Por Flávio Chaves*
Voltei ao mesmo lugar. Não sei bem dizer o que esperava encontrar, talvez o vento com o mesmo ângulo, as mesmas sombras ocupando os mesmos tijolos, a tarde estendida sobre as coisas com aquela leveza particular que eu havia guardado como quem guarda uma folha seca entre as páginas de um livro. O banco de madeira continuava lá, um pouco mais desgastado, como tudo que permanece à chuva e ao sol sem que ninguém se lembre de abrigar. Sentei no mesmo canto. E aconteceu algo que, na sua aparente simplicidade, foi capaz de me abrir por dentro com uma delicadeza quase cirúrgica: eu não me lembrei dela. Eu pensei nela.
Há uma diferença imensa entre essas duas coisas, e estranhamente levei toda uma vida para percebê-la com clareza. Lembrar é um acontecimento do lado de fora. É o mundo batendo na porta da memória e dizendo: olha, eu trouxe algo que é seu. Uma música toca numa loja ao passar pela calçada, e de repente alguém surge completo dentro de nós, como se tivesse estado o tempo todo aguardando aquela nota específica para entrar.
Leia maisUm perfume escapa de uma janela aberta e nos transporta para um quarto que nem existe mais. O cheiro de chuva sobre o asfalto quente, a penugem de uma nuvem numa tarde de inverno, a curvatura de uma rua que de repente não é mais uma rua mas uma memória com endereço, tudo isso é lembrança. A lembrança é uma visita. Ela chega, nos toca, nos perturba ou nos consola, e depois vai embora como a onda que toca a areia e recua, sem pedir licença e sem deixar escolha.
Mas naquele banco de madeira, naquela tarde que repetia a geometria de uma tarde anterior sem conseguir repeti-la de fato, eu não precisei de nenhum gatilho. Não foi um detalhe do cenário que a invocou. Ela simplesmente estava lá, não como visão, não como saudade aguda, mas como uma presença difusa e constante, como o murmúrio de um rio que a gente só percebe quando para de falar. Pensar em alguém é diferente de lembrá-lo. Pensar é quando a pessoa encontrou um cômodo dentro de nós e não saiu mais. É quando ela não precisa ser convocada porque nunca foi embora. É uma chama que continua acesa mesmo nas noites em que ninguém a visita — não para queimar, não para consumir, mas apenas para continuar sendo luz dentro de um espaço que ela aprendeu a habitar.
Existe uma beleza triste nisso. Uma beleza que não pede permissão para existir. A lembrança, por mais preciosa que seja, tem a natureza fugaz do pássaro que pousa um instante na beira da janela: você o observa, segura a respiração para não assustá-lo, sente alguma coisa se expandir dentro do peito, e então ele vai, porque pássaros são feitos de ir. Já o pensamento é diferente em sua essência. O pensamento não pousa. Ele habita. É a estrela que insiste em brilhar depois do crepúsculo, quando todas as outras se apagaram e aquela ainda pulsa, teimosa e serena, como se tivesse decidido que o céu escuro era o seu lugar definitivo. Não nos pediu que a víssemos. Está ali de qualquer modo.
Fui tentando nomear essa distinção enquanto o vento deslocava algumas folhas secas pela calçada, e cada folha era uma lembrança indo embora, levada pela corrente do tempo para algum lugar que não sabemos identificar. A memória é generosa na sua brevidade, ela nos devolve o que foi, nos empresta o passado por alguns instantes, nos deixa roçar com os dedos a textura de um momento que já não existe. Mas ela tem limites que são seus. Ela vem e vai. Ela obedece aos ventos do acaso, às armadilhas involuntárias que o mundo espalha pelo caminho, uma canção, uma cor, o jeito como a luz dobra numa esquina às cinco da tarde. A lembrança é filha do acaso. O pensamento, porém, é filho da escolha, ou melhor: é filho do amor, que é a mais sofisticada forma de permanência que o ser humano conhece.
Havia pessoas que eu havia amado e que agora me chegavam apenas como lembrança. Surgiam às vezes, completas e vívidas, convocadas por algum detalhe insignificante do mundo, e eu as recebia com gratidão, como se recebe uma carta inesperada. Mas ela, ela era outra coisa. Ela era a casa iluminada por dentro que a gente enxerga do lado de fora numa noite de inverno e que, mesmo sem estar dentro dela, faz a gente se sentir menos à deriva no mundo. Não importava se eu estava naquele banco ou num trem ou numa fila de farmácia ou olhando sem ver para o teto às duas da manhã: ela estava lá, no pensamento, quieta como o rio que continua correndo longe dos olhos — continua correndo, diga-se de passagem, mesmo que ninguém esteja lá para ouvi-lo.
Compreendi, naquela tarde repetida e irrepetível, que há dois tipos muito distintos de pessoas que passam pela nossa vida. As primeiras passam pela memória como pássaros de estação — e que bênção são elas, que visitam a gente com sua fugacidade e seu canto, e que nos lembram que a beleza não precisa ser permanente para ser real. As segundas, porém, fazem do pensamento a sua morada. Constroem qualquer coisa dentro de nós sem pedir licença, sem anunciar a chegada, sem tampouco anunciar que ficaram. São as que a memória não precisa trazer de volta porque nunca partiram de verdade. São as que habitam o espaço mais íntimo da consciência com a mesma naturalidade silenciosa com que a respiração habita o corpo, sem esforço, sem ruído, sem a menor intenção de ir embora.
Levantei-me do banco quando a tarde começou a perder sua cor. O lugar continuava igual, o mesmo desgaste, as mesmas sombras inclinando-se para o lado certo, o vento repetindo seu velho gesto de varrer o que não tem raiz. E eu ia embora pensando nela, como havia chegado pensando nela, como chegaria amanhã, como chegaria sempre, não porque o lugar me lembrasse dela, mas porque ela nunca havia saído de mim o suficiente para precisar voltar. Algumas pessoas voltam à lembrança. Outras nunca saem do pensamento.
Mas naquele banco de madeira, naquela tarde que repetia a geometria de uma tarde anterior sem conseguir repeti-la de fato, eu não precisei de nenhum gatilho. Não foi um detalhe do cenário que a invocou. Ela simplesmente estava lá — não como visão, não como saudade aguda, mas como uma presença difusa e constante, como o murmúrio de um rio que a gente só percebe quando para de falar. Pensar em alguém é diferente de lembrá-lo. Pensar é quando a pessoa encontrou um cômodo dentro de nós e não saiu mais. É quando ela não precisa ser convocada porque nunca foi embora. É uma chama que continua acesa mesmo nas noites em que ninguém a visita — não para queimar, não para consumir, mas apenas para continuar sendo luz dentro de um espaço que ela aprendeu a habitar.
Existe uma beleza triste nisso. Uma beleza que não pede permissão para existir. A lembrança, por mais preciosa que seja, tem a natureza fugaz do pássaro que pousa um instante na beira da janela: você o observa, segura a respiração para não assustá-lo, sente alguma coisa se expandir dentro do peito — e então ele vai, porque pássaros são feitos de ir. Já o pensamento é diferente em sua essência. O pensamento não pousa. Ele habita. É a estrela que insiste em brilhar depois do crepúsculo, quando todas as outras se apagaram e aquela ainda pulsa, teimosa e serena, como se tivesse decidido que o céu escuro era o seu lugar definitivo. Não nos pediu que a víssemos. Está ali de qualquer modo.
Fui tentando nomear essa distinção enquanto o vento deslocava algumas folhas secas pela calçada, e cada folha era uma lembrança indo embora, levada pela corrente do tempo para algum lugar que não sabemos identificar. A memória é generosa na sua brevidade, ela nos devolve o que foi, nos empresta o passado por alguns instantes, nos deixa roçar com os dedos a textura de um momento que já não existe. Mas ela tem limites que são seus. Ela vem e vai. Ela obedece aos ventos do acaso, às armadilhas involuntárias que o mundo espalha pelo caminho, uma canção, uma cor, o jeito como a luz dobra numa esquina às cinco da tarde. A lembrança é filha do acaso. O pensamento, porém, é filho da escolha, ou melhor: é filho do amor, que é a mais sofisticada forma de permanência que o ser humano conhece.
Havia pessoas que eu havia amado e que agora me chegavam apenas como lembrança. Surgiam às vezes, completas e vívidas, convocadas por algum detalhe insignificante do mundo, e eu as recebia com gratidão, como se recebe uma carta inesperada. Mas ela, ela era outra coisa. Ela era a casa iluminada por dentro que a gente enxerga do lado de fora numa noite de inverno e que, mesmo sem estar dentro dela, faz a gente se sentir menos à deriva no mundo. Não importava se eu estava naquele banco ou num trem ou numa fila de farmácia ou olhando sem ver para o teto às duas da manhã: ela estava lá, no pensamento, quieta como o rio que continua correndo longe dos olhos, continua correndo, diga-se de passagem, mesmo que ninguém esteja lá para ouvi-lo.
Compreendi, naquela tarde repetida e irrepetível, que há dois tipos muito distintos de pessoas que passam pela nossa vida. As primeiras passam pela memória como pássaros de estação, e que bênção são elas, que visitam a gente com sua fugacidade e seu canto, e que nos lembram que a beleza não precisa ser permanente para ser real. As segundas, porém, fazem do pensamento a sua morada. Constroem qualquer coisa dentro de nós sem pedir licença, sem anunciar a chegada, sem tampouco anunciar que ficaram. São as que a memória não precisa trazer de volta porque nunca partiram de verdade. São as que habitam o espaço mais íntimo da consciência com a mesma naturalidade silenciosa com que a respiração habita o corpo, sem esforço, sem ruído, sem a menor intenção de ir embora.
Levantei-me do banco quando a tarde começou a perder sua cor. O lugar continuava igual, o mesmo desgaste, as mesmas sombras inclinando-se para o lado certo, o vento repetindo seu velho gesto de varrer o que não tem raiz. E eu ia embora pensando nela, como havia chegado pensando nela, como chegaria amanhã, como chegaria sempre, não porque o lugar me lembrasse dela, mas porque ela não havia saído de mim o suficiente para precisar voltar. Algumas pessoas voltam à lembrança. Outras nunca saem do pensamento.
Lembrar é um ato da memória; pensar é um ato da alma sobre aquilo que a memória trouxe.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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