Por Gastão Cerquinha Neto*
Será preciso paciência para que as 1.200 árvores do programa Via Jardim, no Recife, alcancem o porte necessário para trazer benefícios efetivos à cidade. E haja benefícios: estamos falando da redução da temperatura com o controle de ilhas de calor, mais sombra e descanso para a população, harmonia visual e, talvez o ponto mais importante para a nossa capital, o controle de alagamentos. Isso mesmo: cada árvore é capaz de reter um volume significativo de água logo no início da chuva, comparável a um reservatório de 500 litros. Ou seja, quanto mais árvores plantadas, menor é o risco de alagamentos nas ruas.
A falta de árvores transforma os centros urbanos em espaços desprovidos de serviços ecológicos e convivência social, agravando severamente os problemas de infraestrutura e saúde pública. Sem a cobertura vegetal, tanto as ruas e avenidas quanto quintais e estacionamentos tornam-se fontes intensas de calor, que acabam por desvalorizar os imóveis e aumentar os gastos com energia. Além disso, a perda da capacidade de absorção do solo faz com que a água das chuvas escoe rapidamente para calçadas e sarjetas, sobrecarregando os sistemas de drenagem. Esse excesso de enxurrada intensifica a erosão dos rios, destruindo habitats aquáticos, assoreando reservatórios e gerando altos custos para os cofres públicos e transtornos para a vida da população.
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Em sintonia com a urgência de fortalecer a sustentabilidade urbana no interior pernambucano, a Prefeitura de Afogados da Ingazeira deu um passo decisivo ao lançar o programa Afogados + Verde. Com a meta de plantar 25 mil mudas de espécies nativas da Caatinga e frutíferas nos próximos 10 anos, o plano municipal prioriza tanto áreas urbanas quanto margens de rios, nascentes e córregos. A iniciativa já conta com uma sementeira própria de mais de 5 mil exemplares no antigo Centro Social Urbano e tem a participação direta da comunidade como pilar: além de já somar 2.200 plantios e autorizar a compra de mais 3 mil mudas, a gestão abriu um canal direto via WhatsApp para que os próprios moradores solicitem novos plantios e serviços autorizados de poda, transformando a política ambiental em um compromisso coletivo e contínuo.
Embutir a fiação
Curitiba planeja ampliar a rede elétrica embutida subterrânea. Mas por que isso importa para as árvores? Quando os cabos saem de cena, quem mais celebra são as árvores das vias públicas. Historicamente submetidas a podas drásticas, mutilações em formato de “V” e cortes de emergência para desobstruir a rede de energia, com os fios embutidos as espécies deixam de sofrer ferimentos profundos que abrem portas para infestações de pragas, fungos e o consequente apodrecimento do tronco. Sem o conflito direto com os fios, a vegetação preserva a integridade estrutural da sua copa e tronco, reduzindo a um só tempo o risco de quedas e o gasto público com manutenções emergenciais.
Além de poupar a saúde dos indivíduos arbóreos, a transição para redes subterrâneas devolve a liberdade para o desenvolvimento pleno da flora nas calçadas e canteiros. Livre dos obstáculos aéreos, a cidade pode diversificar e planejar o cultivo de espécies de médio e grande porte. A paisagem ganha em estética ao se livrar do emaranhado de cabos suspensos, enquanto as árvores deixam de ser vistas como vilãs da rede elétrica e passam a exercer, sem amarras, sua verdadeira vocação de infraestrutura viva e protetora das nossas ruas.
O papel do cidadão
É importante destacar que a construção de um ambiente urbano mais equilibrado e agradável depende da colaboração direta entre o poder público e os cidadãos. A participação comunitária começa no apoio às iniciativas ecológicas e na extensão do verde para dentro de casa: quando as calçadas não comportam o plantio viário, a população pode contribuir cultivando espécies adequadas em seus próprios quintais e jardins particulares. Além disso, os moradores podem atuar na implantação e preservação de calçadas verdes ou ecológicas, adotando faixas permeáveis e canteiros que favoreçam a aeração do solo e a infiltração da água das chuvas, sempre respeitando a faixa livre necessária para a acessibilidade dos pedestres.
Outro aspecto fundamental reside no cuidado diário e no respeito às árvores já existentes nos espaços públicos. Pequenas atitudes cidadãs evitam agressões severas ao patrimônio arbóreo, como nunca caiar ou pintar troncos, não fixar pregos, faixas ou anúncios publicitários nas árvores e jamais depositar entulhos ou lixo sobre canteiros e raízes. A população também contribui evitando intervenções indevidas por conta própria: serviços como podas e remoções em áreas públicas exigem critérios técnicos e autorização dos órgãos ambientais competentes. Ao agir como fiscalizadora e protetora das áreas verdes do seu bairro, a comunidade transforma a arborização em um patrimônio coletivo duradouro.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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