Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
A grande novidade desta eleição foi a renovação. Gente jovem governando Estados, outros chegando ao Congresso, alguns voltando ou mudando de casa, como Marcel van Hattem, que trocou a Câmara pelo Senado. Teremos a esquerda mínima, com 123 deputados, e a direita máxima a mandar em ambas as Casas.
O espírito da alternância de poder veio forte e não parou no 2º turno. Algumas empresas de pesquisa, especialmente o popular Datafolha, saíram mais uma vez com a credibilidade aos pandarecos. Em 3 de outubro, cravou Lula com 45% e Flávio com 42%. O resultado foi inverso. Flávio terminando com 47,3% e Lula 45,16%. O Datafolha acertou o percentual de Lula, mas passou longe do de Flávio.
Leia maisLula pode virar o jogo? Pode, mas será difícil. A pesquisa AtlasIntel indicou o tamanho da dificuldade ao mostrar Flávio e Lula empatados no quesito mais preparado para administrar o país. O eleitor considera Flávio mais competente para lidar com a criminalidade, a economia e a criação de empregos. Resumo da ópera: a maioria confia mais no desafiante que no incumbente.
Flávio tem conversado com as pessoas com proximidade, aparece no supermercado, mostra os preços subindo, a vida ficando mais cara. Fala da realidade com firmeza e simplicidade. Não tem gritaria do bolsonarismo raiz, muito menos a truculência.
Lula usa a caneta e o poder de interferir na economia. Tirou os impostos da gasolina, aumentou o Bolsa Família e faz pressão gigante pela aprovação do fim da escala 6 X 1 num país com cada vez menos jovens querendo Carteira de Trabalho assinada. A gastança será sua herança maldita, seja para ele mesmo ou seu sucessor. A vida ficará ainda mais difícil para quem paga imposto.
Às vezes é difícil entender mudanças. A campanha de Lula tem sido muito diferente das outras. Primeiro, porque será a última. Segundo, porque ele, sempre muito centralizador, perdeu o controle. E, terceiro, porque achou que seria imbatível para sempre. No início de 2025, escrevi um artigo mostrando que Lula estava perdendo seu principal ativo: o encanto. Foi descendo a ladeira e, do alto da sua soberba, talvez não tenha se dado conta.
Perdeu a retórica inteligente e eficiente, o silêncio calculado e a malícia do jogador de poker. Quis ser o que não é: vigoroso, atleta, imbrochável, como diria o velho Jair de guerra. Conseguiu fazer sua campanha ser a pior de todas. Não adianta culpar o marqueteiro, os aliados, os Estados Unidos, o Congresso, a abstenção. A campanha, como sempre, foi uma escolha de Lula.
Ele escolheu disputar o 4º mandato imaginando ser eterno e que o país não se cansaria dele. Mas ninguém é eterno e o país está cansado de Lula. Isso ficou claro em 4 de outubro, não só com a vitória de Flávio no 1º turno, mas com a maioria esmagadora da direita e da centro-direita no Congresso.
Havia muita coisa a ser lida nas pesquisas que chegaram mais perto do resultado do 1º turno. Como, por exemplo, o fato de as mulheres serem maioria entre os indecisos. Mas se a maioria das mulheres estava com Lula, como poderia haver maioria de mulheres dos 17% a 18% de indecisos? Simples: elas não queriam dizer que votariam em Flávio. Seja por medo ou vergonha, preferiram o voto silencioso. Agora, há o risco de Lula ter menos votos no 2º turno do que no 1º, como Alckmin em 2006.
O PT acabou naquela situação do ditado: “Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Faltou voto e sobrou desavença. A ex-senadora Kátia Abreu (PT) foi a única com coragem de dar um freio de arrumação e dizer com todas as letras o que ninguém teve coragem: “Menos Janja e mais Alckmin”.
A primeira-dama tropeçou no bom senso inúmeras vezes, especialmente quando xingou o deputado Nikolas Ferreira (PL) de “piá de bosta“. Com 3,1 milhões de votos, o deputado e o governador eleito Cleitinho (Republicanos) ajudaram a derrotar Lula em Minas. Janja foi uma espécie de Carla Zambelli de Lula, a aloprada deputada bolsonarista que perseguiu de arma na mão o eleitor que a provocou.
O Supremo também ajudou a desidratar Lula com os ministros se digladiando num barraco jurídico durante a sessão histórica de 15 de setembro. O eleitor, mostraram as urnas, acha que Lula e o STF andam abraçados. Agora, o ministro Alexandre de Moraes piorou as coisas mandando prender o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e a porteira Nailze Aparecida Ribeiro da Silva, 54 anos, condenada a 14 anos por participar do 8 de Janeiro. Se esperasse o fim do 2º turno, não daria combustível à oposição. Lembrei do ex-deputado Roberto Jefferson enfrentando a polícia no melhor estilo sangue, tiro e porrada.
Flávio deve estar olhando toda esta movimentação e lembrando daquela máxima de Napoleão: nunca atrapalhe seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro. O tempo corre contra Lula. E está a favor de Flávio neste momento. A ansiedade aumenta, a adrenalina também. Uma derrota para Flávio doerá fundo em Lula, porque ele sempre desprezou o adversário e não imaginava perder.
Poderia sair do governo como o presidente defensor da democracia, sua narrativa preferida nestes últimos 4 anos. Se quisesse, viraria orixá e se transformaria num oráculo com poder e influência, a exemplo dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Souberam sair da política sem uma derrota final.
Na Roma de 2.000 anos atrás, o escravo público (sim, o poder público tinha escravos) caminhava atrás do imperador, ou dos generais triunfantes, repetindo “memento mori” (lembre da morte). Era a forma de manter a conexão dos poderosos com a realidade, porque muitos se achavam semideuses e até imortais. Nesta campanha faltou a Lula alguém que cumprisse este papel.
Leia menos

















