Por Gastão Cerquinha Neto*
Você já deve ter ouvido falar sobre os data centers. Mas o que realmente são essas estruturas, para que servem e por que devemos nos preocupar? Um data center (centro de dados) reúne servidores, computadores e processadores em um grande galpão onde são processados, armazenados e distribuídos grandes volumes de dados, principalmente aqueles utilizados para alimentar e treinar os atuais modelos de inteligência artificial.
Um único prédio pode consumir, em média, 68 mil litros de água por dia, atingindo picos de até 333 mil litros diários. Em projetos de grande escala, o consumo pode ultrapassar 6,6 milhões de litros por dia. Em 2023, o Google consumiu 24,2 bilhões de litros de água no mundo, dos quais 95% foram destinados exclusivamente aos seus data centers. Já a Meta consumiu 3,07 bilhões de litros de água globalmente em 2023, sendo 95% desse volume aplicados em seus data centers.
Leia maisEm Caucaia, no Ceará, está sendo construído um data center dentro do perímetro do Complexo do Pecém. As obras começaram em janeiro de 2026, com previsão de conclusão das primeiras etapas em setembro de 2027. Para operar, o consumo de energia é altíssimo. Na fase inicial, o data center vai exigir uma potência média de 210 a 300 megawatts, operando 24 horas por dia. Isso significa um consumo diário equivalente à energia utilizada nas residências de aproximadamente 2 milhões de brasileiros.
O alto consumo de energia se deve ao sistema utilizado para resfriar os equipamentos, que opera em ciclo fechado. Nesse sistema, a água não é descartada, mas resfriada por aparelhos de ar-condicionado, ventoinhas e chillers.
Impacto
Existe um dilema na concepção de projetos de data centers entre consumir mais energia ou consumir mais água. Nem sempre o sistema de resfriamento utilizado opera em ciclo fechado, podendo demandar volumes altíssimos de água. Quando as empresas optam por não utilizar esse sistema, geralmente implementam sistemas de resfriamento com água, que, durante o processo, é perdida por evaporação. Como a água evapora continuamente, o sistema precisa ser constantemente reabastecido. Por isso, um único mega data center operando nesse formato pode consumir milhões de litros de água potável por dia.
A população que vive próxima a esses empreendimentos também relata outros impactos. Os sistemas de refrigeração provocam ruído constante. Além disso, a dependência do projeto em relação à geração de energia dos parques eólicos vizinhos submete os moradores ao ruído das turbinas, associado a problemas de saúde como insônia e dores de cabeça. No Ceará, há ainda conflito direto com o povo indígena Anacé, que contesta o uso das terras e teme prejuízos ao abastecimento de água.
Outro ponto é que as instalações de geração de energia renovável e as linhas de transmissão necessárias para atender ao elevado consumo energético ocasionam impactos ambientais, como a destruição da biodiversidade e a devastação de grandes áreas da Caatinga.
Prevenção e monitoramento
A preocupação com a expansão dos data centers fez com que Nova York suspendesse a construção de novos empreendimentos pelo próximo ano. A decisão foi tomada devido às preocupações com o impacto dessas estruturas sobre o consumo de energia, o uso da água e as comunidades locais. O avanço da inteligência artificial tem acelerado a demanda por esses centros, gerando o temor de aumento nas contas de luz e de maior pressão sobre a rede elétrica.
A ativista ambiental Erin Brockovich desenvolveu uma ferramenta de mapeamento para rastrear data centers espalhados pelos Estados Unidos. A maior parte das informações é alimentada pelos próprios cidadãos que, voluntariamente, se cadastram no site e informam a existência de data centers, bem como os impactos gerados por eles em seus bairros.
Além da localização dessas estruturas, o mapa inclui uma camada que delimita regiões com escassez hídrica e a compara com a localização dos data centers, mostrando que, mesmo em áreas classificadas com seca excepcional (o nível mais alto), há empreendimentos desse tipo. Até o momento, o mapa registra 33 data centers em operação, 66 em construção e 47 propostos. Quando considerados os registros enviados pela população, esse número sobe para 8.837, podendo crescer ainda mais à medida que o site ganhe popularidade e as informações sobre os impactos desses empreendimentos se tornem mais difundidas.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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