Não há nada melhor para aliviar o estresse diário do que ir a um bom restaurante. Na Itália e na França, as refeições são rituais de várias horas, onde a pressa é uma ofensa ao chef. O foco está na conversa, no vinho e na valorização dos ingredientes locais.
Na Espanha, a cultura do tapeo (ir de bar em bar comer tapas) prioriza a alta socialização em movimento. No Brasil, conheço restaurantes que vão muito além da comida, que funcionam como verdadeiros patrimônios vivos, preservando memórias, arquitetura e tradições ao longo dos anos. O Leite, no Recife, que bato ponto quando estou na cidade, é um deles.
Leia maisConsiderado o restaurante mais antigo em funcionamento contínuo no Brasil, o Leite foi fundado em 1882, ainda durante o Período Imperial e sob o reinado de D. Pedro II, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife.
Diferentemente do Leite, o Piantella, em Brasília, point dos políticos e da imprensa nacional, não resistiu a uma forte crise financeira e fechou suas portas por um período em 2016, sendo depois reaberto por um curto período, fechando definitivamente em 2020, na crise da pandemia.

Uma pena! Até hoje sinto saudade. Quantas vezes saí de lá com notícias que viraram manchetes no dia seguinte. O Piantella foi um dos principais pontos de encontro dos políticos em Brasília. No restaurante, foram acertados detalhes da Anistia, das Diretas Já, da Constituinte e da cassação de Collor.
“Aqui, governo e oposição sentam à mesma mesa”, era o slogan do Piantella. Ainda guardo na memória uma imagem de duas taças de champanhe, ladeadas por um prato virado para cima e outro para baixo, como se fosse o Congresso Nacional, exposto num dos ambientes da casa.
Não havia uma noite sequer que a nata da política brasileira não fosse bater o ponto no Piantella, que era de dois sócios: Kakai, advogado famoso na corte, e Marco Aurélio Costa, seu fundador, em 1974. Suas mesas abrigaram conversas, brigas e conchavos fundamentais para a composição da atual democracia brasileira.
“Tudo começou com o pessoal do MDB”, relembra Marco Aurélio. Mineiro de Teófilo Otoni, o fundador da casa costumava receber os amigos sentado na cabeceira da “Mesa do Velho”, à frente de um quadro de Ulysses Guimarães. Era lá que se reunia o Clube do Poire (nome de uma aguardente de pera usada como digestivo pelo Senhor Diretas), formado pelos parlamentares de oposição ao regime militar.
Do outro lado, os deputados da Arena também tinham seu quartel-general, o restaurante GAF, que tomou o mesmo rumo da ditadura e desapareceu. Já o Piantella foi se moldando às mudanças históricas, tendo o Dr. Ulysses como bandeira.
A sala utilizada pelo ex-presidente da Câmara, que morreu em um acidente aéreo em 1992, ficava em um ambiente reservado na parte de cima do restaurante, onde cabiam de 20 a 25 pessoas.
Recortes de jornal, fotos e algumas relíquias, como um cheque assinado por Ulysses para pagar uma conta quando assumiu provisoriamente a Presidência em 1985, compunham uma espécie de minimuseu em homenagem ao “Velho”. Ulysses fez muitas reuniões no restaurante.

Primeiro, deixava todo mundo falar, bem à vontade. Depois, chegava aonde queria. Ser aceito membro do clube muitas vezes era mais importante do que ter um cargo no governo. Foi no restaurante que as principais lideranças da Câmara realizaram o último encontro antes da votação do impeachment.
Durante o jantar, Ulysses fez questão de se sentar ao lado do líder do governo, Luis Eduardo Magalhães (PFL-BA). Era um sinal de que nada estava sendo feito pelas costas. Luís Eduardo, que morreu em 1998, aos 43 anos, também foi um dos grandes frequentadores da casa.
Ao lado de sua mesa favorita, no espaço comum, havia uma placa em homenagem a ele, dizendo que naquele local Luís Eduardo “pensava o Brasil”. Ainda sobre o ex-deputado e seu pai, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), morto em 2007, há muitas histórias, mas uma sintetiza o que o Piantella representava no ideário político de Brasília.
No fim dos anos 1990, ACM e o ex-presidente Michel Temer (PMDB) costuravam um acordo para que os dois assumissem as presidências do Senado e da Câmara, respectivamente. Certa vez, Temer ligou para Luís Eduardo para marcar um encontro. Quando eles se falaram, descobriram que ambos estavam no Piantella, em ambientes diferentes. Ao final do jantar, o trato estava selado. ACM e Temer comandaram as duas Casas do Congresso de 1997 a 2001.
Um dos últimos episódios famosos de confraternização no Piantella ocorreu durante o julgamento do mensalão, em agosto de 2012. Recém-cassado devido a acusações de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ex-senador Demóstenes Torres cantou para um grupo de advogados que trabalhava para réus do processo. Ele só estava se divertindo, nada demais, conforme chegou a brincar numa entrevista um dos donos do Piantela.
Além da deliciosa feijoada servida na casa, suas mesas foram palcos de importantes decisões tomadas por políticos, já que o local sempre foi ponto de encontro dos governantes. Ulysses Guimarães, um dos padrinhos do restaurante, foi homenageado com uma mesa destinada a jantares reservados, dentro da adega climatizada para 10 mil garrafas.
A cozinha da casa foi comandada por 26 anos pelo chef Geraldo Pinto Maciel e seus principais destaques eram a polenta com shiitake e shimeji frescos, sugestão de entrada; oferecendo como opção de prato principal o carré de cordeiro com risoto trufado. O risoto de salmão com queijo mascarpone e caviar eram os pratos principais, além do filé de linguado com ninho de legumes, que trazia o peixe grelhado servido sobre palmito, cenoura e alho-poró refogados, coberto por um molho de limão-siciliano, lima-da-pérsia e pimenta-rosa.
Outro aspecto interessante do restaurante era sua carta de vinhos, que lista 1.500 rótulos. Entre goles de poire, destilado francês à base de pêra, Ulysses Guimarães articulou por lá a campanha pelas Diretas Já.
Ele costumava sentar-se em um canto mais reservado do restaurante. Mesmo depois de sua morte, em 1992, sua mesa e cadeira continuaram reservadas com seu nome, e um quadro com sua foto foi pendurada na parede. Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco, Aécio Neves, Dilma Rousseff e Michel Temer eram figuras constantes no Piantella.
Era como se fosse uma extensão do Congresso para todos. Muitas vezes, o restaurante ficava de portas abertas de madrugada para atender os políticos, que precisavam fazer reuniões emergenciais. O presidente Lula também era fã do Piantella.
Quando ele ganhou as eleições, em 2002, fez questão de jantar na casa com mais dez ministros. Foi uma festa. O restaurante também foi palco de histórias curiosas. O deputado Luis Eduardo Magalhães tinha uma tática boa para não o flagrarem com bebida alcóolica. Ele não tomava champanhe em taça, mas em um copo diferente, segundo Marco Aurélio.
Luis Eduardo, político baiano, ex-presidente da Câmara, morreu em 1998 depois de sofrer um infarto. Mas a clientela vai além do meio político. Cenário de tantas histórias, era esperado que o Piantella fosse reabrir um dia. Pelo menos, esse sempre foi o plano de Kakay, que fez questão de manter o restaurante intacto e continuar pagando o aluguel do ponto.
O restaurante encerrou as suas atividades em 31 de agosto de 2016, coincidente no mesmo dia do impeachment de Dilma Rousseff, sob impactos da crise econômica e o desgaste do formato tradicional. A trajetória do local virou tema de homenagens, artigos de reflexão democrática e de um projeto de livro de memórias conduzido pelo escritor Fernando Morais com base em centenas de entrevistas.
O saudoso Piantella, enfim, nas suas mesas lotadas, com muito whisky e vinho, construiu também, dia a dia, noite após noite, a redemocratização do país. Era comum, depois das sessões tensas, com debates acalorados sobre os destinos do Brasil, políticos de tendências opostas, como Luiz Eduardo Magalhães, José Genoino, Delfim Neto, Miro Teixeira, José Dirceu e Antônio Carlos Magalhães discutirem com civilidade e harmonia os destinos do País.
O Piantella foi, sem sombra de dúvida, o retrato de uma época em que a sociedade reconquistou o Estado democrático de Direito. A liberdade. A irmandade. O respeito às divergências. A política como instrumento civilizatório.
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