A Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos, aprovou relatório concluindo que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar, de acordo com o teor antecipado por reportagem da Folha de 7 de maio.
Segundo nota publicada pelo MPF (Ministério Público Federal), o relatório da historiadora Maria Cecília Adão aprovado pela CEMDP afirma que JK “foi morto pela ditadura em 1976, contestando a conclusão da época de que ele teria sido vítima de um acidente automobilístico”. As informações são da Folha de S. Paulo.
Leia maisO relatório foi aprovado na manhã desta sexta (29), com 6 votos a favor e uma abstenção. A comissão conclui que a batida de um ônibus na traseira do veículo jamais ocorreu —essa foi a conclusão da época, repetida depois pela Comissão Nacional da Verdade.
O apontamento da CEMDP se dá no ano em que se completam 50 anos da morte de JK. Pelo relatório aprovado, a certidão de óbito do ex-presidente deverá ser modificada, com base em resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), para que conste como causa da morte: “Não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”.
O reexame do caso pela comissão não incluiu novas investigações, mas compila os trabalhos pregressos –com ênfase no mais recente, do MPF, feito de 2013 a 2019 e divulgado em 2021. O inquérito descartou que tenha havido choque entre o ônibus e o Opala, mas concluiu ser “impossível afirmar ou descartar” a hipótese de atentado, “vez que não há elementos materiais suficientes para apontar a causa do acidente ou que expliquem a perda do controle do automóvel”.
A relatora da comissão, no entanto, apresentou arcabouço jurídico para sustentar a tese de responsabilidade do Estado calcada na teoria do “in dubio pro victima” (na dúvida, a favor da vítima), defendida por juristas como Gilberto Bercovici (professor titular de direito da USP) e o argentino Luis Moreno Ocampo (ex-procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional).
A finalidade da CEMDP é reconhecer pessoas mortas ou desaparecidas em razão de atividades políticas de 1961 a 1988, buscar localizar seus corpos e emitir pareceres sobre os requerimentos feitos por seus familiares.
Revelada no ano passado pela Folha, a decisão de reexaminar o caso da morte de JK, com o argumento de esclarecimento da verdade histórica, manteve acesa uma novela que mobiliza versões e inflama correntes políticas desde que o ex-presidente morreu, em 22 de agosto de 1976.
Naquele domingo, o Opala em que estava o político mineiro, conduzido por seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro, foi atingido por uma carreta na via Dutra. Desgovernado, o veículo atravessou o canteiro central e invadiu a pista oposta, sendo destruído pela colisão. Ribeiro também morreu no desastre.
Diversas investigações buscaram elucidar por que o motorista perdeu o controle do Opala. As conduzidas pela ditadura concluíram que logo antes da batida o carro foi atingido por um ônibus da viação Cometa ao tentar ultrapassá-lo. Foi o mesmo veredito de uma comissão externa da Câmara dos Deputados em 2001 e da Comissão da Verdade em 2014. Por essa versão, tratou-se de um acidente.
Outras apurações concluíram que JK foi, na verdade, vítima de um atentado político, reunindo indícios de que não houve batida entre o Opala e o ônibus e de que o carro se desgovernou por alguma ação externa —sabotagem mecânica ou mesmo um tiro ou envenenamento do motorista.
Essa foi a conclusão das Comissões Estaduais da Verdade de São Paulo —amparada por um grupo de trabalho com pesquisadores das universidades USP e Mackenzie— e de Minas Gerais e da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo.
Entre os elementos reunidos pela investigação coordenada por Maria Cecília Adão estão relatos de ameaças dirigidas a JK, referências à Operação Condor e à chamada Operação Código 12 — descrita como um mecanismo para camuflar atentados políticos sob a aparência de acidentes —, além de uma suposta tentativa de atropelamento sofrida pelo ex-presidente no Rio de Janeiro.
O documento afirma que JK foi alertado sobre riscos à sua vida. Destaca que, duas semanas antes de sua morte, já teria circulado a informação de que o ex-presidente havia sido morto na mesma rodovia onde o fato ocorreu.
A investigação identificou 37 indícios de fraude na apuração oficial, incluindo a ausência de exames toxicológicos em JK e em Geraldo Ribeiro, e a retirada de fotografias dos autos por serem consideradas “muito chocantes”. Por fim, recomenda um pedido de desculpas a Josias Nunes de Oliveira, motorista do ônibus envolvido na versão oficial, injustamente responsabilizado pelo episódio e, segundo o relatório, alvo de uma tentativa de suborno para assumir a culpa pela colisão.
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