nas redes sociais formas legítimas de expressão e participação. O problema aparece quando a lógica da atenção passa a ocupar o lugar da lógica da informação; quando o impacto imediato vale mais que a precisão; quando parecer o primeiro se torna mais importante do que informar corretamente.
É nesse contraste que a figura de Brayner ganha ainda mais significado. Ele vinha de um tempo em que a notícia exigia deslocamento, conversas reservadas, telefonemas insistentes, leitura de ambiente e, muitas vezes, silêncios. Um tempo em que a fonte era cultivada, não explorada; em que a informação precisava amadurecer antes de virar manchete; em que o jornalista era cobrado por sua palavra, não apenas por sua performance.
Talvez por isso sua partida pareça dizer mais do que a biografia de um profissional. Ela nos obriga a perguntar o que estamos perdendo junto com esses nomes. Perdemos repertório, memória, experiência, mas também uma certa forma de estar no mundo: menos ansiosa, menos refém da aprovação instantânea, mais comprometida com a densidade dos fatos.
Brayner, com seu faro aguçado de repórter e seu respeito absoluto às fontes, provavelmente percebeu essas transformações antes de muitos de nós. Talvez tenha visto, com lucidez, que o jornalismo que ele ajudou a construir já não ocupava o mesmo lugar. Talvez tenha compreendido que nenhuma geração permanece indefinidamente no centro da cena. E talvez tenha aceitado, como poucos conseguem aceitar, que chega um momento em todas as redações em que é preciso fechar a edição do dia.
Mas fechar a edição não significa encerrar a história. O legado de Diógenes Brayner permanece justamente naquilo que o jornalismo não pode abandonar, mesmo quando muda de suporte, ritmo e linguagem: a apuração rigorosa, a independência, a responsabilidade com a palavra e a consciência de que informar é também servir à vida pública.
Para pessoas como eu, Marcelo Déda, José Eduardo Dutra e tantos outros companheiros que aprenderam a lidar com a política a partir da militância nos movimentos sociais e fizeram disso uma missão e razão de vida, jornalistas como Brayner tiveram papel decisivo. Eram interlocutores, críticos, observadores atentos e, muitas vezes, testemunhas privilegiadas de uma geração que levou para as instituições as inquietações nascidas nas ruas, nos sindicatos, nas pastorais, nos grêmios, nos DCEs e nos partidos.
Entre a militância e o exercício do poder, havia sempre a necessidade de alguém capaz de registrar, questionar e interpretar esse percurso. Diógenes Brayner foi um desses nomes: acompanhando a política sergipana, ajudou a dar sentido público às trajetórias de quem fez dela uma extensão do seu compromisso ético e social.
*Médico e senador da República
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