Ppr Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O PL montou uma grande banca de advogados para implementar uma estratégia que já esboçou na convenção que oficializou, no sábado (25), a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (RJ): testar ao máximo os limites da legislação, trabalhando até onde ela permita ir. É a velha tática de adaptação militar de que já falamos aqui no Correio Político: a tomada de cabeças de ponte, o avanço no território inimigo — se o inimigo permitir, avança-se dali; se reagir, recua-se.
No sábado, a estratégia foi testada no uso da imagem em Inteligência Artificial do ex-presidente Jair Bolsonaro e no discurso do presidente da Argentina, Javier Milei, no evento. Duas tentativas pensadas, com a ajuda dos advogados, para levar ao limite a interpretação da legislação. Se a Justiça Eleitoral aceitar que nada houve, a campanha avança a partir do ponto permitido.
Leia maisVitimização e perseguição
Se considerar que houve problemas, os advogados apostam em situações que, no máximo, gerarão multa e não cassação da candidatura. Mas que também permitirão a construção de um discurso de vitimização: de que o sistema desde sempre os persegue. Na convenção do PL, coube a Carlos Bolsonaro, o filho 02, candidato ao Senado por Santa Catarina, fazer o discurso antissistema. No dia seguinte, no domingo (26), o PSD oficializou a candidatura de Ronaldo Caiado, com Gilberto Kassab como vice.
Escolha pela rejeição
Era o anúncio da candidatura da direita que respeita e é ligada ao sistema. Tanto que Caiado se apresentou como o candidato que é o oposto do “Kinder Ovo”: com ele “não tem uma surpresinha a cada dia”. Para o advogado e analista Melillo Dinis, o sábado e o domingo representaram dois caminhos para lidar com o dado principal das eleições deste ano: a escolha pela rejeição. “As candidaturas apresentadas são parte de um fenômeno da política nacional. E que têm, em comum, a percepção do eleitor rejeitor”, explica Melillo.
Voto que na verdade vira veto
Nas eleições deste ano, boa parte do sentimento do eleitorado é marcada pela rejeição. “Voto é veto”, explica Melillo. Nesse tipo de situação, continua, reforçar a ideia de que se é antissistema ajuda a provocar o sentimento do eleitorado. Trata-se do candidato que é contra tudo o que aí está. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito com esse discurso. Javier Milei foi eleito presidente da Argentina dessa forma.
Menos entusiasmo
Embora a polarização entre o lulismo e o bolsonarismo ainda mova boa parte do eleitorado, quem vai de fato definir a eleição não tem entusiasmo nem por um lado nem pelo outro. “Hoje, boa parte da direita é movida menos pelo entusiasmo com um projeto comum e mais pelo antilulismo”, considera Melillo.
No sistema
É a partir daí que as estratégias do PL, com Flávio, e do PSD, com Caiado, se dividem. Embora seja senador e seu pai, Jair, tenha sido também político em boa parte da sua vida, os dois se apresentam como adversários de um sistema que os persegue. Já Caiado e Kassab são parte desse sistema. Como também faz parte o empresariado brasileiro.
Previsibilidade
No caso, então, Caiado e Kassab se apresentam como garantias de previsibilidade. Para quem considera a previsibilidade um ativo importante. E ele é fundamental no mundo dos negócios. O mundo da indústria, do agronegócio, do mercado financeiro. Caiado tentará avançar apostando nessa garantia, alicerçada pela sua experiência política.
O anti
Agora, em alguns lugares, o empresariado também se encantou pela ideia do antissistema. E a vizinha Argentina é um exemplo disso. Mas lá foi necessária a existência de uma situação de caos econômico que ainda não chegou ao Brasil. Daí o discurso de Javier Milei na convenção do PL: ainda não chegou ao Brasil, mas vai chegar.
Bolsonaro em IA
Advogado especialista em direito eleitoral, Melillo Dinis comenta as tentativas no limite usadas pelo PL na convenção. “A utilização da IA de Bolsonaro pode dar problema”, considera. “A legislação exige identificação ostensiva do conteúdo sintético produzido por IA, mas estabelece diversas vedações específicas. Pode levantar questionamentos.”
Milei
“A legislação eleitoral brasileira contém restrições quanto à interferência estrangeira no processo eleitoral e ao financiamento ou influência externa, mas não existe uma proibição segundo a qual qualquer chefe de Estado estrangeiro esteja impedido de manifestação política ou de aparecer em um evento de campanha”, conclui Melillo.
Leia menos




















