Por Letícia Lins – Oxe Recife
“O Nordeste é o câncer do Brasil!”. Foi assim, vociferando, que um aliado do Flávio Bolsonaro (PL) – candidato derrotado à presidência da República – se referiu, ao deixar a casa onde o senador acompanhava o desenrolar da apuração e os números divulgados a cada minuto pelo TSE, em Brasília. Com a vitória matematicamente comprovada de Lula, o clima de festa acabou, o barulho cedeu lugar ao silêncio e os apoiadores do Zero1 devem ter procurado um culpado para justificar o resultado, como fez o desconhecido visitante.
Sobrou para quem? Para a nossa região, claro. Mas isso muito alivia o ego dos nordestinos que, como eu, alimentam orgulho de ter nascido nessa terra quente, cheia de calor humano e de muita responsabilidade histórica ao longo dos séculos, quando o assunto são as lutas do seu povo por democracia e liberdade. A julgar pelo desabafo xenófobo comum aos bolsonazifascistas de plantão, o Nordeste seria muito discriminado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, já que vários dos seus aliados costumam se referir à região com desprezo, como se ela fosse um tumor no emaranhado e político e geográfico brasileiro.
No Brasil, Lula ganhou a eleição com 51 por cento dos votos válidos (64.256.232) contra 48,21 por cento de Flávio Bolsonaro (59.826.041). Mas é no Nordeste que a situação se inverte. Lula teve 69,37 por cento dos votos (24.450.432 votos) contra 30,63 por cento de Flávio (10.796.736). Ou seja, no “câncer do Brasil”, Lula teve mais do dobro dos votos do adversário. Pior para este.
Leia maisNo Nordeste, os percentuais de votação para Lula variaram de 75,88 por cento (Piauí) a 60,77 por cento (Alagoas). Nos outros estados, o desempenho de Lula foi assim: Bahia (71,31 por cento), Maranhão (69,54 por cento), Sergipe (69,53 por cento), Pernambuco (69,20 por cento), Ceará (68,93 por cento), Rio Grade do Norte (65,72 por cento). Enfim, no Brasil, só para reforçar, Lula teve 51 por cento contra 48,21 por cento de Flávio. Mas no Nordeste, o pernambucano ganhou 69,3 por cento contra 30,63 por cento do candidato do PL.
Foi um pleito histórica, a primeira virada em eleição presidencial com resultado diferente do primeiro turno, no qual Flávio teve maior votação. Lula, o primeiro operário a chegar na Presidência é, também, o primeiro a ocupar por quatro vezes e pelo voto direto a cadeira de Presidente da República, desde a redemocratização. Em 2002, acompanhei a primeira eleição de presidente de Lula. Como repórter, estive na cobertura em cidades do Nordeste por onde andou. Depois, cobri a posse em Brasília e viajei de Caetés (no Agreste de Pernambuco) em um ônibus velho e desconfortável, acompanhando seus parentes (primos) que enfrentaram a estrada para participar da posse. Foram 1.905 quilômetros de estrada.
Lembro que, pequenos produtores rurais, eles se queixavam dos preços de lanches como coxinhas de galinha e pratos feitos. E que, em Brasília, não tinham roupa formal para participar da posse. Um dos primos de Lula ganhou um terno de última hora, enquanto os demais assistiram a cerimônia à distância. Foi uma emoção grande, pela derrubada do tabu histórico na até então elitista política do país.
Nas outras posses, não me animei para viajar, porque já não eram feitos inéditos, e não tinham o mesmo simbolismo da primeira vez em que o operário, migrante e sindicalista chegara à presidência. Pois bem, no domingo, confesso que a emoção foi a mesma de 24 anos atrás. Tudo por conta da virada histórica, da gigantesca mobilização popular nas ruas, em defesa da democracia, da soberania, da manutenção do estado de direito, do respeito às instituições republicanas. Todos nós lembramos como estivemos tão perto de uma ruptura na nossa democracia, durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, da extrema direita e golpista profissional.
Derrotado, Flávio Bolsonaro – tanto quanto o pai – não teve nobreza de reconhecer a vitória do adversário. Uma marca da família: a prepotência. Enquanto o pai é acusado de ter patrocinado a invasão às sedes dos três poderes e ter tentado um golpe para se perpetuar no poder, o Zero1 disse que foi vítima de uma “sacanagem”. E inventou mais uma mentira, para culpar o TSE pela própria derrota. Outra daquelas que marcaram toda a sua campanha eleitoral. Foi desmentido pelo TSE, mas antecipou que vai pedir na justiça a anulação da eleição. O que pode deixá-lo ainda mais desmoralizado, perante a opinião pública.
Bem mais realista e civilizado foi seu aliado, Ronaldo Caiado, que reconheceu a derrota do candidato publicamente. A essas alturas, a familícia deve estar se mordendo, espumando, destilando fogo e ódio pelas narinas, como é comum ao pai e filhos. Sim, para alguns, a democracia é realmente muito dolorosa. Para os brasileiros, um patrimônio conquistado a duras penas durante a ditadura, e que vem sendo preservado pelo voto e pelo funcionamento das instituições republicanas. Em 2026, a população percebeu o risco e mobilização popular explodiu nas ruas. E o Nordeste foi protagonista nesta luta. Ampliando o alcance da frase de Euclides da Cunha, segundo a qual o o sertanejo é antes de tudo um forte, eu diria que o nordestino é forte, guerreiro. Bonito demais, orgulho demais.
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