Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, está reeleito para um quarto mandato como presidente. Mas o que se verá no Brasil a partir de agora alterará a lógica política do país desde 1945, que era baseada na tríade PSD, PTB e UDN. Como mostra a cientista política Lúcia Hippolito em seu obrigatório “PSD, de Raposas e Reformistas”, até 1964 a estabilidade política brasileira baseou-se numa aliança entre o PSD e o PTB.
O PSD era o partido de centro que unia boa parte da antiga elite agrária que governou o país na República Velha com novos rostos surgidos entre profissionais liberais com o crescimento das cidades, como Juscelino Kubitschek. O PTB reuniu a classe trabalhadora que ascendia com o fortalecimento dos sindicados. Na oposição, a UDN tornou-se o partido dos conservadores, empresários, mundo financeiro e parte também dos novos profissionais liberais nas cidades.
Leia maisEssa lógica só foi quebrada quando Jânio Quadros foi eleito, gerando tremenda instabilidade. Ampliada com a renúncia de Jânio. Num tempo em que presidente e vice eram eleitos separadamente, o de Jânio era João Goulart, do PTB. Jango suou para tomar posse. Acabou governando pressionando por esquerda e direita o tempo todo. Resistiu por dois anos até ser colhido pelo golpe militar em 1964. Quando o Brasil reconquistou a democracia, as novas forças políticas se organizaram mantendo a lógica.
Primeiro o MDB, depois o PSDB e, mais recentemente, o PSD e outras legendas de centro mantiveram o papel de “partidos da governabilidade” que tinha o PSD. O PT, modernizado com novas teses, tornou-se a principal força do trabalhismo. Partidos como o União Brasil e o Progressistas ocuparam o espaço da antiga UDN. Na redemocratização, alianças mudaram. Mas a sombra da antiga tríade sempre permaneceu. A não ser no rápido soluço produzido pela vitória de Fernando Collor em 1989. E quando Jair Bolsonaro venceu em 2018.
Esta eleição de 2026 parece provocar uma profunda mudança nessa lógica. As grandes alterações nas relações entre patrões e empregados enfraqueceram o modelo trabalhista tradicional. Sindicatos já não têm a mesma importância. Fora Lula, nenhum dos velhos caciques do PT conseguiu ser eleito. O que emergiu das urnas é uma nova geração produzida a partir de novos embates.
Mesmo o crescimento de Lula ocorrido no segundo turno não foi produzido pela cúpula petista nem pela sua campanha. Mas por estudantes nas ruas e por André Janones, que é um deputado da Rede, desconsiderado no primeiro turno. Nomes como a deputada eleita Ana Elisa (PT-MG) são uma nova oposição.
Da mesma forma, o que emerge a partir de Flávio Bolsonaro e dos nomes que foram eleitos tanto no Senado quanto na Câmara, tornando o PL o maior partido nas duas Casas, são uma nova direita. Contamos aqui na sexta-feira os esforços do Centrão para não perder sua hegemonia no Congresso. Terão trabalho.
O que se projeta é que o embate político a partir de janeiro vai se dar a partir de uma nova agenda. Os temas que a nova direita tentará implementar não são os que eram representados pelo velho centro com cara de PSD do passado. Provável aprovação de projetos de maior rigor na área de segurança, temas ligados a costumes, questões ambientais.
Da mesma forma, deverá haver uma mudança na agenda à esquerda. Foi visível no terceiro governo Lula certo descompasso em diversos momentos entre as novas aspirações da sociedade e uma visão envelhecida. Um caso emblemático foi a tentativa de regulamentar o trabalho de motoristas de aplicativo procurando aproximá-los da CLT.
Tudo isso projeta pela primeira vez um embate entre novas forças políticas no país. As velhas forças, naturalmente, irão se mover e procurar seus espaços para não perder relevância. Mas tudo indica que elas terão que se encaixar em papeis coadjuvantes. Pelo menos neste primeiro e como se aglutinarão agora diante da vitória de Lula.
Restará saber, então, o que acontecerá em 2030. Lula disputou neste domingo sua última eleição. Venceu novamente. Mas o PT não tem um nome para sucedê-lo. Pela direita, resta saber quem disputará. Alguém ainda do clã Bolsonaro? Outro nome que emerja da direita? Um fato, porém, parece estar claro. Nada será como antes.
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