Ainda se morre de fome no mundo, especialmente em países da África, como Sudão, e na Faixa de Gaza, no Oriente Médio, onde a crise humanitária agrava a situação. A guerra é o principal vetor, destruindo infraestruturas e forçando deslocamentos (mais de 85 milhões de pessoas deslocadas em zonas de crise). Cerca de 35,5 milhões de crianças sofreram desnutrição aguda em 2025, com quase 10 milhões em estado severo.
A guerra no Oriente Médio e outras tensões elevam o custo de combustíveis e fertilizantes, encarecendo alimentos. África (especialmente Sahel e chifre da África), Oriente Médio e partes da Ásia registram os cenários mais graves. A ONU alerta que a fome está sendo usada como arma de guerra e a meta de erradicá-la até 2030 está cada vez mais distante.
O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, com redução significativa da insegurança alimentar grave entre 2022 e 2024. Pesquisas indicam que, embora o País tenha superado o nível de desnutrição crônica, ainda existem 28,5 milhões de almas vivas em algum nível de insegurança alimentar (21,4 milhões moderada e 7,1 milhões grave).
Nunca passei fome, graças a Deus. Criança no Sertão das desigualdades de Dom Francisco, que fazia sermões contra a fome na igreja e nos microfones da rádio Pajeú, não sabia o que era fome porque meus pais sempre trabalharam muito no comércio para nos proporcionar uma vida digna.
Meu pai Gastão Cerquinha, que se vivo fosse teria feito ontem 104 anos, chegou a se destacar entre os maiores e mais fartos comerciantes em Afogados da Ingazeira. Nunca deixou de proporcionar uma mesa farta a sua grande prole, nove filhos, todos vindos ao mundo em partos caseiros, de uma única parteira, dona Dora Galvão, uma mão-santa.
Só senti mais tarde a assombração da fome já no Recife, quando, estudante universitário, vivi de mesada, livrando-me dela em bandejões universitários de péssima qualidade. Quando dizia que a fome é má-conselheira, dom Francisco expressava, sem papas na língua, a forma mais sutil de estímulo aos saques às feiras livres no Sertão pelas ovelhas famintas que conduzia no campo e mais tarde tangidas para periferia, onde a fome é mais perversa.
Mais adiante, como jornalista, ouvi de Dom Francisco, eu já menino com cabelo na venta, numa entrevista de página inteira ao Diário de Pernambuco, jornal que comecei como correspondente em Afogados da Ingazeira, que a melhor forma de escapar da morte pela fome era saquear. O bispo dizia isso para instigar o governo. Na defesa das suas ovelhas famintas era implacável com quem estava no poder. Por isso, metia medo, era assombração.
“A única coisa que mete medo em político é povo na rua”, dizia o saudoso Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas, combatente do regime militar. Figura central na redemocratização do Brasil e na promulgação da Constituição de 1988, Doutor Ulysses defendia que a mobilização social era a única forma de evitar abusos de poder e privilégios legislativos.
A fome, que assombra o mundo mais uma vez, segundo o mais recente relatório da ONU, chega até nós em imagens dolorosas pela TV, como vi na reportagem de Ilze Scamparini, no JN, reproduzindo imagens de gente esquálida, homens, mulheres e crianças africanas.
Dói mais do que a fome na barriga ver quem se ama sem ter o que comer. É um grito mudo preso no peito. Um homem com fome não é um homem livre, no conceito do bispo vermelho. Dom Francisco morreu em 2006. Deixou como legado o destemor ante poderosos na defesa do seu povo humilde e sedento.
Quem já sentiu fome sempre sabe que se trata de um holocausto silencioso. Segundo José Saramago, autor do “Ensaio sobre a cegueira”, não é a pornografia que é obscena, é a fome.
Nenhum homem deveria sentar-se em paz à mesa farta, sabendo que em algum lugar há um irmão seu passando fome. A fome, por fim, transforma qualquer homem em ladrão. Quem já sentiu a dor da fome sabe a alegria que alguém sente ao receber uma doação de alimento.
Rachel de Queiroz, de “O Quinze”, tinha razão: “Fome demais tira o juízo”.
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