Por Inácio Feitosa*
Existe uma mentira confortável que o mundo repete há séculos: a do vencedor solitário, que se fez sozinho e deve a vitória só ao próprio esforço. Agrada ao ego, mas não resiste a um olhar honesto sobre a vida. Ninguém vence sozinho – e quem vence de verdade não vence apenas para si.
Aprendi cedo, sem saber que aprendia. Aos doze anos eu vendia picolé de saquinho no condomínio e ganhei dinheiro pela primeira vez, sem imaginar que aquilo era uma semente. Mas era. E toda semente, para nascer, precisa ser enterrada no escuro.
Leia maisO escuro chegou anos depois. Já executivo num grande grupo, fui empurrado para uma sala que era o almoxarifado da empresa – manobra para me forçar a pedir demissão. Foi meu fundo do poço. E ali decidi não me lamentar: transformei o quarto escuro em sala de estudos. A vida tem retrovisor, mas é para frente que se olha.
Não saí do poço sozinho – nunca sairia. No escuro, duas lanternas. A primeira foi Isabel, minha esposa, a quem chamo de Vida. Numa manhã de 2013, em lágrimas, ela me contou que nossa segunda filha estava a caminho – e chorava de medo, porque faltava dinheiro. Respondi: “Este é um sinal de Deus de que dias melhores virão.” E vieram. A segunda foi um Judeu de quase cem anos que, num café, me perguntava sempre: “Quem é você?” Sou tudo o que essas pessoas semearam em mim.
Pense na sua última conquista: quantas mãos invisíveis sustentaram o caminho até ali? A vitória tem sempre mais donos do que aparece na foto.
Por isso a gratidão não é gentileza — é lucidez. Dizer “obrigado” é reconhecer que ficamos obrigados, que há uma dívida de amor a honrar. O primeiro dever de casa da vida é não reclamar e agradecer. Quem perde a graça de agradecer acredita na própria lenda — e tropeça nela.
Há ainda uma dimensão maior, que os apressados chamam de sorte e os humildes chamam de fé. “Pedi, e recebereis; buscai, e achareis”, diz o Evangelho — mas depois do pedido vem o suor. Empreender é responder à parábola dos talentos: a Deus não agrada quem enterra o que recebeu por medo, mas quem faz frutificar. Ter fé é trabalhar sabendo que não somos a fonte de tudo, apenas o instrumento.
Empreender nunca foi apenas ganhar dinheiro — ainda que ganhá-lo seja digno: o pecado não está em ganhar, e sim em fazer mau uso. Empreender é criar, gerar oportunidade, devolver dignidade a quem precisava de uma chance. Quando um negócio cresce, cresce a mesa de muitas famílias. O verdadeiro sucesso não se acumula numa conta; multiplica-se em vidas.
Por isso a dignidade é o fio que costura tudo. Não existe vitória construída sobre a humilhação de alguém — eu sei, porque já me quiseram humilhar, e escolhi transformar o excremento em adubo. Subir levantando os outros: isso, sim, é vitória. Riqueza sem dignidade é apenas dinheiro. Vitória com dignidade é legado.
E legado eu aprendi olhando três gerações para trás. Meu avô, Inácio José Feitosa, foi prefeito de Monteiro e levou energia elétrica ao sertão. Meu pai, João, me ensinou pelo exemplo até o último dia — e aprendi, quando a doença o levou, que às vezes é preciso interromper os próprios sonhos para segurar a mão de quem amamos. Nada do que sou começou em mim.
Então, quem vence quando você vence? Vence a sua família, que dividiu os medos. Vencem as pessoas que você emprega. Vence a comunidade que ganha um exemplo. Vencem os que virão depois e caminharão mais leve porque você abriu a trilha. E vence, silenciosamente, o próprio Deus, que confiou a você talentos e esperou vê-los frutificar.
A vida ensina que colecionar troféus não enche o peito. O que enche é olhar para trás e ver quantos venceram junto. Vença, então. Vença muito, com fé, trabalho e coragem. Mas não se esqueça, nunca, de dizer obrigado — porque a vitória que não sabe agradecer ainda não entendeu para que serve.
*Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor.
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