Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Há sempre algo de Shakespeare para ilustrar qualquer fato político. Nas suas peças, o bardo inglês parece ter conseguido prever toda intriga possível. No caso da treta envolvendo a família Bolsonaro, é obrigatório, como já ensaiamos na coluna do fim de semana, não lembrar de Rei Lear. O rei personagem da tragédia de Shakespeare tem três filhas.
O capitão da reserva (se o Superior Tribunal Militar assim o permitir) tem quatro filhos na política e uma esposa. Em um processo de loucura, Rei Lear vê suas filhas o traírem pela sucessão de seu trono. Vai parar debaixo de uma tempestade, acompanhado somente do Bobo da Corte e de um duque seu aliado. Transferida a peça para uma casa em um condomínio do Jardim Botânico, feita de prisão domiciliar, Bolsonaro também parece estar perdendo o controle sobre seu espólio, disputado de forma violenta.
Leia maisBolsonaro está à base de fortes medicamentos, que têm, de acordo com sua própria defesa, efeitos psicotrópicos. Será que poderia dizer como o Rei Lear: “Como é mais doloroso que a mordida de uma serpente ter um filho ingrato!”? Nos vídeos que gravou, Michelle diz isso, ao afirmar que as tratativas de aliança com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará contrariariam as orientações do ex-presidente. Por outro lado, é esse o ataque feito à própria Michelle. Ela é que estaria agindo à revelia dele.
Na ala bolsonarista ligada aos filhos, os vídeos de Michelle estão sendo interpretados como uma forte demonstração de que ela está no jogo pelo espólio de Bolsonaro. E que, no caso, o que menos interessaria a ela era ver seu enteado, Flávio Bolsonaro, eleito agora presidente. Eleito, ele naturalmente será candidato à reeleição. Derrotado, abre espaço para o surgimento de outras lideranças de direita. Entre elas, Michelle. Mas não apenas ela. Há um número grande de políticos conservadores de olho num bolsonarismo sem Bolsonaro.
Fora do clã Bolsonaro, o desenrolar da querela é também acompanhada com atenção. Porque na fila do espólio há muita gente que não pertence à família. O veto ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, já estava ligado a isso. Significaria a ascensão de um nome da direita independente do comando de Jair Bolsonaro.
De acordo com pessoas que acompanham toda a novela de perto, engana-se quem acha que Michelle teve aval de Bolsonaro para gravar os vídeos. Não teve, segundo apurou o Correio Político. Na verdade, todos os movimentos feitos por Bolsonaro foram no sentido contrário. Ele tratou de ungir seu filho Flávio como candidato para evitar a ascensão dela.
Crescia na ocasião a hipótese de Michelle vir a ser a vice de Tarcísio de Freitas. Ao mesmo tempo, o PL tinha pesquisas internas que mostravam a própria Michelle como o melhor nome com o sobrenome Bolsonaro para a disputa. Por essa razão, ela era a preferida do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para a candidatura presidencial.
O que, porém, também não quer dizer que Valdemar tenha dado aval a Michelle para gravar os vídeos. Ele também não sabia deles. Valdemar ficou sabendo dos vídeos de dentro do estádio Miami Giants, nos Estados Unidos, onde assistiria ao jogo entre o Brasil e a Escócia pela Copa do Mundo. A partir daí, deve ter curtido menos os três gols.
No dia seguinte, Valdemar resolveu voltar para o Brasil. Tentará reunir Flávio e Michelle para apagar o incêndio provocado pela esposa de Bolsonaro. Viu-se obrigado a entrar em um processo do qual – já contamos isso aqui no Correio Político – estava afastado. O presidente do PL tinha optado a sair do controle da campanha presidencial.
Ainda no aeroporto, Valdemar foi alcançado por repórteres. E não teve como reduzir o tamanho do incêndio provocado por Michelle. Admitiu que o caso é “sério”. E que pode ter um grande potencial de estrago. Disse Valdemar que, desunida, a direita acaba correndo o risco de perder as eleições presidenciais. O adversário não é um amador.
De novo, a essa altura, há quem outra vez espere a unção do Rei Lear exilado em um condomínio. Um posicionamento dele sobre a questão central colocada – a aliança ou não com Ciro Gomes no Ceará – esclareceria quem está ali traindo quem. Resolverá? Ou, de novo, ficaremos em outra frase de Rei Lear: “Do nada, nada pode vir”?
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