Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Considerada uma das mais argutas raposas políticas em atividade, não se pode dizer nestas eleições que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, tenha feito as apostas mais acertadas. Kassab apostou na construção de uma terceira via à polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Não deu nada certo. Candidato a vice na chapa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, os dois ficaram apenas em quinto lugar ao final do primeiro turno.
Caiado obteve 2,18% do total, ou 2,6 milhões de votos. Ficou atrás de Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão). Antes, algumas pesquisas chegaram a dar Caiado liderando no estado que governou. Mas ele acabou vítima do voto útil de direita em Flávio. Terminou em Goiás em terceiro, recebendo ali 12,29% dos votos, enquanto Flávio ficou com 53,61%. Certamente muito disso tudo se deve ao próprio perfil de Caiado: um político de direita.
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Portanto não exatamente alguém que pudesse aparecer como alternativa pelo centro à polarização. Muito menos com o perfil que sempre teve o PSD. A forma que Kassab optou para a escolha também foi meio controversa. Estimulou uma disputa interna de Caiado com os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e do Paraná, Ratinho Jr., com uma clara preferência por Ratinho. Quando Ratinho desistiu, optou por Caiado, escanteando Leite. Caiado não convenceu a quase ninguém como alternativa.
Porém, seria um erro considerar que o PSD seja carta fora do baralho político. É o partido com mais prefeitos no país. É a quarta bancada na Câmara, com 43 deputados, um a mais do que elegeu em 2022. Terá quatro senadores. Perdeu uma aposta importante com Eduardo Paes, no Rio de Janeiro. Mas foi o partido que mais elegeu governadores, com Raquel Lyra em Pernambuco, Omar Aziz no Amazonas, Dr. Furlan no Amapá, Eduardo Braide no Maranhão e Fabio Mitidieri em Sergipe.
Terá, assim, um papel importante na recomposição que o Centrão já ensaia para se contrapor ao avanço da direita representado pelo PL. Ao participar nesta terça-feira (27) do evento “Brasil Quadriênio 2027/2030 – O que esperar dos eleitos?”, promovido pelo Dominiun Group, Kassab apresentou sua carta: a defesa do voto distrital misto no país como ponto principal de uma reforma política.
Ainda que tenha dito ser uma proposta difícil de avançar, no fundo o caminho pode ser outro junto aos políticos tradicionais do Centrão. Mais e mais, eles têm perdido espaço para os “políticos Tik Tokers”, a turma que ganha espaço nas redes sociais, obtendo votos dispersos nos estados. A ideia concentra os votos nas bases eleitorais.
Kassab disse isso claramente no evento. Para ele, o atual sistema favorece candidatos que conquistam votos em várias cidades dispersas sem manter vínculos com os eleitores. Para o presidente do PSD, isso gera o que se vê quase todo dia no Congresso: uma turma gravando selfies para construir cortes para as redes em vez de discutir o país.
A disposição de Kassab é tão grande que, pela primeira vez, ele resolveu que fechará questão sobre o tema, ameaçando mesmo de expulsão aqueles que ficarem contra a ideia do voto distrital misto. “É uma decisão que a gente tomou pelo bem do Brasil”, afirmou. “Podemos ficar até com um parlamentar, com dois, mas é irreversível”.
Tal ideia já vinha em discussão. E chegou até a ser defendida pelo ministro do STF Alexandre de Moraes e pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos). No voto distrital misto, parte dos deputados é eleita por distritos (seções dos estados), e parte pelo modelo tradicional, como é hoje. O sistema distrital puro é adotado nos EUA.
Os estados, então, seriam divididos em vários distritos. E, em cada um desses distritos, seria eleito o candidato com mais votos. Digamos que os distritais sejam a metade. Na outra metade, a bancada seria eleita pelo sistema proporcional. São Paulo, por exemplo, tem 70 deputados: 35 seriam no modelo distrital e outros 35 no proporcional.
Esse seria, na posição de Kassab, o primeiro passo de uma profunda reforma política. E essa seria a agenda principal do PSD para o ano que vem. A segunda agenda seria a reforma do Judiciário, que também parece algo inevitável a partir do próximo ano. Ela chegou a ser defendida pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora reeleito.
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