O Globo
Popular nas redes sociais pela produção de conteúdos, o influenciador e historiador Jones Manoel (PSOL-PE) afirma que a esquerda ainda não encontrou “uma fórmula adequada de enfraquecer a extrema direita” discursivamente e considera que a comunicação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) errou ao escolher seu mote central no passado. Eleito o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco, ele passou a integrar um grupo de parlamentares jovens que tem sido consultado pelo PT para ajustes na estratégia digital durante o segundo turno.
O grupo chegou a participar de uma reunião com o presidente para a discussão do tema e o planejamento de uma “força-tarefa” para fazer frente ao desempenho de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas redes e nas urnas no segundo. Como parte da nova estratégia, por exemplo, o presidente gravou vídeos no modo “selfie”, característico de redes sociais como TikTok e Instagram, intensificou a participação em atos nas ruas organizados pelo movimento estudantil e pela classe artística e passou a encampar novas pautas, com a tarifa zero.
Leia maisO que explica a sua eleição como o segundo mais votado para a Câmara em Pernambuco?
Foi uma campanha de rua, da base, e também tivemos a conectividade digital. Também recebi o voto de categoria, porque eu fui o candidato mais votado pelo movimento sindical. Depois da contrarreforma trabalhista de Michel Temer, a maioria da esquerda passou a apostar que o movimento sindical perdeu força, o que é verdade, e que, portanto, não era um vetor de força política eleitoral. A gente pegou essa verdade e transformou numa conclusão equivocada. O movimento sindical ainda tem força, ainda que hoje seja mais difícil.
Ao mesmo tempo, foram eleitos parlamentares que vão formar uma maioria de direita tanto na Câmara quanto no Senado. A que aspecto você atribui esse movimento?
A primeira coisa é que o campo da direita e da extrema direita no Brasil é muito mais sólido e consolidado em termos de articulação da comunicação digital e de mobilização de bases sociais a partir, por exemplo, das igrejas evangélicas não pentecostais. Eles também conseguiram uma coesão ideológica muito maior e têm um inimigo comum muito claro. Por outro lado, também existe a dinâmica bilionária do uso das emendas parlamentares sem rastreio, que favoreceu principalmente esses candidatos para o Congresso. Então, não é surpresa para mim a votação deles, e acho que quem se surpreendeu não está entendendo muito bem o Brasil de hoje.
Você considera, então, que o resultado dessa eleição confirmou uma guinada do país para a direita?
Acho que a gente ainda não conseguiu encontrar a fórmula política para enfraquecer a direita e a extrema direita, dado que o setor progressista apoia um modelo de frente ampla democrática como chave para esse enfrentamento, colocando como linguagem política central a ideia de defesa da democracia. Só que essa ideia tem pouca ressonância na classe trabalhadora e na consciência popular, considerando que a maioria do nosso povo vive numa situação de salário baixo, de desemprego, de precariedade, de falta de serviços públicos, de violência estatal e do crime organizado.
Investir nesse discurso foi um dos erros cometidos pela campanha de Lula no primeiro turno?
Eu acho que todos os candidatos progressistas que tiveram como mote de campanha a defesa da democracia de forma abstrata, que disseram que “não podemos deixar a extrema direita vencer porque as coisas vão piorar”, mas falaram de futuro, de projeto de país, tiveram um resultado aquém do necessário. Nesse ano, a gente lançou um manifesto da bancada da esquerda radical, que tem uma característica de programa antineoliberal, e, dos sete que estiveram por trás desse projeto, seis foram eleitos. Não acho que isso seja algo aleatório. É um recado das urnas de que a classe trabalhadora está pedindo um projeto de futuro.
Como você enxerga a estratégia de comunicação usada pela campanha de Lula até aqui?
O governo precisa melhorar muito a comunicação digital, que precisa se tornar mais ágil, se conectar com o público das grandes cidades e aprender a trabalhar com múltiplas linguagens. Acho que é preciso mudar na forma e, principalmente, no conteúdo. Eu, por exemplo, tenho dialogado com pessoas da campanha do presidente e dito que o presidente precisa, como proposta para o cidadão, de temas como a tarifa zero, o enfrentamento ao caos urbano, a expansão do sistema metroviário e ferroviário, para diminuir o engarrafamento nas cidades. Ninguém aguenta mais levar de 4 a 5 horas para ir e voltar do trabalho para casa (após a realização da entrevista, o presidente anunciou o envio ao Congresso Nacional de uma proposta que prevê a tarifa zero no transporte público nos finais de semana).
Há tempo hábil para mudar essa estratégia?
Considero totalmente possível. Eu estou, inclusive, engajado na campanha do presidente Lula para garantir essa vitória e a derrota do Flávio Bolsonaro. Estou em contato com a coordenação da equipe dele para a gente dialogar justamente sobre como mobilizar as experiências da classe trabalhadora e da juventude para que a gente supere o estado de coisas da economia brasileira. A gente precisa escutar o futuro muito mais do que falar do passado.
No seu estado, a governadora Raquel Lyra (PSD) foi reeleita e impôs uma derrota ao ex-prefeito de Recife, João Campos (PSB), que já tinha essa linguagem mais voltada para as redes sociais. Em que ponto você considera que a campanha dele falhou?
Não existe diferença entre o João Campos e a Raquel Lyra do ponto de vista do projeto ideológico. São figuras de centro e liberais, que defendem basicamente o mesmo programa. Na campanha, ele construiu um discurso de que “um bom governo é aquele que entrega obras” e fez isso a partir de toda a comunicação institucional da prefeitura de Recife desde a reeleição em 2024. Enquanto a governadora incumbente não precisou se desincompatibilizar para concorrer, também entregou suas obras e disse que continuaria fazendo isso. O João Campos, então, não conseguiu encaixar o discurso de oposição, enquanto uma figura oligárquica e que vem da política tradicional.
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